07 de julho de 2026
Geral

Transmissão

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 7 min

Segurança na transmissão

é discutida

Texto: Patrícia Zamboni

Aprender a gerenciar, cada vez com mais precisão, os fatores de risco e diminuir (com tendência a zerar) o número de acidentes com trabalhadores que atuam na área de manutenção e inspeção de linhas aéreas de transmissão de energia elétrica. Esses foram alguns dos principais objetivos do I Encontro Técnico de Inspeção Aérea de Linhas de Transmissão, realizado na semana passada, em Bauru, na Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP) - um dos segmentos da antiga Cesp, que foi privatizada.

A empresa possui uma frota própria (uma das poucas desse setor) de quatro helicópteros que são pilotados por pessoal altamente treinado durante os trabalhos de manutenção de linhas aéreas no Estado de São Paulo, entre outros. No total, são 17.234 km de circuitos de linhas e 10.982 km de linhas (com apenas um circuito).

De acordo com o gerente do Centro Especializado de Manutenção da CTEEP, engenheiro Ricardo Gonçalves Bustamante, uma recente legislação passou a determinar que todas as empresas que possuem mais de uma aeronave em sua frota, têm que aplicar o Plano de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos

(PPAA). Além de ser exigência, trata-se de fator preponderante a uma companhia que desenvolve atividades tão delicadas, calculadas e perigosas, como a manutenção das linhas aéreas. A aplicação desse plano fica a cargo do Quarto Serviço Regional de Aviação Civil - Serac 4.

De acordo com o Major Aviador do Serac 4, Ricardo Magno Silva Rosa, atualmente 75% dos acidentes ocorridos durante esse tipo de operação são causados por falhas operacionais. Segundo Ricardo Bustamante, na CTEEP nunca foi registrado nenhum acidente com vítima fatal desde que a empresa começou a operar com helicópteros, em 1969. Já são mais de 70 mil horas de vôo. O único acidente fatal ocorrido este ano, em fevereiro, foi em uma empresa de energia elétrica situada no Pará, segundo Bustamante.

O plano de ação de cada empresa atuante nesse setor

é permanente e tem que ser revalidado anualmente. O objetivo principal é gerenciar os fatores de risco, tender a zero o número de acidentes e garantir a segurança de trabalhadores e dos consumidores de energia elétrica. "Durante a convenção foram mostrados, em slides, vários acidentes fatais ocorridos durante operações de manutenção de linhas aéreas de energia. Trata-se de uma área de risco, porém, essencial. Se todos se conscientizarem do que precisa ser feito, certamente as estatísticas vão melhorar. E é o nosso objetivo. Não é grande o número de acidentes aéreos nessa área, porém, o ideal é baixar para a ocorrência zero", diz Bustamante.

De acordo com o engenheiro, a maioria dos acidentes ocorridos durante operações de empresas de energia elétrica são resultado de uma avaliação incorreta do piloto. Por esse motivo, o fator humano é um dos principais temas abordados pelo PPAA. "O fator humano é nossa grande preocupação. Os helicópteros utilizados para esse tipo de trabalho, não possuem instrumentos para vôo. Ou seja, todos os vôos são visuais. A exigência é de que, para voar, se consiga enxergar bem até uma distância de mil metros. Caso contrário, a missão deve ser abortada", diz Bustamante.

Privatização

Para Ricardo Bustamante, as empresas do setor elétrico estão passando por uma "fase de aprendizado" após o processo de privatização. "Estamos passando por uma fase de aprendizado. Certamente, o que acontecerá no setor daqui um ou dois anos será bastante diferente do que aconteceu até agora. Essa é uma situação que ultrapassa os limites do nosso País. Existem modelos de empresas no setor elétrico que mostram que a privatização

é a solução quando não se tem recursos para atender às necessidades de expansão", opina Bustamante. Para ele, a privatização é uma necessidade nesse setor.

Durante o processo de privatização, a antiga estatal Companhia Energética de São Paulo (Cesp) foi dividida em quatro empresas: Elektro (setor de distribuição de energia) - a primeira a ser privatizada, Tietê (geração), Paranapanema (geração) e Cesp (empresa de geração do Paraná). O setor de transmissão deve continuar nas mãos do Estado, segundo Bustamante.

"Numa fase de falta de recursos, a privatização do setor deixa de ter o caráter de ideal e se transforma em necessidade para atender o desenvolvimento do País", diz o gerente de manutenção da CTEEP.

Questionado sobre a melhoria nos sistemas de manutenção

- incluindo a recente questão sobre a possibilidade de falta de energia/racionamento de água no Estado de São Paulo - e sobre os possíveis incrementos que possam ser gerados com o setor elétrico comandado pelo capital privado, Bustamante, diz que a questão do racionamento está sendo constantemente avaliada e que está sujeita a fatores imponderáveis, como as condições meteorológicas.

"A questão do racionamento de água e falha no fornecimento de energia elétrica está sujeita a diversos fatores que não podem ser calculados. Numa época de muita seca, por exemplo, podem haver desligamentos causados por queimadas, que são involuntárias. Numa época muito chuvosa, existe o risco de erosão em locais onde estão instaladas torres de transmissão de energia, de tal forma que elas não suportem a ação do solo, por exemplo. A questão das chuvas também

é delicada. De nada adianta possuir um sistema de transmissão se não chover, porque os reservatórios ficarão vazios", observa Bustamante.

O engenheiro admite a possibilidade do racionamento. Por outro lado, diz que as providências para evitar isso estão sendo tomadas. "Os governos estadual e federal estão tomando providências em relação a essa questão através do incentivo à construção de usinas térmicas, que têm um tempo muito menor de maturação do que uma hidroelétrica. Existem várias centrais termoelétricas que devem ser agregadas ao sistema para contribuir na luta contra o racionamento", coloca. Para Bustamante, atualmente o racionamento de água/energia está sob controle.

Desenvolvimento x segurança

O Serac 4 atua em parceria com as empresas que trabalham com manutenção de linhas aéreas formando os pilotos e desenvolvendo planos de ação que visam a diminuição da possibilidade de acidentes aeronáuticos. O major Ricardo Magno Silva Rosa, que é chefe da seção de investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos do Serac 4 (responsável pelos Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, no que diz respeito

às atividades da aviação civil brasileira), diz que o objetivo do trabalho desenvolvido por sua equipe é baixar a zero o número de ocorrências de acidentes aeronáuticos.

De acordo com o major, são três os principais fatores que contribuem para a ocorrência de um acidente com aeronaves: fator operacional, fato humano e fator material. Todos têm que ser analisados para se chegar à causa. Segundo o major, atualmente, 75% dos acidentes aeronáuticos são causados por alguma falha operacional.

A parceria entre a CTEEP e o Serac 4 é explicada pelo major com base na vital importância de que o setor de energia elétrica funcione bem para gerar desenvolvimento no País.

"A maior parte da energia elétrica produzida no Brasil passa pelo Estado de São Paulo, sendo, depois, distribuída para o restante do território nacional. Pela localização geográfica, Bauru é uma cidade muito importante nesse contexto. Para manter o País vivo, o setor de energia tem que funcionar muito bem e o papel das pessoas especializadas na inspeção aérea de linhas de transmissão

é de total importância, já que esse é o meio mais rápido, eficiente e barato de se fazer esse tipo de inspeção. O helicóptero é fundamental no aumento de produtividade e, onde existe atividade aeronáutica, existe a participação do Serac 4 nos Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul", explica o major Magno.

Trabalhar com segurança de vôo para prevenir acidentes

é a grande responsabilidade do Serac 4 nessa parceria.

"As equipes que trabalham com inspeção de linhas aéreas têm que desempenhar o seu trabalho de maneira eficiente, rápida e segura. Não se pode comprometer a segurança de um vôo nesse tipo de trabalho porque o helicóptero fica parado ao lado de uma torre cheia de fios de 400 kw, que é capaz de liquidar o aparelho em segundos. Esse encontro tem como grande objetivo, para nós, trazer informações, treinamento e experiência para todos os participantes que estão aqui e que trabalham em diversas empresas de energia elétrica em todo o País", diz o major.