Crise no Banco de Leite se agrava
Texto: Adriana Rota
Número de doadoras é incompatível com a necessidade nesta época do ano e obriga a diminuição do leite fornecido
O Banco de Leite Humano, mantido pela Prefeitura Municipal através da Secretaria Municipal de Saúde, está sendo obrigado a fornecer aos receptores internos e externos uma quantidade do produto inferior à convencional, porque o número de doadoras - embora considerado razoável - tem sido incompatível com a demanda.
De acordo com a coordenadora do Banco de Leite, Maria Nereida Panichi, na semana passada, os internados pela Cooperativa de Trabalho Médico (Unimed) necessitavam de quase três litros por dia, mas apenas 1,5 pôde ser disponibilizado. A Maternidade Santa Izabel recebeu metade da quantidade solicitada e os receptores externos (que permanecem em casa) também tiveram o repasse diminuído. O detalhe é que não houve solicitação do Hospital de Base, o que dificultaria ainda mais a situação.
Maria Nereida explicou que resta como única alternativa aos médicos e aos que recebem tratamento em casa procurar intercalar com leites industrializados. Mesmo enriquecidos, no entanto, o leite materno continuaria sendo a alternativa mais nutritiva e barata.
O número de doadoras, sempre variável, estava entre 30 e 35 na última semana. Trinta e duas pessoas cadastradas dependiam do leite na ocasião. Ontem, Maria Nereida informou que havia apenas o leite "da semana" à disposição.
O estoque, cujo ideal seria entre 120 e 150 litros, simplesmente deixou de existir. "Hoje (ontem), o leite que está sendo distribuído foi entregue na quinta-feira passada e pasteurizado na sexta. O que está sendo pasteurizado agora sai até a próxima quarta", disse. Os
últimos litros "de giro" totalizavam 50 ontem.
O problema de ter uma quantidade de doadoras incompatível com as necessidades dos receptores tem relação com a época do ano: no pico do inverno, bem como do verão, o organismo fica mais debilitado, requerendo cuidados extras. Os médicos costumam prescrever o leite materno como "remédio" em casos de infecção, anemia, deficiência de anticorpos, malformações, insuficiência alimentar, dentre outras enfermidades, também em adultos.
Doar leite não é um processo complicado. Basta que a mãe com quantidade excedente - ou seja, aquela que alimenta seu filho e o alimento ainda sobra - conserve-o de modo adequado após retirá-lo, ao invés de jogá-lo fora.
Após a coleta, o leite é congelado e pasteurizado, podendo permanecer em estoque por até seis meses. Se for somente congelado o prazo cai para 15 dias e, sob refrigeração, deve ser consumido em 24 horas.
A interessada em contribuir com o Banco de Leite é cadastrada e passa por uma série de exames para verificar seu estado de saúde (hemograma completo, hepatite, HIV, glicemia, sífilis, toxoplasmose e doença de chagas). Estando tudo em ordem, ela recebe o material necessário para a ordenha e armazenamento.
A própria doadora faz a coleta do leite, recebendo as devidas orientações para a retirada e a conservação. O motorista da equipe do Banco de Leite passa uma vez por semana na residência para buscá-lo. Além de ajudar outras pessoas, a doadora garante uma produção crescente de seu leite, em conseqüência do estímulo constante feito nas mamas.
Serviço
O Banco de Leite Humano fica na rua Saint Martin, 26-9, Vila Santa Tereza (próximo à Maternidade Santa Izabel). O telefone de contato é 235-1368.
A doação de leite, passo a passo
* Numa ligação ao Banco, a mulher que tenha leite excedente fornece seus dados pessoais, endereço, telefone e data do parto - de 0 a 7 dias, é colostro, de 7 a 15, leite de transição e, a partir daí, leite maduro (esses dados são usados pelo médico para a prescrição);
* A mulher é orientada para a retirada do alimento: a mama deve ser lavada com água e sabonete, bem como as mãos; os cabelos devem ser amarrados; um pano deve ser colocado sob o nariz e a boca, evitando contaminação. Pomadas ou quaisquer produtos não devem ser utilizados no período de amamentação;
* A coleta ideal é através de massagem manual, embora algumas mulheres prefiram a utilização de bombas, passíveis de causar mais microfissuras e contaminação que a anterior;
* O ideal é fazer a retirada logo após a mamada do filho, colocando o leite num recipiente de vidro (como embalagens de café solúvel e maionese) previamente esterilizado (em fervura com duração de meia hora);
* Preenchido o frasco, ele deve ser imediatamente tapado e levado ao freezer ou congelador, sendo buscado na data combinada, por um funcionário do Banco;
* A doadora passa por uma bateria de exames, colhidos na sua casa, que vão detectar seu estado de saúde, definindo se está ou não apta para a doação e sendo encaminhada para tratamento, caso necessário. Enquanto isso, o alimento que já tenha sido colhido permanece no Banco sem uso;
* No Banco de Leite, o alimento é congelado, pasteurizado e estocado (quando há quantidade suficiente para isso), sempre sob refrigeração. Uma amostra por frasco é enviada para o Instituto Adolfo Lutz para exame bacteriológico.