Ética deve ser estendida à sociedade
Texto: Daniela Bochembuzo
Para debatedores da mesa redonda "Ética e Política", a ética é fundamental para garantir a valorização da democracia
O debate sobre ética não deve ficar restrito ao campo político, mas estendido a todas as esferas sociais. Esta é a conclusão da mesa redonda "Ética e Política", promovida anteontem à noite pelo Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), através do Núcleo pela Tolerância.
A mesa redonda, realizada no Teatro Municipal, foi composta pelos professores Clodoaldo Cardoso e Murilo César Soares, da Unesp de Bauru, e pela professora Isabel Maria Loureiro, da Unesp de Marília. A mediação foi feita pelo professor Maximiliano Martins Vicente, chefe do Departamento de Ciências Humanas. Cerca 250 pessoas participaram do evento, entre estudantes, professores e políticos.
Para o professor Clodoaldo Cardoso, que abordou o tema "Fundamentos da Ética", falar em ética se tornou um modismo em razão de "não estar na moda ser ético". A forma de divulgar a questão, no entanto, tem estimulado duas distorções: a de que o assunto está relacionado a códigos profissionais e de que é algo circunscrito à vida pública.
"Para o imaginário coletivo do brasileiro, a ética não tem ligação íntima com a vida pessoal. Acredita-se que este é um problema com causa e solução distintas e restrito ao poder político.
É fundamental que a ética seja um campo de reflexão para a política, mas deve também ser estendida a outras esferas sociais", adverte Cardoso.
Nesse sentido, o professor considera fundamental fazer as distinções sobre moral e ética. A primeira, de acordo com Cardoso,
é o sentimento de repúdio e reprovação a ações humanas e que varia em determinada época ou sociedade, prescrevendo respostas sobre o bem e o mal. A segunda
é uma disciplina filosófica que norteia o pensamento humano a respeito de questionamentos sobre o que é viver bem, a felicidade humana ou o mal e como julgar algo ou alguém.
Desenvolvida sobre os fundamentos da filosofia grega e o cristianismo, a ética ocidental entrou em colapso a partir do momento que suas verdades foram abaladas. Segundo Cardoso, um dos princípios que foram colocados em xeque era de que o bem existia em si mesmo, independente da existência do homem. Combatido por teóricos como Spinoza e Nietzsche, esse fundamento foi superado por idéias como a de que não há bem ou mal e de que os valores bom e verdade foram inventados pelo fraco para superar o forte.
Para o professor, uma das pistas para entender o que é
ética está em Sartre. "Ele diz que "quando escolho para mim, escolho para o outro", em outras palavras, a vida é projeto. A ética no mundo contemporâneo seria aproximar-se da política, no sentido profundo da palavra. A política é o sonho coletivo, não totalitário, mas plural, que surge do diálogo, cujas conclusões não são absolutas. E as novas gerações esperam um diálogo e não um valor pronto e absoluto como referência", conclui.
Programa eleitoral
Abordando a ética no discurso político, o professor Murilo César Soares afirmou que o discurso político só ganhou plenitude na vida pública no momento em que se instaurou a democracia, permitindo o convencimento não pela força física, mas pela palavra.
Considerando que o discurso político se baseia na opinião, no provável, o professor avalia que é necessário haver limites para que não haja ilusionismo dentro desse campo de incertezas. "E aí que está o momento crítico da ética. É o questionamento do que
é justificável, do que é legítimo colocar como argumento para que o discurso não se transforme em uma forma de manipulação da platéia ou da audiência", afirma.
Soares lembra que, em relação à época em que o discurso era apenas verbal, esse questionamento se tornou mais complexo hoje. Isso porque a propaganda eleitoral, utilizando-se de recursos como a representação e a capacidade dramática dos candidatos, suplantou a retórica, ampliando a manipulação e provocando o embaralhamento da ética.
Hoje em dia, diz Soares, a ética se tornou um estorvo. Isso pode ser observado nas propagandas eleitorais, que mostram os candidatos trocando o respeito pelos ataques pessoais, pela hipocrisia, o que é lastimável e ofende o eleitor, na opinião do professor.
"A ética não é uma questão de bom gosto, ela é importante para manter a adesão dos cidadão à democracia. Se a mentira, as agressões pessoais e a troca do essencial pelo acessório ficam sendo a marca das campanhas, a sociedade pode desanimar da democracia, achar que não vale a pena, que os políticos não merecem crédito e que o regime democrático não serve à causa do povo", alerta.
Soares lembra que, por diversas vezes na história, o povo já preferiu trocar a democracia pelo totalitarismo, o que levou à miséria, ao sofrimento e à destruição. Em razão disso, ele sustenta que a desmoralização da atividade política é perigosa.
"A democracia não é perfeita, mas perfectível. O aprimoramento da democracia deve ser a nossa meta. A ética
é uma garantia de apoio da sociedade ao regime democrático. Não se pode zombar da esperança dos eleitores. Cada cidadão tem que ser o defensor da democracia, mas mulheres e homens públicos são os grandes responsáveis pela manutenção da fé na política e na democracia", analisa.
Por essa razão, Soares defende que o discurso político não deve ser pessoal, mas coletivo. Essa mudança, porém, depende de partidos políticos que transcendam os interesses individuais. Para o professor, a reabilitação das legendas é necessária para dar perspectiva à política brasileira.