07 de julho de 2026
Geral

Folclore

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 5 min

Folclore nosso de cada dia

Texto: Ricardo Polettini

Pesquisadora da área, Leila Grassi defende conscientização sobre a cultura popular no cotidiano; folclore vai além do mês de agosto

Passear pela avenida Getúlio Vargas é o "must" atualmente em Bauru para quem está a fim de arranjar uma paquera e se divertir. Com o mesmo objetivo, nas grandes cidades, jovens se dirigem aos shoppings, local onde podem ouvir música, tomar um lanche, ir ao cinema e conversar com os amigos.

Esse tipo de costume nada mais é que uma variante moderna do "footing". Folcloricamente, as pessoas sempre saíram aos finais de semana para se divertir e encontrar amigos e namorados.

A diferença é que, há anos, o "footing" tinha como cenário as praças, que concentravam passeio público, comércio e diversão. O contexto social mudou com o tempo, transferindo essas atividades noturnas a lugares considerados "mais seguros".

Mostrar que o folclore está presente no dia-a-dia de cada um, que todos somos "portadores de folclore" e que a cultura popular não está apenas nas "coisas antigas" é o desafio encarado pela professora Leila Grassi, 47 anos, pesquisadora da área há mais de 15 anos.

Ministrando aulas de cultura e folclore brasileiros atualmente na Universidade do Sagrado Coração (USC), Leila defende, com seus alunos, a idéia de descobrir o folclore a partir da própria família. "Cada família carrega consigo costumes que vêm de gerações anteriores. Esses costumes, como receitas caseiras, hábitos alimentares, brinquedos, brincadeiras de roda, cantigas, historinhas, bordados, entre muitos outros, estão inseridos na cultura de cada um. O folclore não é o que é velho e antigo, mas existe junto de nós, somos todos portadores de folclore", afirma.

Popular & erudito

Tecnicamente, considera-se como folclore, ou cultura popular, aquilo que não é erudito. Enquanto a primeira é transmitida pela oralidade e pela repetição, através das várias gerações, a segunda depende dos meios de erudição: as escolas e os livros.

"Tudo aquilo que aprendemos em casa é, de uma certa forma, folclore", diz Leila. "As receitas caseiras, pães, a medicina popular, as simpatias... Há ainda as profissões folclóricas, nas quais são desenvolvidas técnicas próprias e utilizadas ferramentas específicas, variando de lugar para lugar, como os sapateiros, as costureiras, o alfaiate, entre muitas outras", explica.

O importante, segundo ela, não é lembrar do folclore apenas no mês de agosto, sua época "oficial", mas saber que ele também está presente em quase tudo que se faz hoje em dia. "Nossos gestos, o ato de abraçar e beijar as pessoas, tudo isso faz parte do nosso folclore. É preciso lembrar que o folclore modifica-se com o tempo e contexto histórico, mas está no nosso dia-a-dia".

Aqui do lado

Em suas pesquisas de campo, Leila afirma ter encontrado manifestações típicas desta região do Estado. Na vizinha Agudos, por exemplo, existe a manifestação do cururu, forma de dança e canto realizada na época do Natal e no dia de Santos Reis.

No caso de Bauru, ela menciona a pamonha salgada, prato consumido, na maioria das vezes, por trabalhadores rurais no café-da-manhã, servida frita, acompanhada de ovos e queijo. "É uma comida típica desta região", afirma.

Também as colchas e tapetes feitas com a técnica do fuxico são bastante encontradas. O fuxico consiste em amarrar várias trouxinhas de pano, umas às outras, para compor uma peça.

Na arquitetura, as numerosas casas de madeira existentes na cidade também encontram explicação no folclore local. Na época áurea da ferrovia, havia a facilidade do transporte de madeira vindo do Mato Grosso do Sul, por isso foi desenvolvida esta construção típica das cidades ferroviárias.

"O desenvolvimento de ferramentas específicas e utilização de material peculiar caracterizam uma manifestação folclórica", enfatiza Leila.

Ainda na região, ela descreve a procissão da "Lenda do Cigano", em Ibitinga. "É um evento que reúne milhares de pessoas, no entanto, as pessoas só lembram daquela cidade por causa do bordado", comenta.

A catira, também encontrada em Bauru, mistura várias origens, como a maioria das manifestações populares. Ela vem do flamenco espanhol, mas introduz a postura do índio.

"No flamenco, toca-se um instrumento de cordas, há a dança e as palmas, com a cabeça erguida. Na catira, aparece a postura arqueada para baixo, típica dos índios".

Caipira paulista

Nascida com os bandeirantes, os imigrantes e índios, a cultura típica do caipira paulista, aos poucos, vai desaparecendo. Para a professora, os motivos vão do consumismo à prepotência dos paulistas, que não gostam de ser chamados de caipira.

"O paulista é prepotente, por isso a cultura caipira está desaparecendo", espeta. No entanto, sinais continuam prevalescendo, como o sotaque típico, a culinária e o consumo da pinga em várias ocasiões, só para citar alguns costumes.

"O paulista está muito mais ligado aos Estados Unidos, que é o consumo em primeiro plano, o usar e jogar fora, do que à Europa, que prima pela preservação cultural. A Festa de Barretos, por exemplo, não pode ser considerada folclórica, mas traz vários elementos do folclore paulista, como a música. Mas não o sertanejo atual, e sim as modas de viola caipira, que ainda aparecem com algumas duplas. Os trajes também não são típicos do folclore, pois o caipira não usa tradicionalmente chapéus de couro nem franjas nas roupas. Isto é um costume norte-americano".

Ainda segundo Leila, o folclore está sujeito a mudanças. E a televisão e o rádio, hoje em dia, cumprem um papel importante nesse sentido.

"Esse tipo de interferência tem seu lado positivo, pois a televisão e o rádio são meios de comunicação maravilhosos. Quando assistimos ou ouvimos Milton Nascimento e seus 'Tambores de Minas', Chico César, com 'Folia de Príncipes', ou Chico Science, como a incorporação do maracatu na música pop, embora não sejam manifestações típicas, despertamos nosso interesse de buscar de onde vem estas músicas. Issos já é positivo para a cultura popular".

Quem é

Leila Grassi nasceu em Avaré e se formou em Comunicação e Artes em São Paulo. É bacharel em Desenho Industrial, professora de Educação Artística desde 1977, com especialização em didática para o ensino superior. Atualmente ministra aulas de Folclore Brasileiro e Cultura Brasileira na Universidade do Sagrado Coração, para estudantes de Educação Artística, Turismo, Letras, grupo da terceira idade da USC e da USP, pela Oficina Cultural.