07 de julho de 2026
Geral

Linguagem de sinais

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 3 min

Surdos querem popularizar língua de sinais

Texto: Fabiano Alcantara

Profissionais de saúde e educadores buscam aprender a Língua Brasileira dos Sinais (Libras) para se aprimorar

Para acabar com a incompreensão de que são vítimas ao realizar tarefas básicas, como ir ao banco ou comprar roupas, os surdos querem popularizar a língua dos gestos entre os "ouvintes". E estão conseguindo, cada vez mais, pessoas da área de saúde e educadores procuram os curso de Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Nas escolas, alunos surdos já são aceitos normalmente. Nesse caso, cabe aos educadores a adaptação para transmitir os conhecimentos.

Em Bauru, a intérprete Ivonete de Oliveira Rodrigues "traduz" os cultos da Igreja Presbiteriana do Jardim Redentor. De acordo com ela, um projeto de lei tramita na Assembléia Legislativa para determinar a obrigatoriedade de intérpretes em estabelecimentos comerciais, bancos e repartições públicas, entre outros. "Uma lei semelhante já está em vigor no Rio Grande do Sul e no Paraná. Algumas cidades do Interior de São Paulo também tem leis municipais, como o caso de Jaú", afirma.

"É importante que as pessoas estejam aprendendo a se comunicar com surdos. Não gosto de ser chamado de deficiente. Sou apenas surdo", revela Renato Paulino de Lira, instrutor de Libras. Com a ajuda da intérprete Ana Cláudia Castilho, a reportagem do Jornal da Cidade conversou com Lira.

O crescente interesse pela Libras entre pessoas "comuns", levou Lira a buscar uma escola de idiomas para lecionar. Desde o começo do ano, o CCI oferece o curso. A procura fez com que a escola planejasse a abertura de outra turma.

"Pessoas de toda região vêm fazer o curso em Bauru. A maioria não é surda, são fonoaudiólogos, nutricionistas, professores. Enfim, gente da área de saúde e educação, que quer se comunicar melhor com os surdos e obter um desenvolvimento profissional ao", afirma a diretora da escola de línguas, Laura Brandão.

Já o ensino da língua, de acordo com a Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração do Surdo), só pode ser realizado por surdos. Os ouvintes, mesmo que tenham fluência em Libras, podem trabalhar no máximo como intérpretes.

Gestos economizam palavras

Por ser uma linguagem de gestos, a Libras é extremamente econômica. Em algumas ocasiões, um gesto substitui uma frase. De acordo com Lira, assim como no português e em outras línguas, há uma maneira mais popular de se comunicar na língua dos sinais e outras mais "cultas". Por isso, o estudo aprofundado de Libras é uma necessidade para os surdos que desejem ter uma cultura mais aprofundada.

Assim como a Língua Brasileira de Sinais, existem normas para comunicação de surdos de outras nacionalidades. O jeito dos surdos "dizerem" beber água, por exemplo, é diferente no Brasil e nos EUA. Além da brasileira, Lira sabe um pouco da língua norte-americana de sinais. Ou seja, ele é bilíngüe.

Para Lira, o preconceito deve ser encarado com serenidade. "Falta conhecimento sobre os surdos", afirma. "Mas, no meu trabalho o relacionamento é ótimo", contemporiza.

O instrutor trabalha no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, da Universidade de São Paulo

(USP), conhecido como Centrinho. Lá, ele ensina a língua funcionários. "Workaholic", e muito solicitado por ser autorizado pela Feneis a ensinar a Libras, ele também trabalha na Universidade do Sagrado Coração (USC), em escolas públicas de Bauru e em Jaú, além do curso que ministra aos sábados no CCI.

Ainda assim, encontra tempo para a família. Uma de suas expressões preferidas em Libras. Com a mulher Adriane, também surda, tem dois filhos gêmeos, Renato Jr. e Ana Luíza, de dois anos e sete meses, ambos "ouvintes", como os surdos se referem a quem ouve.

Mesmos pequenos, os filhos já são bilíngües. Falam português e Libras. "Eles atendem ao telefone e traduzem para gente", conta Lira. Com menos de três anos, o casalzinho já tem uma profissão: são intérpretes.