07 de julho de 2026
Geral

Condomínio

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

Sistema de condomínio inova o setor industrial

Texto: Josefa Cunha

Compartilhar decisões, serviços e despesas de manutenção de áreas comuns. O conceito de condomínio em nada seria inovador não fosse sua transferência para o segmento industrial, mais precisamente para o setor automobilístico, que estreou no sistema através da recém-inaugurada fábrica da General Motors, na cidade de Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre. Lá, montadora e sistemistas (fornecedores) estão instalados num mesmo complexo, compondo o mais moderno condomínio industrial do mundo.

O projeto do Complexo Industrial Automotivo de Gravataí começou a ser elaborado em 1996, com o objetivo de produzir um veículo supercompacto e de custo competitivo. A idéia foi projetada a partir dos mais modernos conceitos mundiais de manufatura enxuta. A direção da GM conta que lançou mão de todos os conhecimentos que detinha em termos de tecnologia, times de trabalho e eficiência de processos.

"Apostamos na disposição dos brasileiros em assimilar coisas novas e o desafio virou realidade", assinalou Jack Smith, presidente do Conselho Mundial da GM, durante a coletiva

à imprensa que antecedeu a inauguração oficial do complexo.

Em Gravataí, o sistema de condomínio extrapola os paradigmas convencionais e, segundo Sérgio Capalbo, gerente de Compras da fábrica, "vai às últimas conseqüências". "Todos aqui estão voltados para o mesmo objetivo, que é montar e vender o produto acabado. Por essa razão, o sistemista só pode faturar seu subconjunto no momento em que o veículo estiver completo e aprovado, pronto para ser vendido. Isso faz com que todos se concentrem na eliminação de problemas inerentes ao processo produtivo, como falta de componentes", detalhou, lembrando que as próprias decisões sobre a manufatura, convencionalmente exclusivas da montadora, são partilhadas com os sistemistas. Vale registrar que a central telefônica no condomínio é única e serve a todos os que estão instalados, a exemplo dos restaurantes e dos serviços de limpeza, segurança, água e gás.

No complexo de Gravataí, a acepção da palavra montadora é fiel, pois todos os subconjuntos utilizados na fabricação são produzidos no local. Das 17 empresas fornecedoras, 16 estão instaladas dentro do condomínio, situado numa área de 3.860 milhões de metros quadrados. A localização dos sistemistas dentro do complexo também foi estrategicamente planejada, de forma a encurtar o caminho da produção. Tudo lá, aliás, foi detalhadamente criado para a mais

ágil logística e, obviamente, em nome da eficiência e baixo custo.

As peças são fabricadas e entregues diretamente pelos fornecedores, numa proximidade que minimiza em 50% a necessidade de estoques. A equação é simples: os sistemistas produzem conforme a demanda da montadora, capaz de fabricar um carro a cada dois minutos. As 16 empresas fornecedoras ficam dioturnamente ligadas on-line à GM para saber das necessidades da linha de montagem. Em caso da falta de algum subcomponente, a entrega ocorre num prazo máximo de 15 minutos, o que reduz expressivamente os riscos de perdas. Para a montadora, a vantagem se estampa, entre outras, na diminuição drástica no número de fornecedores. Para se ter uma idéia, em termos de peças, a redução chega a 50% daquilo que seria comprado no sistema tradicional de produção.

Complexo impacta economia local

O Complexo Industrial Automotivo de Gravataí consumiu mais de US$ 550 milhões em investimentos e emprega diretamente 2.100 pessoas. A instalação da moderna fábrica na cidade, distante 30 quilômetros da capital gaúcha, trouxe novo alento à economia local, que havia amargado a perda da Ford para o município baiano de Camaçari. Atualmente, Gravataí é a quinta maior cidade em produção industrial do Rio Grande do Sul, mas a administração municipal projeta um terceiro lugar na lista com o funcionamento do complexo automotivo.

O prefeito Daniel Bordignon estima que o PIB da cidade salte dos atuais R$ 1,25 bilhão para R$ 2 bilhões até o final deste ano. Já a Associação Comercial e Industrial e de Serviços de Gravataí, a Acigra, calcula para 2001 o crescimento em uma vez e meia da renda per capita.

Os indicadores revelam que os sinais da presença da GM e de seus sistemistas no município começaram a fomentar a economia há três anos, quando do anúncio da instalação do complexo. Segundo dados da Acigra, o volume de consultas ao SPC, que era de 20,5 mil em janeiro de 1999, cresceu 52% na comparação com o mesmo período deste ano, quando foram registradas 31 mil consultas de crédito. Ainda de acordo com a Associação, o volume de novos empreendimentos no ano passado foi de 5,2 por dia útil, saltando para 8 alvarás/dia este ano. O mercado imobiliário na cidade vai segue no mesmo ritmo. Logo na entrada da cidade, pode-se avistar grandes loteamentos de alto padrão.

Em termos de emprego, a expectativa é de que os reflexos da fábrica tragam o chamado efeito multiplicador, com a estimativa de geração de 44 mil empregos no Estado.

Celta: o novo produto

Todo o planejamento do Complexo Industrial Automotivo de Gravataí teve o objetivo exclusivo de colocar no mercado um carro compacto, popular e barato em termos de concorrência. O resultado poderá ser conferido pelo consumidor a partir de setembro próximo, quando o Celta chegar às concessionárias. Com design moderno - mas sem grandes novidades -, motor 1.0 e a vantagem de ter sido produzido pela montadora GM mais automatizada do mundo, o Celta vem com a missão de concorrer com os populares já sedimentados no mercado. Seu preço ao consumidor final continua sendo um grande mistério, mas, apesar de toda a automação por trás, não deverá surpreender ninguém. A notícia de que o Celta custará 6% a menos nas vendas pela Internet não foi confirmada pela direção da empresa, mas a comercialização pelo meio eletrônico está certa nas 500 concessionárias brasileiras da rede Chevrolet.

Nesta fase pós-inauguração, a fabricante do Celta espera produzir de 5 mil a 6 mil veículos por mês, embora a montadora tenha capacidade para desovar 10 mil unidades se operar em dois turnos de trabalho.

A direção da GM não informou o percentual de redução no nível de emprego - por conta da maior robotização - em relação

às demais fábricas da empresa. Sobre isso, aliás, vai aqui um comentário oportuno: a indústria automobilística vem se superando em termos de automação a cada dia e, por conseqüência, reduzindo o número de empregados, mas ainda não conseguiu colocar no mercado veículos populares com preços verdadeiramente ao alcance da grande massa. R$ 12 mil, R$ 13 mil, R$ 14 mil não podem ser consideradas cifras populares quando a média salarial dos potenciais compradores não chega a R$ mil.

Na linha de produção do Celta são 120 robôs e vários outros equipamentos automatizados. A funilaria, automatizada em 90%, concentra o maior número de robôs. Em São Caetano, considerada a segunda fábrica mais automatizada da GM e onde são produzidos o Vectra e o Astra, o índice de automação no setor de funilaria

é de 65%.

A GM não esconde a pretensão de exportar o Celta para os países do Mercosul, mas algumas mudanças serão feitas para o comércio fora do Brasil. O motor 1.0, que no mercado brasileiro detém 60% da preferência, deverá receber versões 1.2 e 1.4 para agradar os consumidores estrangeiros. A fase de exportação, entretanto, não tem previsão de começar logo. Outro comentário não confirmado pela direção da empresa é a produção de outros modelos na fábrica de Gravataí, mas o complexo mostra-se bastante preparado para produzir outras plataformas.