07 de julho de 2026
Geral

Palestra

Eva Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

Rabinovici: da guerra real para a virtual

Texto: Eva Rodrigues

Editor-chefe de Internet do Estadão , Moysés Rabinovici falou sobre jornalismo impresso e jornalismo on line na USC

A familiaridade com os pageviews e frames é a mesma que já teve com o estêncil e a velha máquina Olivetti. Seja direto do front de guerra, como correspondente, ou no comando de uma batalha não menos "sangrenta" no mundo www, Moysés Rabinovici vem experimentando as ferramentas de trabalho que surgem em sua trajetória para fazer o que parece imperativo: jornalismo. Ele esteve em Bauru na última terça-feira participando da Semana da Imprensa - promovida pelo Sindicato dos Jornalistas - e conversou sobre a profissão com estudantes de graduação.

Atualmente à frente do portal www.estadao.com.br, Rabinovici está há 35 anos fazendo parte do grupo O Estado de São Paulo. Esteve no Líbano, Israel, Egito, Washington

- entre outros lugares mundo afora -, sempre em busca de uma perspectiva brasileira para as guerras e conflitos. Dessa época, guarda o aprendizado da arte de escrever. "Com apenas uma máquina de telex e uma fila de jornalistas gritando deadline atrás de você, há um abandono total de qualquer formalismo e preciosismo na linguagem, você 'escreve com a pele'. Não dá para pensar duas vezes, sai a primeira palavra, sai a segunda, e esses acabam sendo os melhores textos, que saem de um repente, uma necessidade, uma emergência - o repórter escreve o que sente naquele momento, como um testemunho, e o leitor também sente o que está acontecendo."

Em outro momento, participou do projeto do Jornal da Tarde, em que uma única linha podia demorar horas para ter a formulação perfeita. "O jornalismo do JT queria impactar o leitor com a emoção, com uma frase expressiva, e às vezes passávamos a noite em busca do texto perfeito", recorda-se. Dessa vivência profissional, Rabinovici vai buscar a resposta para a indagação de um estudante de jornalismo sobre o perfil do bom profissional: "Em todos os lugares em que estive me envolvi até o fundo de minha alma com o que estava fazendo. Então, não posso dizer que o bom jornalista é aquele isento, mas aquele que se envolve e consegue ser honesto e humilde para perceber que cada acontecimento, por mais corriqueiro que seja, é muito diferente um do outro. É preciso esquecer a arrogância e escrever não para se notabilizar, mas para transmitir".

Jornalismo on line

Apaixonado pela instantaneidade e possibilidades para o jornalismo advindas com a Internet, ele não tem respostas prontas para os questionamentos nem mesmo acredita em visões apocalípticas, como as que previam o fim do jornal impresso. Prefere discutir com tranquilidade as idiossincrasias da rede e vive às voltas no dia-a-dia buscando soluções equilibradas para os problemas que se apresentam. "Com relação ao jornal impresso, acredito que quando a Internet estiver mais popular ele deve ter a sua função um pouco mudada. Hoje, por exemplo, já podemos ver o jornal dando uma matéria e informando que a tabela pode ser acessada no site. Então, o jornal deve mudar mas não sei como isso vai se dar."

Textos longos ou curtos devem ser usados na Internet? "Não existe certeza nenhuma com relação a isso. disponibilizei um texto de 60 páginas do Gilles Lapouge e houve 60 mil downloads; também dou notícias curtas o tempo todo. O problema do texto longo é só o tempo gasto na leitura - um usuário doméstico não pode ficar muito tempo usando a linha telefônica -, mas ele pode gravar ou imprimir para ler depois. O texto curto, ao contrário, não satisfaz", argumenta.

Para Rabinovici, um dos grandes trunfos do jornalismo on line em relação ao impresso é a seção

"Últimas Notícias". "Essa é a nossa grande audiência pois estamos ali, nos renovando o tempo todo, dando novos títulos, escrevendo novas manchetes,

é um trabalho interminável. Nós somos jornalistas o tempo todo com deadline, sem horário de fechar, é adrenalina pura."

De acordo com o editor, o portal vem experimentando um crescimento de 12% ao mês e conta hoje com 50 milhões de pageviews mensais.

Pirataria à vista

A pirataria e a indisciplina que se multiplicam pela rede mundial estão na ordem do dia das discussões de profissionais como Rabinovici: "A Internet, por não ter uma ONU, não ter leis, cria muitos problemas difíceis de controlar. Mas estamos todos de alguma maneira tentando disciplinar esse mercado. A Associated Press, por exemplo, que vende fotos há anos, está colocando num endereço as fotos que podem ser usadas on line e noutro as fotos para o jornal impresso. Por quê? Porque os portais estão dando as melhores fotos na hora e no dia seguinte já não são mais novidade nos jornais. Atitudes assim demonstram que essa não é uma preocupação doméstica,

é uma preocupação internacional", aponta.