Direitos dos Idosos não é respeitado
Texto: Rita de Cássia Cornélio
Há 30 anos dona Sebastiana Sanches deixou a roça e veio para Bauru em busca de uma vida melhor. Aqui, trabalhou como doméstica até não agüentar mais. Hoje, com 74 anos, ela sobrevive com a minguada aposentadoria de R$ 151,00. Embora, a Constituição Federal lhe garanta alguns direitos, nem todos são respeitados. Na
última quinta-feira, foi comemorado o dia do Direito dos Idosos, data que passou desapercebida.
A garantia de assistência integral à saúde
é um dos direitos que dona Sebastiana desconhece. "Tenho bronquite e uma hérnia. Já procurei a unidade de Saúde do Parque Jaraguá. Eles me encaminharam para o SUS e até hoje não consegui ser operada. Isso já faz três anos."
As doenças não tratadas, obrigam dona Sebastiana a levar uma vida sofrida. "Não posso trabalhar. Quando a hérnia sai para fora, tenho que ficar na cama. Não consigo mais varrer a casa, por causa da bronquite. Dependo de outras pessoas para determinados serviços domésticos."
A alimentação da idosa é precária, embora seja outro direito que ela desconhece. "Meu dinheiro não dá para comprar muita coisa. Carne só como quando alguém dá. A mistura é tomate e ovo. Pago água e luz e compro o essencial."
As frutas e o leite, alimentos adequados para quem já atingiu os 70 anos, dona Sebastiana não ingere de jeito nenhum. A geladeira só tem garrafa de água.
O sonho da aposentada é comprar um casa. "Desde que vim para Bauru mora aqui na beira do rio, na favela do Jaraguá. Minha saúde piorou muito depois que vim morar aqui. Mas não consigo comprar nenhum imóvel."
Poste
O sonho do casal Adão Paes de Almeida, 72 anos e Laura Cabral, 74 anos é conseguir comprar um "postinho" e instalar energia elétrica na casa onde moram, no Jardim Nicéia. Aposentado, ele também é um dos sobreviventes do salário mínimo.
A situação do casal está ainda mais precária do que normalmente já é. "Para construir estes três cômodos, aqui no Jardim Nicéia, eu tive que fazer um empréstimo de R$ 250,00." O pagamento do empréstimo reduziu o parcos recursos do casal. "Estamos recebendo só R$ 90,00, porque a prestação vem descontada na aposentadoria."
Comprar um "postinho" é uma das dificuldades atuais. "Estamos usando energia elétrica do vizinho. No mês passado, pagamos R$ 25,00. Nem chuveiro nós temos."
O casal se alimenta praticamente só de arroz. "Cozinhamos no fogão à lenha para não ter que comprar gás. Comemos carne só quando ganhamos, o mesmo acontece com as frutas."
A maior dificuldade do casal é lidar com a Saúde.
"Tenho sinusite e não consigo resolver o problema. Em alguns dias não agüento as dores na cabeça. Já procurei um médico, mas o problema persiste."
Lazer
Mesmo recebendo uma aposentadoria acima da maioria dos aposentados, João Teixeira, 73 anos, não consegue passear e nem se divertir. "Eu recebo R$ 500,00 de aposentadoria. Gasto cerca de R$ 150,00 com remédios todos os meses. Tive derrame."
O atendimento médico gratuito não basta para o aposentado.
"Os remédios custam caro." Para completar o orçamento, ele recolhe papel na rua. "Eles pagam R$ 0,12 o quilo.
Ele explica que trabalhou durante 40 anos como auxiliar de escritório.
"Sonhei que quando aposentasse iria viver sossegado, tranqüilo. Porém, tenho que enfrentar esta situação. Em casa, comemos carne duas vezes por semana."
Só no papel
Na opinião do coordenador do Conselho de Idosos Antônio Baebe, o idoso não tem muito o que comemorar. "Os direitos dos idosos não saem do papel. A legislação garante uma série de benefícios que, infelizmente não são colocados em prática."
Ele acha que falta vontade política. "Acho que no papel está tudo perfeito, porém fazer valer os direitos previstos na legislação é que é difícil. O idoso não vota mais. Vejo que os políticos se preocupam com uma série de coisas e não lembram deles."
Baebe diz que a maior dificuldade dos idosos é o acesso ao atendimento médico. "A Saúde deles requer cuidados. Como a alimentação é precária, eles acabam adoecendo mais."
Os salários dos idosos complicam ainda mais a situação, segundo Baebe. "Eles ganham pouco e não conseguem comprar os remédios que custam caro. Conseqüentemente não curam as doenças."