Aposentados vão à luta contra discriminação
Texto: Josefa Cunha
O Sindicato dos Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo (Udemo) está organizando uma grande mobilização para lutar contra a discriminação sofrida pelos aposentados da categoria e de outros segmentos profissionais que venham abraçar a causa. Esta semana, um grupo de mais de 30 pessoas esteve ouvindo a palestra do presidente estadual da entidade, Roberto Augusto Torres Leme, que veio a Bauru falar do problema e sobre as ações que vêm sendo desenvolvidas na defesa de políticas mais justas para os que encerram a vida profissional.
Para Leme, há uma verdadeira conspiração do governo contra os aposentados, a começar pela Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 136/99 que tramita no Congresso e propõe o "confisco" das aposentadorias, na medida em adota a cobrança gradativa de contribuições.
"Os aposentados estão sofrendo todo o tipo de achincalhamento. São tratados como se não valessem nada", protestou, lembrando da necessidade mais do que urgente de a categoria se unir na luta pelos seus direitos.
A situação de quem atinge o fim da carreira profissional passa tão à margem das políticas governamentais que aposentar-se não tem - pelo menos para uma grande maioria
- mais o significado de tranqüilidade. Pelo contrário, o descanso tão almejado após anos seguidos de trabalho acaba gerando doenças e preocupação financeira, já que os rendimentos estão cada vez mais arrochados.
Os profissionais do magistério, por exemplo, perderam a incorporação das gratificações no
último dissídio da categoria. O benefício havia sido garantido em 1998, após grande mobilização dos inativos, mas o Governo Estadual recusou-se a incorporar as novas gratificações concedidas a partir deste ano. Em decorrência da inflação que alegam estar em patamares baxíssimos, os salários desses aposentados começam a verificar perdas de 20%. Nos casos de quem está há mais de cinco anos fora das atividades, o prejuízo já remonta mais de 50%, ou seja, essas pessoas estão ganhando menos da metade do que percebiam na época da ativa.
Não é raro se encontrar aposentados fazendo "bicos" para manter o padrão de vida da família. "Se o mercado de trabalho já está difícil para quem é jovem, imagina para uma pessoa de meia idade aposentada. Acontece que os desejos consumistas não cessam e nem a vontade de continuar dando conforto à família. Conheço muita gente que arruma uma atividade extra para garantir o padrão, e muitas vezes não se consegue. Isso gera frustração e problemas de ordem emocional", conta Leme.
Além das questões financeiras, a própria cultura individualista do Brasil e dos países ocidentais contribui negativamente com a situação dos inativos.
"Ao contrário dos orientais e dos indígenas, que valorizam as pessoas idosas ou com mais experiência, nossos aposentados acabam marginalizados. Isso tudo porque nós crescemos sob a idéia e a exigência de sermos autônomos. Quando paramos nossa vida profissional, passamos a ser vistos como um peso pela sociedade", avaliou, contando que não são raros os casos de quem se arrepende da aposentadoria.
Estudos científicos revelam que 60% das doenças que surgem após a aposentadoria, já na fase da meia idade e dela em diante, têm origem psicológica. "Quando a pessoa se aposenta, perde um referencial de anos. Sem nada para fazer, acaba ficando em casa e o prestígio pessoal se consome em pouco tempo. Se as políticas governamentais estimulassem projetos para tirar esse aposentado de casa e inseri-lo na sociedade ativa, as coisas seriam bem diferentes. Como não podemos ficar esperando a boa vontade dos políticos, nós mesmos estamos começando a organizar um movimento nesse sentido. Já temos o Instituto Mosap, por exemplo, que vem mobilizando os servidores públicos aposentados. Abraçamos a luta e esperamos realizar um grande ato nacional no ano que vem. Queremos que todas as categorias entrem nessa luta", conclamou.
As ações conjuntas visando o resgate da dignidade dos idosos - e conseqüentemente, dos aposentados - realmente precisam começar a ganhar espaço e aparecer aos olhos dos governantes. Afinal, o contingente de brasileiros com mais de 60 anos já corresponde a 9% da população e as projeções indicam que eles serão 13,5%
(ou mais de 28 milhões) em 2020. "A população brasileira está envelhecendo e desde já é preciso pensar nessa realidade não muito distante", alertou Leme.
Aposentadas ativas
"Me aposentei como supervisora de ensino e estou achando
ótimo poder ficar em casa, não ter horário e nem compromissos, mas entro em 'deprê' quando penso que terei de exercer uma atividade extra para complementar o orçamento. Vou dar aulas de artesanato para reverter um pouco dos quase 50% que perdi desde então", Heloísa Pereira, aposentada há dois anos e meio.
"Estou podendo fazer coisas que sempre tive vontade, mas que nunca tive tempo, como estudar italiano e História da Arte. Depois de me aposentar, continuei dando aulas e fui secretária da Educação. Hoje em dia trabalho na diretoria da creche Rodrigues de Abreu e não tenho nada a reclamar da aposentadoria. Estou numa boa", Raymi Batista Pereira, aposentada há 19 anos.
"Me aposentei como diretora de escola em 95, mas não parei. Além de lecionar, faço parte da diretoria executiva da Apeoesp, atuando como responsável pelo departamento dos aposentados. Acho fundamental que nos mobilizemos a fim de lutar por nosso direitos. Na última greve, por exemplo, ficamos de fora e perdemos a incorporação das gratificações. Um prejuízo que não podemos deixar acontecer novamente", Vera Lúcia Tamião, aposentada há cinco anos.