07 de julho de 2026
Geral

Inflação

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 10 min

Inflação oculta muda vida da classe média

Texto: Patrícia Zamboni

Apesar de ser negado pelo Governo Federal, o fantasma da chamada inflação oculta continua presente no dia-a-dia dos brasileiros, principalmente, entre as famílias de classe mediana, que são as mais atingidas por aumentos (reais) muito acima da média. Números recentes dão conta de um aumento médio de preços inferior a 2% no primeiro semestre do ano. Porém, vale lembrar que todo cálculo estatístico precisa ser visto com cuidado. Desde o início do Plano Real, há seis anos, a inflação acumulada em todo o período é de 80%, segundo dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas

(Fipe). Talvez seja possível dizer que a verdadeira inflação pode ser "medida" no bolso dos brasileiros e não através das estatísticas oficiais.

De acordo com o economista Said Yusuf, a inflação

é medida pela ponderação de diversos itens e, muitas vezes, o que é pesado para uma determinada pessoa ou família, não chega a interferir no dia-a-dia de outra. Segundo ele, os "pesos e medidas" utilizados pelo governo não refletem a realidade.

"Durante o Plano Real, o governo tem considerado um peso maior para a chamada cesta básica e, para os demais quesitos que devem ser ponderados, os pesos são bem menores. Com isso, o que ocorre é que se tem, se divulga, uma inflação baixa que não reflete a realidade, porque dependendo da faixa de renda, aqueles quesitos que o governo considera pequenos acabam pesando bem mais para algumas famílias", orienta o economista.

Para exemplificar essa situação, Yusuf cita a questão dos aumentos dos planos de saúde. "Os planos de saúde foram reajustados esse tempo todo e isso vai pesando no orçamento de uma família de classe média. Já uma família de baixa renda não possui plano de saúde, então, esses aumentos não pesam para as pessoas dessa família", diz. A educação é outra importante questão a ser levada em conta. Segundo Yusuf, a educação representa apenas 4% dos gastos totais de uma família.

"Se você tomar como exemplo uma família que tem renda mensal de R$ 1 mil, isso significaria R$ 40,00 de gastos mensais com educação. Só que nós sabemos que os gastos com material escolar e mensalidade não ficam nesse valor. Então, esse é o problema. A forma de calcular a inflação faz com que determinados itens tenham peso bem menor. Só que esse cálculo global não corresponde à realidade das pessoas com uma renda superior a um ou dois salários mínimos", afirma Yusuf. Na verdade, uma família de classe média com renda mensal de R$ 4 mil, pode despender até 30% de seus rendimentos com a educação de dois filhos.

Seguindo essa linha, é fácil avaliar que, com os reajustes de itens como plano de saúde e educação, o poder de compra da classe média vai diminuindo e as pessoas se vêem obrigadas a mudar hábitos e a abrir mão de algumas coisas que não são de extrema importância, para conseguir administrar a sua vida diante da atual realidade econômica do País.

Os incessantes reajustes nos preços dos combustíveis também têm refletido de forma pesada no orçamento das pessoas de classe média. Sem falar nos aumentos dos seguros de automóveis, que somente este ano tiveram um reajuste de 30%, e são importantes na estrutura de consumo das famílias desta classe.

"Os aumentos dos combustíveis pesam muito no orçamento das famílias de classe média, enquanto que as pessoas de baixa renda utilizam transporte coletivo. Porém, na contagem da inflação, isso não pesa tanto. Ou seja, isso fica diluído entre os números da inflação, mas na realidade, somando o que se gasta com combustível,

água, luz, telefone, o orçamento vai ficando espremido", analisa o economista.

Said Yusuf também inclui em sua análise a importante questão da privatização e seus reflexos, principalmente, nos níveis de desemprego. "Em Bauru, o processo de privatização fez com que quatro mil cargos públicos fossem perdidos e grande parte das pessoas que ocupavam esses cargos não conseguiu se recolocar no mercado de trabalho. Então, são muitas famílias que tiveram que passar por severos reajustes em termos de orçamento", diz.

O cálculo da inflação, segundo Yusuf, depende muito do método utilizado, já que existem diversos métodos e vários institutos que calculam a inflação, apontando índices sempre diferentes. "Se você tomar como base uma família de classe média para fazer o cálculo da inflação de um período para o outro, será possível constatar que ficará muito além daquilo que o governo coloca como sendo oficial", observa o economista.

Inflação oculta

De acordo com o economista Said Yusuf, o que a população está vivenciando é a chamada inflação oculta, na qual alguns produtos e serviços sobem muito acima da média, porém, sem que esses aumentos apareçam nas estatísticas. Segundo Yusuf, a inflação oculta pode ser verificada de várias maneiras. Uma delas, que segundo o economista é normal ocorrer em tempos de crise, é a mudança na qualidade e na quantidade dos produtos. Ou seja, as pessoas compram menos e pagam mais, e os produtos são de qualidade inferior.

"Um caso típico é o dos combustíveis. Os preços só aumentam e a qualidade deles tem caído, devido às adulterações do produto. Como fica difícil para o comerciante colocar um preço muito elevado para satisfazer as suas necessidades, ele não aumenta tanto quanto seria interessante mas piora a qualidade do produto, ou altera a quantidade. Isso é comum na nossa economia e sempre ocorreu em épocas de inflação elevada", afirma Yusuf.

Na opinião do economista, o momento econômico atual pelo qual passam os brasileiros é o reflexo de uma situação que vem se "arrastando" há vários anos. A estabilidade, para ele, é um sonho distante. "Dificilmente nós vamos alcançar a tão sonhada estabilidade porque estamos sempre nos ajustando ao momento. As pessoas me perguntam se o momento é demasiado crítico, mas eu costumo dizer que está sendo crítico há 500 anos. A população brasileira nunca teve uma fase em que pudesse ter confiança e segurança quanto

à condução da sociedade", analisa o economista.

De acordo com Yusuf, se a realidade dos fatos continuar sendo

"maquiada", a situação pode se agravar ainda mais. "O momento atual não é bom, mas a verdade é que nunca foi. Se continuar essa política de tentar maquiar um pouco o quadro real, a tendência é da crise ir se agravando. Então, tem que ficar bem claro que a crise nunca deixou de existir, desde que o Brasil foi descoberto. Houve momentos em que ela apareceu mais e, em outros, apareceu menos. Eu digo que no período do Plano Real, nós passamos por um momento de crise abafada. Mas essa política de "maquiagem" continuar, nós poderemos voltar a ter um período de crise séria", analisa.

A sabedoria, segundo Yusuf, é manter em equilíbrio a economia e o social. "A economia e a questão social andam juntas. Às vezes, se a economia descamba, como naquele período de inflação galopante, a crise social fica até amenizada, e vice-versa. O difícil é conseguir amenizar os dois setores, mas esse seria o equilíbrio ideal. Não adianta tentar abafar os problemas da economia e agravar o quadro social. É necessário trabalhar com as duas vertentes. Porém, isso o governo não tem conseguido fazer", observa o economista.

Ginástica econômica

Eloane Mara Aparecido, 34 anos, que vive com o marido e os três filhos, é uma entre as milhões de pessoas que estão fazendo uma "ginástica" para garantir o bem-estar da família. Segundo ela, a renda familiar gira em torno de R$ 800,00, atualmente, sendo que R$ 186,00 são mensalmente utilizados para o pagamento do aluguel. "O salário do trabalhador não aumenta, ao contrário de todas as outras coisas. Até pouco tempo, eu trabalhava como doméstica em uma casa três vezes por semana. A situação foi ficando difícil e, para não faltar nada em casa, precisei arrumar outros trabalhos. Agora, trabalho em várias casas, de segunda-feira a sábado e, de final de semana, ainda faço salgadinhos em casa para vender", conta Eloane.

De acordo com ela, o marido também precisou entrar na "ginástica" para engrossar o orçamento. "Meu marido trabalha como cobrador de ônibus no período da tarde e precisou pegar uns serviços de pedreiro para fazer de manhã. No mercado, a gente economiza ao máximo. Só compro fruta e verdura de época, que são as mais baratas. Carne vermelha, só duas vezes por semana. Os passeios também foram reduzidos. Para mim, a situação agora está bem pior do que no início do Plano Real", diz Eloane.

Fátima Aparecida de Oliveira Melo, que trabalha como faxineira em diversos lugares, mora em uma casa com mais oito pessoas. A renda total familiar gira em torno de R$ 1.200,00. Mulher batalhadora e sempre disposta a trabalhar, ela reclama que os salários dos trabalhadores estão sempre iguais, enquanto os preços não param de subir.

"Nosso salário não sobe e os preços de tudo estão sempre maiores. Isso diminui o poder aquisitivo da população de baixa renda. Na minha casa, por exemplo, a mesa está menos farta, porque os preços no supermercado sobem constantemente. Então, a gente tem que comprar só o que é necessário mesmo. Você vai sempre com o mesmo dinheiro no mercado e vai comprando cada vez menos coisas. Os pobres continuam ficando cada vez mais pobres", diz.

Fátima conta que não foi possível arrumar mais empregos para ter mais dinheiro, já que ela trabalha de segunda-feira a sábado. Porém, precisou abrir mão de várias coisas. "Para economizar, eu abri mão de algumas coisas. Procuro pegar ônibus menos vezes por semana do que antigamente e ando mais à pé, compro bem menos roupa, calçado, alguns artigos de perfumaria que antes eu podia comprar e diminuí os passeios. Agora a gente pensa duas vezes antes de tomar um sorvete. Em casa,

"pego no pé" de todo mundo para não deixar luz acesa sem necessidade. Às vezes a gente até assiste televisão com a luz da sala apagada. Se eu vejo uma luz acesa, vou logo apagando", diz Fátima, que apesar das dificuldades, conversa sempre com um sorriso no rosto.

Margarida Shimbo, uma senhora de 47 anos que pertence à classe média e vive com o marido e dois filhos, também sentiu os reflexos das crises econômicas brasileiras. "Nós sempre trabalhamos e tínhamos um padrão de vida razoável que nos permitia viver bem. Meu marido era dono de uma empresa que, há alguns anos, acabou fechando, pela própria situação econômica do País. Então, deixamos de contar com aquele dinheiro, fruto do trabalho do meu marido com essa empresa. Tínhamos dois carros e precisamos vender um deles. Atualmente, nosso único bem é a nossa casa", diz.

Os reflexos nos hábitos do cotidiano são sentidos nessa família, assim como na de Fátima. Segundo Margarida, há algum tempo ela podia ir ao supermercado toda semana e fazer churrascos para reunir os amigos. Agora, tudo

é calculado e "racionado". "No supermercado, eu não compro mais tudo o que eu comprava antes. Agora

é somente o necessário. Os churrascos foram reduzidos e, mesmo quando a gente resolve fazer, tudo é programado antes, às vezes até um mês antes. Não

é mais possível fazer aquelas reuniões de

última hora. Celular, nós vendemos o que era com conta e compramos um com cartão pré-pago", conta.

Com um filho estudando em uma universidade e uma filha no cursinho, os gastos com educação são grandes, porém, essenciais. Então, tudo o que pode ser eliminado, é retirado dos hábitos da família. "Nós assinávamos três jornais. Suspendemos a assinatura de dois deles. Mas, mesmo com todas essas mudanças, estamos sabendo encarar bem essa situação. Porém, sei que nem todos têm esse privilégio", observa Margarida Shimbo.

Maria Magdalena Guandalin Arthuso, que vive com o marido e conta com uma renda familiar de cerca de R$ 2,3 mil, diz que o marido, já aposentado, precisou voltar a trabalhar para garantir o sustento da família. "Aqui em casa só ele trabalha e, por isso, eu economizo em tudo. Mas, se ele não tivesse arrumado esse trabalho, a nossa situação teria ficado difícil somente com a renda da aposentadoria dele. Mas não sobra nada. Às vezes a gente quer dar uma ajuda para um filho, por exemplo, e não temos mais condições. Os presentes para os filhos e os netos também diminuíram em quantidade e em valor. Não posso mais ter alguns gastos que eu tinha antes", diz Maria Arthuso.