07 de julho de 2026
Geral

Artes

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 3 min

(D)eficiente nas artes

Texto: Fabiano Alcantara

Aluna da Apae que escreve poesias se destaca e tem poema incluído em coletânea

Ela gosta muito de rir (e quem não gosta?), mas quando a coisa aperta (e para quem não aperta?) ela recorre à poesia. Escreve sobre seus amores, suas paixões. Um desabafo mesmo. Talvez seja como Fernando Pessoa que escreveu a célebre frase "O poeta é um fingidor", mas pode ser expressão da angústia de uma mulher de 20 anos. Enfrentando o preconceito, Carla Vanessa Carolino não deixa de produzir arte por ser considerada deficiente. Sua coragem é sua eficiência.

Mesmo que um "deficiente" não tenha o talento de um Artur Bispo do Rosário, o genial artista plástico que foi um dos destaques da Mostra do Redescobrimento, o efeito terapêutico da arte é inquestionável. Seres humanos condenados ao estigma de "menos capazes" têm uma necessidade especial de se expressar, ou seja, de fazer arte seja ela qual for.

No caso de Carla, a escolhida é a poesia. ""Escrevo desde os 12 anos. Minha poesia fala sobre meus sentimentos e relacionamentos", afirma. A estudante superou as dificuldades que encontrou para aprender e se desenvolver até os 20 anos que têm hoje. Cursa a 8ª série e freqüenta a Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) apenas por motivos profissionais. Hoje, faz estágio na Cetesb e desempenha muito bem seus afazeres de auxiliar de escritório.

Mas, ultimamente, o maior motivo das risadas gostosas de Carla não é o seu desenvolvimento profissional, mas a poesia. Após enviar alguns trabalhos para um concurso que selecionaria obras de arte e textos de deficientes e doentes mentais, teve um poema selecionado e publicado em um livro muito bem editado.

A coletânea "Arte de Viver" saiu pela Janssen-Cilag Farmacêutica e reúne o melhor dos trabalhos de 99. Para o ano que vem, Carla pretende repetir o feito e já começou a selecionar seus escritos. De qualquer forma, só seu gosto pela poesia e sua sensibilidade já são uma prova de que a "deficiência" é muito mais uma construção social. Uma dificuldade de aceitar as diferenças. Coisa que os anos devem fazer mudar. Um novo milênio vem aí. Já é hora de começa a pensar sobre isso. Viva a diferença. E viva os diferentes.

Inconsciente foi destaque da Mostra do Redescobrimento

Um dos pontos altos da Mostra do Redescobrimento, a megaexposicão que aconteceu até o começo do mês em São Paulo e foi vista por 1,8 milhão de pessoas foi o módulo Imagens do Inconsciente, que mostrava a produção de pacientes de hospitais psiquiátricos. O mais conhecido deles, Artur Bispo do Rosário (1911-1989), ganhou um significativo espaço.

Ainda que doente mental, Bispo é considerado um dos maiores artistas plásticos do Brasil em todos os tempos. Fazia uma arte extremamente conectada com o século 20, se aproximando de correntes estéticas como surrealismo e do dadaísmo sem, contudo, nunca ter tido contato com obras de Dalí ou Duchamp, por exemplo. Dizia ter necessidade de reconstruir o mundo e, por isso, trabalhava com o que tinha à mão. Todas as suas roupas foram empregadas nessa tarefa. Bem como objetos do cotidiano, como talheres e vasilhas.

Bispo também costumava dizer que fazia arte porque "as vozes mandavam". Em uma de suas obras mais famosas, o "Manto de Apresentação", o artista se preparou para chegar aos céus e encontrar as origens dessas vozes.

O módulo do Inconsciente foi uma denúncia contra o confinamento, que teve como um de seus maiores críticos Nise da Silveira (1905-1999). A terapeuta, que começou a incentivar a produção dos internos para registro e estudo, foi o principal nome da luta antimanicomial, além de ser responsável pelo descobrimento de vários artistas.