07 de julho de 2026
Geral

Índios

Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Índios de Avaí querem unificar idioma

Índios da tribo Nandeva Tupi-Guarani de diversos pontos do Brasil estão trabalhando para resgatar a língua original

Existem hoje no Brasil, segundo dados da Funai, um pouco mais de 300 mil índios espalhados pelo Brasil afora. São 206 povos, concentrados em sua maioria na Amazônia Legal, que reúne os estados do Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Pará e Mato Grosso.

Os índios da etnia Guarani são hoje os mais populosos. Incluindo os subgrupos, formados por Kaiowás, Nandevas e Mbyás, chegam a um número aproximado de 30 mil. Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo são, segundo a Funai, os estados onde vivem os índios tupi-guarani.

Um dos poucos lugares onde os índios mantém até hoje a tradição de viver em aldeia fica na região de Bauru. A aldeia Nimuendojú, de Avaí, foi formada em 1925, aproximadamente, segundo informações do cacique Reginaldo Marcolino, de apenas 28 anos. De acordo com o cacique, vivem hoje na aldeia cerca de 140 índios.

Na semana passada, a aldeia foi palco de um encontro que promete fazer história, em razão de sua importância. Lá reuniram-se dez representantes do tronco indígena Nandeva para colocar ordem na língua materna, ou seja, o tupi-guarani. Contando com a ajuda de lingüistas da Universidade de Campinas (Unicamp), os índios Nandeva de Avaí e de outras aldeias pretendem uniformizar seu idioma.

"Após os quinhentos anos, nós acordamos e estamos tentando organizar nossa língua, principalmente na parte escrita", disse o "professor" Claudemir Marcolino, da aldeia de Avaí, que trabalha há 15 anos nesse propósito. Mas devido à falta de recursos financeiros e humanos só agora deverá ser realizado.

"Reunimos representantes de várias aldeias e criamos os numerais, além de outras palavras que não tinham nos dicionários tupi-guarani."

Uma resolução federal, editada em dezembro do ano passado dá um prazo de um a dez anos para que se proceda à capacitação de professores de língua indígena. "No litoral paulista, os índios Nandeva estão falando de um modo mais próximo à língua original, mas em outros lugares estão misturando muito o idioma. Então, nós resolvemos fazer uma cartilha

única, para que ela seja seguida por todos as pessoas da nossa comunidade indígena. Não queremos que haja uma confusão", disse o "professor" Claudemir. Embora, não possua diploma, ele é considerado um professor porque está ensinando as crianças da aldeia a falar em tupi-guarani. Os mais velhos, segundo Claudemir, sabem a língua materna. O grande problema é com as crianças, que pouco conhecem do idioma.

Ivanilde Pereira, chefe do Setor de Educação da Funai no Estado de São Paulo disse que o estudo bilingüe no Estado ainda não foi oficializado. "Está em andamento todo o processo de efetivação de uma escola indígena, propriamente dita. Para isso, tem de ser criado um projeto pedagógico com as disciplinas que os indígenas julgam importante." Esse projeto precisa ser montado tendo como auxiliares um profissional da área de pedagogia, outro da antropologia e um lingüista.

Quando os professores estiverem devidamente capacitados eles deverão receber o reconhecimento do Ministério da Educação (MEC). "O que nós queremos agora é que o professor seja o próprio índio e que ele passe a lecionar para sua aldeia", disse Ivanilde.

Enquanto isso, as crianças da aldeia Nandeva, de Avaí, continuam freqüentando normalmente as aulas do ensino oficial, onde é ensinada não a sua língua materna, mas a Língua Portuguesa. Graças a um convênio com a Universidade do Sagrado Coração (USC), o aluno que pertence a aldeia recebe bolsa de estudo para cinco cursos

- Geografia, História, Biologia, Turismo e Matemática

- e está isento de todo e qualquer pagamento relacionado aos seus estudos. Em contrapartida, a aldeia oferece à universidade subsídios para que esta desenvolva trabalhos ligados à área da saúde, agricultura e meio ambiente.

Uma nova reunião entre os dez representantes das aldeias Nandeva está marcada para dezembro, novamente em Avaí, quando eles pretendem começar a compor um dicionário "oficial" da língua tupi-guarani.