Vida religiosa exige vocação verdadeira
Texto: Adriana Rota
Madres que participaram do Primeiro Encontro Internacional das Apóstolas falaram sobre a atuação numa congregação
Quem pensa que ingressar na religião pode representar o passaporte para uma rotina de viagens, obtenção gratuita de cultura e manutenção de uma vida tranqüila e confortável, bastando alguma fé e um pouco de boa-vontade para alcançá-la, precisa começar a rever seus posicionamentos.
Religiosas experientes e conceituadas, que se despedem hoje de Bauru após participarem da comemoração dos 100 anos do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ) no Brasil, falam sobre as exigências do ofício.
A madre superiora geral do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ), Maria Auxiliadora de Godoy, 68 anos, concedeu uma entrevista ao JC em companhia das madres superioras provinciais de São Paulo, Alice Reginato, 54 anos, e do Paraná, Elvira Natalina Nicheli, 71 anos. Elas têm, respectivamente, 46, 33 e 50 anos dedicados à Igreja Católica. Em comum, o fato de pertencerem a famílias de religiosos.
Madre Maria Auxiliadora, que na última quinta-feira recebeu do prefeito Nilson Costa o título de hóspede oficial do município, foi diretora do Colégio São José, chanceler da Universidade do Sagrado Coração
(USC), superiora das províncias de São Paulo e do Paraná. Atualmente, mora em Roma (Itália), sede da congregação.
Veja os principais trechos da conversa.
JC - Antigamente falava-se muito em mandar para o convento mulheres solteiras que engravidavam, divorciadas ou viúvas. Como é hoje?
Madre Maria Auxiliadora - Uma vocação religiosa
é sempre um chamado de Deus e, geralmente, depende de uma vida de fé. O Evangelho diz "Não foste vós que me escolheste, fui eu que te escolhi". Então, o chamado é sempre de Deus. Agora, quando você é chamada, pode responder ou não. Acontece hoje: pessoas que sentem no coração esse desejo, mas não têm coragem. Por isso é preciso ter um acompanhamento, uma formação. Mas, se não é decididamente para seguir Jesus, doar-se aos outros, não é vocação, porque ela não é fuga do mundo, não é para se promover. Se os motivos foram esses, não resiste muito tempo. A própria pessoa acaba concluindo que não tem condições de continuar. A gente faz a profissão, que não é sacrifício, renúncia, é doação.
JC - O que é necessário para ser freira?
Madre Maria Auxiliadora -Primeira coisa, procurar um sacerdote que dê orientação. A pessoa passa por um processo de discernimento. Depois, tem certas condições. Será que eu posso seguir? Tenho boa saúde mental e física? Minha família está de acordo? Tenho capacidade de crescer culturalmente?
JC - Quem tiver menos condições, então, seria desfavorecida?
Madre Maria Auxiliadora - Não, porque o que a gente vê é a pessoa. Ela é humilde porque não teve meios, mas é interessante, é capaz, então pode e tem de ter estudo para desenvolver-se culturalmente. É preciso ter disposição para a doação, não importa em qual área atue, porque é para Jesus.
JC - Quais os "passos" para tornar-se freira?
Madre Maria Auxiliadora - Depois do caminho do discernimento, tem todas as etapas de formação (veja quadro). Dentre muitas outras coisas, é observado seu relacionamento grupal e na comunidade, a capacidade de equilibrar a vida de oração com a de trabalho e de manter os votos de pobreza, obediência e castidade. A moça está livre para ir embora em qualquer época, se descobrir que não é o que quer ou se percebermos que ela não tem condições.
JC - Fale mais sobre os votos.
Madre Maria Auxiliadora - O voto de pobreza representa deixar todos os bens materiais; de obediência, obedecer mesmo; de castidade, uma auto-análise para que ela saiba se é capaz de viver sozinha afetivamente, sem precisar de ninguém ao seu lado (a gente sabe quais são as necessidades da natureza humana, principalmente da mulher).
JC - Como fica o propalado instinto da maternidade e a sexualidade? Eles têm de ser trabalhados?
Madre Maria Auxiliadora - Sim. Todo mundo tem de conhecer a psicologia, as exigências da natureza humana, de uma mulher
"normal", e saber se tem condições, realmente, de fazer a oferta. Mas tem de ter conhecimento profundo, por exemplo, da área sexual.
Madre Alice Reginato - Viver a castidade é um dom. A jovem vocacionada recebe uma graça especial para superar, consagrar e viver a castidade numa outra dimensão, a espiritual.
JC - As mudanças do mundo influenciam muito no modo de viver?
Madre Maria Auxiliadora - Muito, e esse é o maior desafio. Porque se realmente estou a fim de seguir esse Jesus, conhecê-lo, é na alegria que a devo enfrentar esses desafios. E quanto mais você supera, mais mais se auto-afirma como pessoa e como religiosa.
JC - A mulher, dentro da Igreja, pleitea direitos iguais como nós, de fora? Há algum movimento para atuar como os padres, por exemplo?
Madre Maria Auxiliadora - Existem tendências de igualdade, mas a Igreja se baseia no fato teológico. Jesus instituiu o sacerdócio para homens. Então, as religiosas não podem substituir os sacerdotes em todos os níveis. Tem alguma coisa que não se podia fazer, mas agora pode: por exemplo, dar a Comunhão, ser ministra extraordinária, atuar na liturgia na formação dos líderes. As leigas também. Fazer Batismo, podem. O que não podem, por exemplo, o sacramento da Confissão, da Reconciliação, celebrar a missa. Temos de seguir as orientações do Papa e, até hoje, nenhum disse que a mulher pode ser sacerdote.
JC - Vocês acham que essa é uma situação fechada ou pode ser revista com o tempo?
Acho que temos de viver o momento presente, porque é uma situação equilibrada, e ver o que Deus pede.
JC - É considerável o número de iniciantes que abandonam?
Madre Maria Auxiliadora - É maior o número daquelas que perseveram. Uma ou outra desistência é normal.
JC - São comuns as inquietações entre as que estão entrando na vida religiosa?
Madre Maria Auxiliadora - Faz parte da vida, né?!
É o tempo que dá possibilidade de auto-afirmação. Por crises todo mundo passa, porque fazem parte do processo de crescimento, maturidade.
JC - Quem foi a primeira freira da História?
Madre Alice Reginato - O primeiro consagrado foi Jesus e, depois, Nossa Senhora. Jesus é o modelo do homem e da mulher. Ele valorizou todos os estados de vida mas falou para os apóstolos "Quem quiser compreender, que compreenda". O ficar só não é uma solidão vazia,
é uma solidão que preenche. A vida toda de Jesus foi para o Pai. É o modelo de consagrado: ser todo de Deus para ser todo dos irmãos.
Madre Maria Auxiliadora - Por outro lado, desde que Jesus veio ao mundo, tinha essa tendência das mulheres segui-lo. A história mostra que, nos últimos tempos, a Igreja assumiu para dar uma norma. São Vicente de Paulo, por exemplo, queria que as religiosas dele fossem livres para servir aos pobres, mas que não fosse uma congregação religiosa. Porém, a Igreja vendo as tendências, para dar uma assistência maior, codificou isso. O Direito Canônico regula todas as congregações.
Brasil ocupa lugar de destaque
Cem anos depois da chegada de seis religiosas italianas do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus
(IASCJ) ao Brasil, o País ocupa um lugar de destaque no contexto mundial da congregação. O número crescente de novos membros dotados de vitalidade, dinamismo e desejo de uma vida religiosa autêntica (conforme destacaram as entrevistadas) resultou no estabelecimento de duas províncias
-em Pompéia (SP), fundada em 1921, e em Curitiba (PR), fundada em 1957, além da vice-província de Brasília
(DF), de 1993.
Do total de aproximadamente 1.500 apóstolas, pelo menos 700 são brasileiras, atuantes nas áreas de Educação, Saúde e Promoção Humana em todas as regiões do País e do globo. Manutenção de asilos, creches, casas de assistência a jovens sem família, portadores de deficiências mentais, abandonados, índios, recuperação de alcoólatras, dependentes químicos, são algumas das atividades da congregação, que não deixa de lado o trabalho da orientação social nas comunidades atendidas.
Uma explicação possível para tamanho sucesso, na opinião da madre superiora geral do IASCJ, Maria Auxiliadora de Godoy, pode ser o fato de tratar-se de um novo continente, enquanto em outros locais, como a Europa, a florescência teria ocorrido no passado. Outro ponto de vista considerável
é que estamos num país de terceiro mundo. "Os mais desenvolvidos perdem um pouco o sentido do sobrenatural. Aqui, parece que há mais sede de Deus", disse a religiosa. Ter uma brasileira no comando da congregação seria apenas uma conseqüência desse processo. "A nacionalidade não importa. Estamos a serviço de Jesus".
Os pedidos de instalação de províncias, vice-províncias e coordenações (caso de países menores),
é freqüente. A iniciativa parte de autoridades locais da Igreja e cada caso é analisado cuidadosamente, já que não existe gente suficiente para atuar em todos os países. Filipinas, Austrália, Índia são algumas localidades que almejam ter uma sede da IASCJ.
Na última década, que teria sido a mais fértil, 11 países tiveram seus pedidos aceitos, como a Albânia e o México. "O papa João Paulo II tem esperança que a China possa se abrir. Taiwan, onde já está instalada, seria o caminho".
As religiosas explicaram que o IASCJ é uma congregação de vida ativa, que difere daquelas de vida contemplativa, onde freiras mantêm-se enclausuradas. Seu carisma específico
é o "amor no coração de Jesus" e o objetivo é disseminá-lo. Sobre as comemorações, consideraram importante como um momento de reflexão e encontro entre "irmãs" de todas as nações
(cerca de 500 participaram do evento).
Quem foi irmã Clélia?
A religiosa que plantou a semente do que viria a ser o Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus
(IASCJ), Clélia Cleópatra Merloni, nasceu no dia 10 de março de 1861, na cidade de Forli (Itália).
Encaminhou-se para a vida religiosa sob orientação da madrasta e de uma avó, embora a idéia não agradasse muito seu pai, um comerciante que, mais tarde, tornou-se um próspero industrial e queria passar os negócios para a filha.
Culta, estudou Francês, aprendeu a tocar piano, bordado. Interna do Colégio da Visitação durante a infância, deixou sua devoção aflorar e assumiu a vocação ao Sagrado Coração de Jesus. Atualmente, o Vaticano estuda sua canonização.
Vida consagrada, passo a passo
Aspirantado - a idade mínima é de 16 anos. Nessa etapa, a jovem vai concluir o ensino médio e receber aulas de formação religiosa. Vai morar em uma comunidade do Instituto e atuar em catequese, pastoral e animação litúrgica das missas. Quem já cursou o ensino médio ficará um tempo no Aspirantado até receber a mínima formação religiosa, cristã e humana.
Propedêutico - o objetivo é favorecer o acompanhamento e a formação humano/cristã mais profunda, visando o discernimento vocacional. Dura cerca de um ano. As participantes que quiserem, ou precisarem, também terão acompanhamento psicológico. De todo o Instituto, o Propedêutico só existe no Brasil.
Postulado - é preciso ter mais de 17 anos e ter cursado o ensino médio. Durante o período de um ano, intensifica sua formação religiosa, aprende sobre o carisma da congregação e sobre a vida da fundadora do IASCJ.
Noviciado Canônico - continua a formação religiosa e estuda as constituições do Instituto, que são os documentos essenciais da vida consagrada. A duração é de um ano.
Noviciado Prático - durante cerca de um ano, vai conviver mais intensamente em comunidade religiosa. Passa a atuar em hospitais, colégios ou em missões.
Primeira profissão religiosa - a iniciante professa votos de castidade, pobreza e obediência. Torna-se apóstola juniora, devendo renovar os votos (que são temporários) a cada ano. Esse período dura de 5 a 9 anos.
Profissão perpétua - depois de 5 anos, quando sentir-se preparada, a jovem faz os votos permanentes, tornando-se professa.
Fonte - IASCJ Centenário, nº 1.