Cachorra: prazer e aventura
A cachorra é um peixe esportivo que atrai não tanto pelo seu ataque, mas pela briga que proporciona.
Os pescadores brasileiros podem se orgulhar de possuírem uma variedade imensa de espécies esportivas em seus rios e lagos. A cachorra, uma das preferidas dos pescadores, apresenta-se em duas espécies, uma que habita a bacia do Prata, que
é mais fina e alongada (Raphiodon volpinus), e a segunda que é mais alta, encorpada e vive nas águas da bacia amazônica (Hydrolycus scomberoides).
Seus caninos lhe renderam o nome cachorra e são eles uma das preocupações dos pescadores na hora de soltá-la. Os dentes chegam a ultrapassar a base do pré-molar quando o peixe fecha a boca e são muito importantes para capturar e prender os peixes que lhe servem de alimento. A dica é ter em mãos dois alicates: um para prender o peixe e outro de bico fino para soltar o anzol. O melhor local para prender a cachorra, é a lateral de sua boca para evitar que seus caninos sejam quebrados ou sofram danos. A cachorra, apesar de sua aparência voraz, não realiza ataques violentos
às iscas. Inclusive, devido à sua arcada, fisgá-la torna-se uma tarefa difícil. É comum o pescador ter várias batidas antes de fisgar seu primeiro exemplar.
Apesar de serem consideradas habitantes das correntezas de rios de médio e grande portes, as cachorras também podem ser capturadas nos trechos mais movimentados dos pequenos rios. Os exemplares de maior tamanho, porém, refugiam-se atrás de obstáculos, como tocos, árvores e pedras. Para o pescador esportivo, a correnteza pode ser uma aliada, pois são as águas que oferecem resistência à retirada do peixe, o que aumenta a emoção e dificulta o embarque do peixe. Por outro lado, a espécie não tem o hábito de se "entocar" ou nadar para enroscos, o que facilita muito o trabalho do pescador.
Os maiores exemplares da cachorra que vive na região amazônica podem chegar a 1,20 m e 15 quilos. Apesar de serem difíceis de encontrar, o pescador deve estar preparado. Já a outra espécie, de menor tamanho, oferece um show maior ao pescador com seus belos saltos. Porém, ambas têm grande facilidade em se livrar do anzol, por isso, o pescador deve estar atento e fisgar corretamente o peixe.
Prateada e dona de uma fisionomia agressiva e marcante, a cachorra chega a surpreender o pescador. Nas artificiais, podem ser capturadas com plugs de meia água, colheres, poppers e hélice. Já na isca natural, é frequentemente capturada com pedaços de peixe da região. Esta bela espécie esportiva pode ser encontrada em vários Estados brasileiros, considerando as duas espécies. Agora só é necessária a oportunidade para fisgá-las. Quem ainda não pôde fisgar uma cachorra, deve ficar preparado para uma boa dose de emoção. (RM)
*****História de pescador*****
Laçando Saracura
Um certo dia, um amigo meu foi pescar lá nas bandas de Barra Bonita e aconteceu algo muito estranho que depois se tornou engraçado. No outro dia, ele já veio me dizendo:
"Marquinho, na hora que aconteceu me lembrei de você para contar essa "história" aos amigos do JC".
Então lá vai! O senhor Osvaldino, cabloco muito macho aqui de Lençóis, muito viajado e pescador com vários troféus, foi pescar com toda a sua família. O dia prometia. Ele preparou toda a sua "traia" e lá na beira do rio ajeitou um molinete com dois anzóis e uma chumbada no meio para pescar corvina, pegou uns lambaris, colocou no anzol, procurou um lugar bem no jeito, perto de uns aguapés, e imaginou consigo: "vou lançar próximo aos aguapés, que ali deve ter traíras, e das boas".
Ele preparou o arremesso, lançou, só que foi muito forte e caiu lá no meio dos aguapés (vocês devem estar perguntando: o que há de estranho nisso?... agora que vem...). Quando o anzol caiu no meio dos aguapés, ouviu-se uma espécie de grito, só que ele nem deu bola e pensou: "vou dar um puxão bem forte, porque deve ter enroscado e vou perder os anzóis". Então ele deu aquela puxada, e nisso veio uma saracura, dessas três potes de arrasto, surfando sobre as águas. Ele imaginou que ela tivesse comido os lambaris e ficado fisgada no anzol.
Quando ela chegou às margens, ele notou que ela havia sido laçada. A chumbada com a linha enrolaram no pescoço da coitada, que já estava quase sem fôlego, aí ele tirou a linha do pescoço, deu um banho nela para poder retomar o fôlego e a soltou. A saracura saiu feliz da vida.
O senhor Osvaldino disse: "pena eu não ter uma filmadora para gravar e mostrar ao pessoal lá de Lençóis..."
Que isso os leitores, principalmente os pescadores, sabem que acontecem coisas muito estranhas e que até Deus duvida, quanto mais nós homens e simples mortais.
Marcos Marques Félix é pescador e contador de histórias verdadeiras que acontecem com os amantes de rios e lagos, e morador em Lençóis Paulista.