A importância de pescar e soltar
Texto: Roberta Mathias
Preservar o meio ambiente é obrigação de todo ser humano, mas o pescador, que desfruta diretamente dos benefícios que a "mãe natureza" apresenta, deve, além de preservar, fiscalizar.
Aparentemente, pescar e soltar está, aos poucos, tornando-se uma atitude do pescador consciente. A diminuição da quantidade de peixes em nossos rios é um fator que contribuiu para que as pessoas, forçosamente, iniciassem uma campanha para que o meio ambiente seja respeitado. Ainda modesta, porém, com possibilidade de crescer.
Mas aderir simplemente ao pesque e solte sem tomar as precauções devidas não é a solução mais indicada.
É importante acrescentar que a devolução do peixe para a água deve ser feita com muito cuidado.
Na verdade, não é apenas o fator "devolução" que deve ser levado em consideração. O habitat do peixe e o equipamento que está sendo utilizado podem ser condenar o peixe à morte, mesmo após a sua liberação. Como o mergulhador, peixes de águas profundas têm dificuldades de se recuperar após serem levados à superfície. Outro detalhe muito importante é a forma como o peixe foi fisgado: olho, corpo, estômago, mandíbula, entre outras partes do corpo.
É necessário que o pescador observe rapidamente todas as condições do peixe para que ele tenha maiores chances de sobreviver. Usar o peso certo pode colaborar bastante. Por exemplo, se você está usando um equipamento leve
(para peixes de até 2 quilos) e fisga um exemplar de 5 quilos. Demora-se um pouco mais, a esportividade aumenta relativamente e o peixe é levado para o barco. Exausto, este peixe terá muito mais dificuldade em se recuperar do que se tivesse sido capturado com um equipamento adequado ao seu peso e conduzido rapidamente à superfície. Nesses casos, a oxigenação do peixe é fundamental.
Chamado de pesca esportiva (apesar de não ser nada esportivo para o peixe!), o pesque e solte é considerado politicamente correto entre os pescadores de várias partes do mundo. E faz sentido. Mesmo que parte dos peixes devolvidos não sobreviva após a liberação, eles servirão de alimento para outros seres vivos nos rios e mares.
Agora, quando o pescador vai para o rio, carrega quilos e quilos de peixe para distribuir aos amigos, quem sai ganhando? Às vezes, o vizinho ou amigo não tem idéia do quanto a pescaria é importante para você. O peixe não tem o mesmo valor. Acredite, as fotos podem fazer muito bem o prazer do pescador. É claro que um ou outro exemplar deve ser embarcado para que o pescador saboreie o seu troféu. Mas antes é muito importante que as idéias com relação
à pesca estejam muito bem definidas para que ninguém seja prejudicado.
Hoje, aquela foto com centenas de peixes espalhados pelo chão não é considerada a foto ideal. Interessante é aquela que pega o peixe sendo devolvido ao seu ambiente natural. Essa sim pode ser considerada um verdadeiro troféu.
O importante é saber pescar com moderação e consciência, para preservar o meio ambiente e viver em harmonia com a natureza. O pescador deve, acima de tudo, ser um conservacionista e lembrar que mesmo a pesca esportiva tem seu
índice de mortandade. Por isso, é importante lembrar alguns procedimentos fundamentais para permitir que o peixe volte ao rio em condições de sobreviver e procriar.
Farpas de anzol e garatéia
O uso de anzol sem farpa é muito importante para garantir o bem-estar do peixe. Apesar da dificuldade em fisgá-lo ser maior, com as farpas retiradas do anzol é possível livrar o peixe sem machucá-lo. As farpas impedem que o peixe se livre do anzol (isso vale para a garatéia), mas, ao ser retirado, o que exige certa força, agride o animal, muitas vezes ferindo-o mortalmente. Na pesca esportiva, evitar o uso de anzóis e garatéias com farpas é o primeiro passo para soltar um peixe saudável, com grandes possibilidades de sobreviver.
Para retirar a farpa do anzol, o processo é muito simples. Pegue um alicate de bico e a comprima até que fique no mesmo nível do anzol. Se ele quebrar, não fique irritado, pois isso poderia ocorrer durante a pescaria. Procure anzóis mais resistentes.
Já existem no mercado anzóis sem farpa e - uma outra alternativa - os anzóis redondos ou circulares, ideais para o pesque e solte. O Anzol redondo é indicado inclusive por facilitar a captura do peixe. Quando o animal abocanha a isca, o anzol é conduzido para o canto da boca do peixe devido ao seu formato redondo, facilitando a fisgada. Enquanto você não opta pelos redondos, o ideal é retirar as farpas dos anzóis e garatéias. Sem as farpas, você aumenta a esportividade, não machuca o peixe e facilita a retirada do anzol em pequenos acidentes domésticos, como uma fisgada na orelha.
Manuseio e desova
Respeitar a época de desova é indiscutível. O pescador pode pescar, desde que devolva o peixe. Afinal, os pescadores também querem a garantia de obter sucesso em outras pescarias, o que não seria possível sem o respeito à desova. Todos sabem que o peixe é resistente, porém o seu habitat natural é a água. Por isso, manuseá-lo corretamente e ser cuidadoso e ágil em sua liberação são atitudes fundamentais.
Veja algumas sugestões para que o peixe não seja agredido.
- Nunca canse o peixe até a exaustão. Isso pode comprometer o seu retorno ao rio, ao mar. É importante levar em conta o tipo de ambiente em que vive a espécie
- água parada ou corredeira - o que determina a oxigenação da água.
- Leve o equipamento adequado. Nada mais pesado do que o necessário, nem mais leve, pois pode esgotar as energias do peixe rapidamente.
- Ao se aproximar do peixe, evite agitar-se muito, para não provocar estresse.
Evite deixar o peixe por muito tempo fora da água. Ele vive em um ambiente cuja densidade é bem maior do que a do ar. Na água, ele está sujeito a uma força vertical ascendente, denominada empuxo, que alivia parte do peso do animal. Fora d'água, ele corre o risco de ter os órgãos internos comprimidos e comprometidos pela força da gravidade.
- Evite colocar as mãos secas no peixe para não retirar seu muco protetor, que é responsável pelo isolamento parcial do animal contra o ataque de vírus, fungos e bactérias, e também pela diminuição do atrito exercido pela água, no deslocamento.
- Procure segurar o peixe pela mandíbula (espécies com dentes ou exemplares grandes devem ser segurados por meio de alicate, ou bicheiro, colocado de dentro para fora, na mandíbula) e pela região do pedúnculo caudal.
- Evite que o peixe caia no barco e fique se debatendo.
- Antes de liberar o peixe, coloque-o na água com a boca submersa, para permitir a oxigenação das brânquias. Não ventile o peixe com movimentos de vai-e-vem, a não ser que ele esteja muito cansado.
- Antes de liberá-lo, certifique-se de que ele já está com os sentidos aguçados e forças recuperadas, caso contrário é presa fácil para outras espécies.