07 de julho de 2026
Geral

Dia do Tietê

Tânia Fonseca
| Tempo de leitura: 6 min

Ambientalistas querem oficializar Dia do Tietê

Texto: Tânia Fonseca

Hoje é comemorado mais um Dia do Tietê e a motivação para festejar a data fica por conta de algumas iniciativas que tentam salvar o rio da poluição que afeta uma das principais fontes de vida do planeta. Com o objetivo de unir e estimular a comemoração da data junto à população dos quase 80 municípios banhados por suas águas, principalmente os jovens, pelo quinto ano consecutivo, em Barra Bonita serão realizada várias atividades alusivas ao rio.

As festividades terão início às 9 horas,

à bordo da embarcação Xumburi, que permanecerá atracada nas margens do rio, na praça Waldemar Lopes Ferraz

(Praça do Teleférico) com a participação de escolas do município e apresentação do Coral das Escolas formado por mais de 400 alunos.

Acontecerá ainda um ato ecumênico, com apeixamento, músicas e entregas de certificados aos Amigos da Natureza. Na mesma ocasião será apresentada a "Carta do Rio Tietê", propondo a todos os municípios que assinem, reivindicando que o dia 22 de setembro, Dia do Rio Tietê, faça parte das comemorações oficiais do Estado de São Paulo.

Este evento é uma realização das Organizações Não Governamentais, Movimento de Defesa do Tietê, Movimento de Amparo Ecológico, "Mãe Natureza", Núcleo União Pró-Tietê, Fundação S.O.S. Mata Atlântica e outras entidades.

O rio que já foi 'caminho' dos bandeirantes que navegavam pelas então límpidas águas, hoje sofre com a sujeira que avança e compromete o desenvolvimento e causa prejuízos, porque produz distúrbios ambientais e afasta turistas.

A poluição, segundo o ambientalista Hélio Palmesan já atinge até Buenos Aires, a capital da Argentina, através do rio Paraná. A situação, grave e preocupante, na opinião dele, merece estudo sobre uma possível punição aos municípios responsáveis pelo lançamento de tanta sujeira nas

águas. Afinal, se o lixo 'corre' para o rio é sinal de que alguém está falhando na coleta.

Sabe-se, segundo o ambientalista que o lixo sólido em sua maioria, (latas e garrafas plásticas, por exemplo) é produzido especialmente na cidade de São Paulo e lançado ao Tietê. Para percorrer os cerca de 300 quilômetros que separam o Tietê de São Paulo do Tietê de Barra Bonita, por exemplo, uma garrafa demora três dias, em períodos de cheia, ou até uma semana e meia, com o leito do rio em nível normal.

Ao contrário da maioria dos rios, que correm em direção ao mar, este nasce bastante próximo dele e corre em direção ao interior do continente. O Tietê banha aproximadamente 80 cidades paulistas, onde se abrigam cerca de 3 milhões de pessoas - não contabilizada, a população de São Paulo.

A despoluição do rio já mereceu diversos estudos e projetos. Um deles envolveu a construção de redes coletoras e estações de tratamento do esgoto. Essas estações, porém, têm por objetivo reduzir a contaminação da água por produtos químicos que se misturam a ela e, não, recolher o lixo sólido, que não se mistura à água, mas passa por ela e segue navegando até se acumular às margens do rios Tietê ou Paraná.

O lixo sólido, em grande parte reciclável, está na mira do ambientalista Hélio Palmesan e do empresário Paulo Henrique Salve, proprietário da Recicla Comércio de Sucatas Ltda., em Barra Bonita. Eles planejam para os próximos dias o início da coleta que tem que ser feita através de barco. Ao contrário do que se possa supor, o interesse do empresário não está relacionado diretamente ao lucro que pode ser obtido com a venda do material. O interesse de Salve, bem como o de Palmesan é aliviar o visual do rio e impedir que a sujeira prossiga rio abaixo. Salve diz que através de uma parceria com a Mãe Natureza, o lixo será coletado e o que for passível de reciclagem será comercializado. "Aparentemente o lucro financeiro será muito pequeno, mas a idéia principal é colaborar com o meio ambiente".

Antes de chegar a Barra Bonita, o lixo passa por duas barragens, nos municípios de Cabreúva e Salto. Parte dos detritos

é recolhido ali, mas a quantia de lixo é imensa e a maior parcela dele ultrapassa as barragens e segue sua viagem pelo rio.

Embora já tenha sido alcançada pelo lixo sólido, a água do rio Tietê em Barra Bonita ainda sobrevive. Palmesan explica que um rio absolutamente saudável tem seis miligramas de oxigênio por litro de água. Essa

é a quantia ideal, e os rios que apresentam esse índice têm suas águas classificadas como ótimas. O Tietê, em Barra Bonita, já foi assim. Depois, foi rebaixado para bom e, hoje em dia, apresenta índice aceitável, que varia entre três e quatro miligramas por litro - o que continua garantindo a sobrevivência de peixes.

A poluição da água vêm crescendo e assusta os ambientalistas de Barra Bonita: a mancha anaeróbia,

área em que a quantia de oxigênio na água

é menor que o ideal, avançava 15 quilômetros por ano, conforme pesquisa concluída há dois anos, e já está próxima à barragem do rio, em Barra Bonita. A expectativa de Palmesan é que o projeto de despoluição implementado em São Paulo, além da exigência de que as Prefeituras submetam os esgotos municipais a tratamento, antes de lançá-los ao rio, reduzam a velocidade do avanço da mancha anaeróbia. A preocupação se justifica. No Tietê que cruza São Paulo, o índice de oxigênio na água

é praticamente nulo. No trecho do Alto Tietê, esse

índice, segundo calcula Palmesan, deve atingir um miligrama por litro d'água, o que ainda não permite a sobrevivência dos peixes.

Rio facilitou colonização do Estado

O rio Tietê começa a ter importância na história do Brasil quando uma expedição de desbravadores portugueses desembarcou no litoral do atual Estado de São Paulo. Ao adentrarem pela Serra do Mar, chegaram a um planalto ocupado por índios, que se abrigavam ao longo de um rio. Os índios chamavam o rio de Anhembi, enquanto o planalto era denominado Piratininga. Em razão do fácil acesso

à água, um dos líderes do grupo de portugueses deciciu fundar um povoado. Era o padre José de Anchieta.

O rio, depois, serviu como via de acesso para que os bandeirantes conhecessem o interior daquelas terras.

O Tietê nasce a 60 quilômetros do Oceano Atlântico, em Salesópolis, ao pé da Serra do Mar. Ao invés de correr para o mar, o rio segue em direção ao interior. Quando chega a São Paulo, recebe a carga de poluição produzida na região metropolitana. Depois, conforme se distancia em direção ao interior, volta a ter águas cristalinas.

Ao todo, o rio tem 1.120 quilômetros de extensão e passa por mais de 80 municípios. Termina no município de Itapura, divisa entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso, onde desemboca no rio Paraná.

Somando a extensão dos rios Tietê e Paraná, existem hoje em dia 2,4 mil quilômetros de percurso navegável, ligando São Paulo à cidade de São Simão, em Goiás, e até a barragem de Itaipu, próximo a Foz do Iguaçu, no Paraná.

Além de incrementar a economia do País, por se tornar uma via de transporte barata, o Tietê começa a ser explorado de forma mais intensa, hoje em dia, em razão de seu potencial turístico. Muitos municípios situados

às suas margens planejam atrair turistas, anunciando as belezas naturais compostas pelo rio e o ambiente ao seu redor. Embora muitos trechos de sua extensão realmente ainda estejam intactos, outros foram devastados pela poluição produzida nos municípios ribeirinhos - especialmente a cidade de São Paulo.

Para explorar o potencial turístico do rio, esses municípios estão investindo no tratamento do esgoto produzido em cada um deles. Se a recuperação do Tietê acontecer, certamente vai poder ser intensamente explorado (desde que de forma consciente, para impedir nova degradação) pela indústria do turismo, pois oferece recantos de extrema beleza.