07 de julho de 2026
Geral

Associações

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 3 min

Política "invade" associações de bairros

Texto: Josefa Cunha

Apesar de um histórico de pouco mais de 30 anos, o perfil inaugural das associações de moradores em Bauru parece muito distante do que demonstram as entidades nos dias de hoje. A maioria dos dirigentes atuais desses grupos nega, mas líderes contemporâneos das primeiras associações criadas na cidade afirmam que "as coisas eram bem diferentes

- e melhores - naqueles tempos". O alvo principal das críticas desses pioneiros é o caráter político hoje quase intrínseco das entidades de bairro.

Eugênia Bolonha, 61 anos, que em 1970 foi a primeira mulher a assumir a presidência da Associação de Moradores do Parque União, uma das mais antigas do município, não titubeia em dizer que as entidades hoje em dia servem mais para "trampolim político" do que para a defesa dos interesses da comunidade. "Não que não tivéssemos relação com os políticos da cidade, mas nenhum membro de associação participava diretamente da política. Não tinha e nem podia ter candidato envolvido. Eu nem preciso dizer que as coisas mudaram muito de lá para cá, né?"

Longe de querer atacar as entidades, a ex-líder de bairro considera temerosa a influência política que as associações exercem, especialmente nos locais mais humildes e desfavorecidos financeiramente. A colocação não é sem fundamento. Em várias localidades, os líderes das associações são referências para os moradores nos mais diversos aspectos, inclusive, no que tange

à política partidária e eleitoral. Não

é raro no cotidiano desses dirigentes a abordagem de populares em busca de nomes para apoio em eleições e movimento político-partidários. "Nessa hora, quem é espertalhão orienta da maneira que melhor lhe convém e, algumas vezes, chega a exigir apoio para esse ou aquele candidato. A influência é muito grande e poderosa. Sabe aquela coisa de cabresto?", comparou.

O envolvimento político das entidades de bairros também acaba gerando rixas entre os dirigentes. O assunto é velado, mas nos bastidores algumas lideranças confessam que os favorecimentos da administração municipal a uma ou outra entidade existem, estabelecendo o clima de disputa. Pode-se aí, fazer um paralelo com o dito tratamento privilegiado que Prefeituras correligionárias do governo receberiam em detrimento dos opositores. "Quem apóia o prefeito, tem mais facilidade para conseguir as melhorias reivindicadas", contou uma liderança que preferiu ficar no anonimato.

É justamente no aspecto união que Eugênia Bolonha vê a grande diferença entre as associações de hoje e as das décadas de 70 e 80. "A gente tinha amizade com todas as associações. Defendíamos as melhorias para o nosso bairro e para toda a comunidade. Não era uma coisa separada como hoje. Teve uma vez que eu e mais dois líderes recebemos uma intimação para prestar depoimento na delegacia. Fomos até a Seprocon para sermos orientados, mas ficamos apreensivos, embora ninguém tivesse feito nada de errado. Quando chegamos na delegacia, todos os representantes de associações da cidade estavam lá para prestar solidariedade. Acabamos nem prestando depoimento", recordou, questionando se tal fato se repetiria nos dias atuais.

Talvez o caráter romântico das associações dos anos 70 não funcionasse no ritmo acelerado do fim de século, mas a unidade é fator de sucesso sempre. O trabalho de muitas associações de bairros em Bauru

é exemplar, com ações realmente voltadas para a melhoria da qualidade de vida dos moradores. Hoje, por exemplo, a Secretaria das Administrações Regionais

(Sear) está promovendo o II Encontro Anual das Associações, um evento de cunho festivo que espera reunir cerca de 700 pessoas e as 97 entidades de bairro cadastradas no município. A abertura será às 10 horas, no Clube das Nações, com uma extensa programação de shows, grupos de trova e poesia, pintura, dança e artesanato.