Programa humaniza atendimento a doentes de aids
Texto: Adriana Rota
Doze profissionais de áreas variadas atendem 14 pacientes em domicílio. Trabalho é barato e melhora qualidade de vida
Humanizar o atendimento ao portador do vírus HIV e ao doente de aids. Esse é o intuito do Programa de Assistência Domiciliar Terapêutica (ADT), mantido através de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde o Ministério da Saúde, desde 1996. Uma equipe multidisciplinar de 12 profissionais atende os pacientes em casa, tornando menos penoso e oneroso o tratamento.
Atualmente, 14 pacientes têm sido acompanhados mensalmente, uma média considerada alta quando comparada a outras cidades. De acordo com a assistente social da Seção de Moléstias Infecciosas (SMI) da Secretaria e coordenadora do projeto, Silvia Regina Forti, 35 anos, esse número sofre alguma variação, conforme as necessidades.
Ela não soube precisar quantos pacientes aguardam vaga, mas afirmou que são poucos. Algumas vezes, um ou outro atendido recebe alta temporária ou uma espécie de alta parcial, na qual um membro da equipe permanece vinculado ao primeiro paciente para ceder lugar a casos urgentes.
Vinculado ao programa municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST)/Aids, o ADT conta com verbas de um convênio firmado com o Ministério da Saúde.
À Prefeitura, cabe ceder os profissionais e o local. As unidades básicas de saúde, prontos-socorros, hospitais, voluntários e a Sociedade de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab), fornecem apoio social e de atendimento para o ADT.
Iniciado em 1996 com metade do corpo de voluntários e quatro atendidos por mês, sempre de residentes da cidade, o serviço
é realizado de segunda a sexta-feira, das 7 às 17 horas, mesmo horário de atendimento da SMI.
Desde sua criação, 108 pacientes participaram do programa. Silvia informou que o Estado tem, hoje, de 25 a 30 ADTs. No Brasil, o programa existe desde 1990, surgindo por iniciativa da cidade de Santos (SP), local onde os profissionais participantes receberam o primeiro treinamento.
A equipe, de 12 componentes, é composta por médico, enfermeiro, assistente social, psicólogo, auxiliar de enfermagem e motorista, auxiliados por um pessoal de apoio, das áreas de nutrição, fisioterapia, terapia ocupacional, odontologia e outros quando necessário. Para se ter uma idéia, o médico faz cerca de 30 visitas ao mês; enfermeiro, 25; assistente social, 30 a 35; auxiliar de enfermagem, 100; nutricionista, terapeuta e fisioterapeuta, 10 a 15.
O paciente inscrito recebe cuidados em saúde dos próprios familiares e amigos (chamados de cuidadores), além de assistência da equipe de profissionais especializados. Só são inscritas pessoas matriculadas na SMI, que não tenham condições físicas de locomoção até a unidade de referência e cujo estado de saúde permita sua permanência em casa. Elas têm um prontuário pessoal em casa e outro na sede do programa e, dependendo da evolução de seu estado de saúde, o paciente recebe alta ou é encaminhado para internação hospitalar.
A família e o paciente devem consentir a feitura do trabalho. Outro pressuposto básico é que a moradia apresente condições mínimas de higiene, de modo que evite a possibilidade de contaminações. A equipe fornece informações para que o ambiente seja adequado
às exigências.
De acordo com o tratamento de cada paciente, são fornecidos medicamentos, curativos, soroterapia, coleta de materiais, empréstimo de equipamentos (cadeiras de roda, suportes para soro, inalador, dentre outros). O cuidador recebe as devidas orientações para cuidar do paciente.
ADT é eficiente e barato
O atendimento mais humanizado é capaz de promover melhorias no estado emocional e clínico do paciente, de acordo com a coordenadora do projeto. "Antigamente, o paciente morria mais rápido, muito mais cedo. Agora, administra melhor a situação".
O fato de não precisar se furtar do convívio familiar propicia, além da segurança e do carinho dos entes queridos, a participação mais ativa deles e do próprio paciente, que não raras vezes abandona o tratamento quando não tem um estímulo direto, tendendo a episódios depressivos. "Ele sente-se mais seguro, passa a ter mais credibilidade no tratamento. O hospital é sempre mais frio. No atendimento domiciliar, a resposta mais rápida, porque ele é prioridade".
Um expediente utilizado com sucesso pela equipe é promover visitas dos atendidos para os que estão acamados ou depressivos. Fala-se da possibilidade real da morte desde o momento da divulgação do resultado do exame, uma vez que a aids ainda é uma enfermidade sem cura, embora o tratamento possa fornecer uma qualidade de vida considerável. "Partimos do pressuposto de que a pessoa só vai lidar direito com a vida quando souber lidar com a morte".
A coordenadora do projeto falou, ainda, que a proximidade com a família e as pessoas que habitualmente convivem com o paciente contribui para minorar o preconceito e a discriminação contra os portadores de HIV e aqueles que já manifestam a enfermidade, que passam a ser encarados como doentes, não como "aidéticos", palavra que contém uma carga negativa.
Silvia salientou que não só o atendido se beneficia desse tipo de atendimento. Os grupos de cuidadores falam sobre seus sentimentos e tiram suas dúvidas nas reuniões mensais das quais participam, na presença de um psicólogo e da assistente social. A equipe, única que mantém a mesma formação desde o início do trabalho, faz discussões de casos e participa de encontros freqüentes com outras ADTs, para trocas de experiências. O terceiro encontro nacional ocorre ainda neste ano. "O grupo está cada vez mais fortalecido, unido, trabalhando melhor e tornando os obstáculos mais amenos".
Baixo custo
Além da melhoria na qualidade de vida, da diminuição do risco de infecções e do aumento de disponibilidade de leitos hospitalares, outro fator que torna o programa atraente, especialmente aos cofres públicos, é seu custo.
Uma pesquisa realizada pela Fipe em 1998 demonstrou que o custo de um portador de HIV ou doente de aids atendido em ambulatório era de R$ 8,11 na época. No hospital convencional, esse valor subia para R$ 106,42. Já no ADT, os gastos eram de R$ 12,37. Detalhe: utilizando-se os mesmos profissionais, equipamentos e medicamentos.
Folheto orienta cuidadores e familiares
O programa distribui um folheto aos cuidadores e familiares do paciente, onde esclarece que a aids não é transmitida pelo convívio normal das pessoas, a importância de ter o enfermo por perto e fornece orientações para que tanto a família quanto o portador do vírus ou o doente de aids estejam protegidos. Veja os principais itens:
*Dentro do possível, a casa e o quarto devem ser arejados e ensolarados para evitar a umidade;
*flores não devem permanecer no quarto de dormir;
*contatos com animais domésticos devem ser evitados;
*visitas e banhos diários são permitidos e desejáveis;
*o contato com o sangue, fezes e excreções (sêmen, corrimento, feridas) tem de ser evitado. Caso seja impossível, use luvas de borracha;
*é importante lavar as mãos com sabonete comum antes e depois de cuidar do paciente e antes de preparar sua alimentação;
*devem ser de uso pessoal do paciente: toalha de banho, escova de dentes, aparelho de fazer barba, alicate de unhas, buchas e esponjas;
*o mesmo banheiro pode ser usado pelas pessoas da casa. A limpeza do piso, pia e vaso sanitário deve ser feita diariamente com água sanitária diluída em partes iguais e o material usado para limpeza deve ser usado somente no banheiro. O lixo deve ser colocado em saco plástico;
limpar o piso e a pia diariamente com *na cozinha, pode-se usar somente água e sabão, diariamente. O pano de chão não deve ser lavado na pia da cozinha, a geladeira deve ser limpa com água e sabão uma vez por semana. Pratos, copo e talheres podem ser os mesmos, basta lavá-los corretamente;
*roupas de cama, íntimas (cueca, calcinha) ou qualquer outra roupa que estiver com sangue, fezes ou secreções devem ser fervidas por meia hora ou colocadas por 10 minutos em um litro de água sanitária, diluída em quatro litros de água. Depois, podem ser lavadas normalmente com
água e sabão;
*é importante tomar cuidado ao manipular objetos afiados, gazes e compressas, jogando-os em locais apropriados - recipientes rígidos e resistentes, como galões de plástico ou metal e latas com tampa - e nunca reutilizando-os;
*colchões e travesseiros devem ser protegidos com capas plásticas, que deverão ser limpas regularmente com
água, sabão e desinfetantes.
Serviços disponíveis à população
Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/HIV e AIDS (CTA/Coas)
- 13 às 17 horas. Rua Quintino Bocaiúva, 5-45. Telefone 235-1393;
Assistência Domiciliar Terapêutica (ADT) e Seção de Moléstias Infecciosas (SMI) - 7 às 17 horas. Rua Silvério São João s/n. Telefone 235-1463;
Trabalho de educação e prevenção com oferecimento de cursos, palestras, trabalho com população específica (crianças, adolescentes, mulheres e outros)
- 8 às 17 horas. Rua José Aiello, 3-30. Telefone 223-2355.