Amor acima de tudo
Texto: Gustavo Cândido
Não bastasse contar com poucos meios de se locomover pela cidade, que não possui guias rebaixadas, rampas e veículos públicos adequados suficientes, além dos cuidados especiais com a sua saúde, os portadores de deficiências físicas ainda sofrem por querer desfrutar de um sentimento pelo qual o ser humano faz praticamente tudo: o amor. Relacionamentos nos quais uma das pessoas possui alguma deficiência física ainda são vistos com espanto nas ruas e dentro das próprias famílias. Apesar disso, muitos casais enfrentam todas as barreiras e preconceitos para ficarem juntos.
É o caso de Alexandre Messias Gama e Fabiana Naomi Nishiyama. Morando juntos há três anos depois de seis anos de namoro, os dois enfrentaram os preconceitos de ambas as famílias.
"Conheci o Alexandre por telefone, passando um trote", brinca Fabiana. Na realidade era uma paquera por telefone que estava começando. Os dois se falaram muito por telefone até se encontrarem pela primeira vez. "Quando ele me viu, na cadeira de rodas, tomou um susto", confessa Fabiana, portadora desde a infância de amiotropia espinal progressiva, um mal que causa a paralisia dos músculos do corpo gradualmente e que, no seu caso, está estacionado atualmente. "Mas já ele já estava apaixonado", conta.
Alexandre confirma e diz que sua família resistiu um pouco quando soube que o filho estava namorando uma moça que usava uma cadeira de rodas. "Mas foi só no começo, hoje não existe mais problema algum", diz. Pior foi a reação da família de Fabiana, quando o casal demonstrou a intenção morar junto. "Foi um escândalo, eles não queriam que eu saísse de casa de jeito algum", relembra. O caso quase terminou na delegacia, mas passado o choque inicial da notícia, todos entraram em acordo. A família dela já conhecia Alexandre o suficiente para saber que a filha estaria em boas mãos, embora tenha demorado um pouco para admitir isso. Hoje, os dois possuem um escritório de contabilidade onde trabalham juntos.
"A maior preocupação da minha família talvez fosse a possibilidade de eu vir a sofrer no caso de uma separação. Mas isso não faz muito sentido porque muitos relacionamentos dão errado com pessoas que não possuem deficiência alguma. O Alexandre já me conhecia muito, eu nunca escondi minhas limitações, eu não daria um passo desse se não fosse com ele", diz Fabiana, que completa: "os deficientes não vão sofrer mais do que outras pessoas caso haja uma separação, por isso não podem nem deve se privar de amar".
Briga em família
A mesma sorte com a família não teve Déborah Pons Buselli e Jusmar Antonio Buselli, casados há seis anos. Eles não têm mais contato com a família do marido, que se recusou a aceitar o casamento do dois. "O Jusmar era noivo, mas acabou terminando o noivado para me namorar, depois acabamos nos casando e a família dele foi contra, tanto que nem conhecem o neto direito", conta Déborah, que teve poliomielite aos 6 meses de vida e hoje se locomove com o auxílio de muletas.
Para ela, o marido, quando optou por se casar, sabia de todo preconceito que os dois iriam enfrentar, mesmo da possibilidade de não mais se relacionar com a sua própria família e em nenhum momento "vacilou". Hoje o casal possui um filho de 6 anos, Giovane.
As dificuldades de amar
O número de casais onde um deles é deficiente é grande, mas poderia ser maior, de acordo com Graziela Nishiyama, presidente do Centro de Apoio ao d/Eficiente (Cad/E). Segundo ela, em muitos casos o próprio deficiente não aceita suas limitações e acaba generalizando e colocando a culpa do seu insucesso na vida amorosa na sua deficiência, quando na realidade isso pode estar ligado mais ao seu humor do que ao seu aspecto físico. "Às vezes a pessoa não se aceita, se torna chata, insegura e ciumenta, mas prefere culpar a deficiência a assumir isso", diz.
Mas Graziela não esquece que o preconceito das pessoas
"também é muito grande, principalmente por parte das famílias, por isso muitos casais não ficam juntos", explica a presidente do Cad/E, que já teve namoros interrompidos por interferência familiar do namorados.
"As pessoas ainda se assustam quando vêem um casal onde um tem uma deficiência, como se a pessoa não fosse capaz de amar", segundo Graziela, "mas o amor verdadeiro vence barreiras", diz.
De acordo com a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, uma pessoa bem resolvida, com uma boa auto-estima, interessante e bem humorada, vai ter melhores oportunidades de encontrar alguém mesmo que tenha uma deficiência. A questão do preconceito, aponta a psicóloga, é a mesma no caso de diferença de raça, nível social, ou simplesmente de gosto. Algumas pessoas simplesmente não se casariam com um deficiente, como outras não se casariam com alguém de outro nível social ou que tenha cabelo ruivo, por exemplo. Segundo a psicóloga Maria Lúcia Biem, também existem pessoas que possuem dificuldades em lidar com a compaixão e por isso se afastam de deficientes. "Elas ficam se imaginando na posição do outro e não agüentam essa idéia", explica. Maria Regina Vanin conclui: "a deficiência em si, embora possa dificultar o encontro de um parceiro, não é impedimento para isso, tanto que existem pessoas deficientes que estão bem afetivamente".
O problema do preconceito
Para Déborah Buselli, tentar vencer o preconceito que as pessoas têm com os deficientes é quase uma guerra impossível de ser vencida. A solução é levar a vida em frente, deixando de lado a opinião alheia e buscando sempre a felicidade. "Algumas pessoas, até por ignorância, chegam a pensar que deficiência é uma coisa contagiosa. Então, como lutar contra isso? Acho que o ser humano ainda não evoluiu o suficiente. A gente tem que passar por cima disso", diz.
Segundo a psicóloga Maria Lúcia Biem, o problema do preconceito fica ainda maior quando as pessoas começam a acreditar que o deficiente é mais incapacitado do que ele realmente é. Por exemplo: uma pessoa cega simplesmente não enxerga, mas geralmente é tratada como uma pessoa incapaz de fazer quase tudo, o que é errado. "Um deficiente visual pode ser muito mais sensível e ter habilidades que outras pessoas não têm, justamente por causa da deficiência, que ele compensa desenvolvendo outros sentidos", diz.
Quando se manifesta na família (de alguém que se relaciona com um deficiente), o preconceito vem por causa de toda a idealização que se tem em querer que o filho
(ou qualquer que seja o membro), se relacione com uma pessoa bonita,
"perfeita" aos olhos de todos. Outra razão é medo de assumir uma responsabilidade perante a uma pessoa que pode necessitar de cuidados especiais. "É o medo de esse relacionamento acabe se tornando um peso para família", diz Maria Lúcia Biem.
Os portadores de deficiência que não procuram se relacionar por medo de se decepcionar ou por se acharem incapazes, na opinião da psicóloga, são pessoas que foram criadas desde pequenas acreditando que são verdadeiramente incapazes, quando não verdade não são. "As pessoas precisam saber que o deficiente físico é incapaz de algumas coisas, mas não de tudo", diz Maria Lúcia Biem. Por isso eles não devem ser tratados como pessoas que não servem para amar. "Existem muitas pessoas que são fisicamente perfeitas e que são mau-humoradas, ranzinzas ou se tornam dependentes de suas companhias. Quem não ia preferir ter ao lado uma pessoa bem-humorada e alegre que fosse deficiente?", questiona a psicóloga.