07 de julho de 2026
Geral

Drogas

Erika de Lima
| Tempo de leitura: 4 min

Heroína e coca trazem albaneses a Bauru

Texto: Erika de Lima

Missionária encontra dificuldade para internação em outros países e escolhe Bauru para tratar irmãos de dependência química

Dois irmãos albaneses dependentes químicos foram trazidos da Albânia por uma missionária evangélica para se tratarem no Esquadrão da Vida e na clínica de desintoxicação Psique. Um dos irmãos, o mais velho, é dependente de heroína e o outro de cocaína.

Só um dos rapazes ficou na entidade, o dependente em cocaína, que tem 17 anos. O outro, dependente em heroína, foi levado para a clínica de desintoxicação Psique, por causa do estágio avançado de sua dependência.

Segundo o diretor executivo do Esquadrão da Vida, Edmundo Muniz Chaves, a missionária procurou ajuda em diversas entidades da Europa, mas não conseguiu encontrar uma que abrigasse os irmãos. "Esse foi um dos motivos pelo qual a missionária os trouxe para o Brasil", afirma.

Chaves disse que a missionária já conhecia o trabalho da entidade e, por isso decidiu encaminhá-los para lá, no entanto, só um pôde ficar no Esquadrão.

"Além disso, a entidade já é conhecida entre os evangélicos há muito tempo", ressalta.

Ele conta que a missionária evangélica é paulista, mas evangeliza na Albânia há 15 anos e, nos últimos meses não encontrou entidade que fosse compatível com as necessidades dos rapazes. "Ela nos disse que o albanês tem uma cultura que se identifica muito com a brasileira e, por isso, a adaptação ao ambiente

é considerada importante para a obtenção de bons resultados no tratamento", relata o diretor.

Os dois irmãos albaneses tiveram que ser tratados em locais diferentes devido ao grau de dependência. Um deles está na clínica de recuperação, para desintoxicar-se da droga e não correr risco de vida, enquanto que o outro, pela dependência estar controlada, permanecerá no Esquadrão da Vida para continuar o tratamento.

Após sair da clínica, o albanês mais velho será encaminhado ao Esquadrão da Vida, para prosseguir o tratamento, mas buscando uma recuperação emocional e espiritual, aliada a um trabalho psicoterapêutico.

Os albaneses têm autorização para ficar no Brasil, portanto, estão legalmente no País, porque têm o visto no passaporte. Segundo Chaves, eles deverão permanecer seis meses em Bauru, para se recuperarem. "Depois eles voltam para a Albânia, onde a missionária trabalhará com a reintegração deles na família e na sociedade albanesa", revela.

Esse não é o primeiro caso que ocorre em Bauru. A entidade e a clínica de desintoxicação Psique já foram procurados por outros estrangeiros. Uma italiana e um irlandês, ambos depedentes químicos, buscaram os locais para "livrarem-se" da dependência. Tanto a italiana quanto o irlândes conheciam uma família de Bauru, que indicou o tratamento clínico, terapêutico e emocional praticado na instituição filantrópica e na clínica de desintoxicação.

Tratamento clínico e psicológico

Um dos albaneses está sendo tratado através de desintoxicação assistida e indolor na clínica Psique, assistido pelo psiquiatra Wilson Roberto Fabra Siqueira. O albanês está internado e sendo medicado com substâncias químicas como a naltrexone, cujo nome comercial é révia. Esse medicamento serve para bloquear a ação das betaendorfinas, substâncias liberadas pela droga no organismo, que liberam a sensação de prazer. "A naltrexone bloqueia a sensação de prazer, também usada nas desintoxicações de alcóolatras, mas que não provoca dores no dependente, para livrá-lo da dependência", explica.

A metadona é outra substância usada para desintoxicar o dependente, sem causar riscos graves à saúde do paciente. Além da medicação é realizado um tratamento psicoterapêutico para que o paciente consiga viver sem o uso da droga. O psicoterapeuta frisa que o tratamento em grupos de ajuda mútua, impulsiona a "luta" do paciente contra o vício sendo um método muito utilizado e, em geral, eficaz.

Siqueira acredita que o trabalho da clínica em conjunto com uma entidade de recuperação é uma forma de envolver o paciente e ajudá-lo a viver melhor nos três campos: corpo, mente e espírito. "A ligação do dependente com uma religião o aproxima de Deus e à medida que essa aproximação vai sendo maior, mais forças ele tem para libertar-se do vício", acrescenta.

O dependente em heroína, quando em abstinência, tem vários sintomas como tremor, mal-estar, vômitos, dores no corpo, depressão e "fissura" de buscar prazer. Portanto, depende de um especialista para tratá-lo.

O psiquiatra ressalta que a incidência dos usuários de heroína está tornando-se alto. "Antes surgiam mais casos em cidades grandes. A inserção do crack na sociedade há dez anos, está incentivando a chegada da heroína, que está acontecendo em cidades menores também", observa.

A heroína é uma droga que vicia muito mais que a cocaína e chega a levar o usuário à morte.

"Essa droga causa danos irreversíveis ao cérebro", resume.

No entanto, a dependência para esse tipo de entorpecente tem cura, mas é difícil e demorada, requer tempo e vontade própria. Em um tratamento bem sucedido há ainda entre 40% e 50% de probabilidade do paciente voltar a usar a droga.