08 de julho de 2026
Geral

Barreira cultural

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Missionário desafia barreira cultural

Abandonar a família, amigos e sua própria cultura faz parte da rotina de quem decide ser missionário. Movidos pela fé e solidariedade, essas pessoas atravessam continentes para ajudar desconhecidos. Vencer a saudade de casa e as diferenças culturais são os maiores desafios para quem se aventura nas missões.

Diferentes Igrejas mantêm programas de missões pelo mundo. Apesar de algumas discordâncias de credo, em comum todas têm o objetivo de pregar o Evangelho cristão e auxiliar em programas sociais. Para manterem seus missionários pelo mundo as igrejas recorrem ao dinheiro do dízimo e de campanhas especiais.

Com a experiência de quem já morou cinco anos em Guiné-Bissau, país da África Ocidental, a missionária bauruense Alissandra Risieri prepara-se para embarcar novamente, no dia 15 de janeiro de 2001. Após ter feito um curso de enfermagem, ela vai retornar ao Projeto Vida, um programa na área de saúde realizado na aldeia Sintchan-Boxe, a 350 quilômetros de Bissau, capital do país. O projeto é mantido pela Igreja Cristã Renovada.

Trabalhando na área de nutrição e educação com crianças do Povo Fula, uma das etnias de Guiné-Bissau. Alissandra Risieri explica que sua principal motivação

é divulgar o Evangelho cristão. "Nosso objetivo maior é levar a mensagem da salvação em Jesus Cristo".

Paralelamente ao trabalho de evangelização, as preocupações com a saúde do Povo Fula é constante, pois o hospital mais próximo fica a 60 quilômetros da aldeia. "Muitas vezes nos deparamos com situações que não temos como resolver na aldeia. Os doentes são transportados geralmente de caminhão e a viagem leva em torno de uma hora e meia", conta Alissandra Risieri.

Agora, uma das metas do projeto é comprar uma ambulância para o transporte dos doentes. Ela justifica a necessidade relatando as dificuldades que enfrenta. Segundo ela, devido a complicações no parto uma mulher grávida de gêmeos só conseguiu dar à luz a uma das crianças. "Tivemos que levá-la até o hospital na carroceria de um caminhão com um filho na barriga e o outro nos braços", relata Alissandra Risieri.

Adaptar-se a uma nova cultura foi apenas um dos desafios enfrentados pela missionária . Na aldeia onde trabalhava, como na maior parte do país, não existe água encanada nem luz elétrica. O perigo de contrair uma doença tropical também é um risco constante. Ela sabe disso, pois passou perto da morte devido à febre alta causada por uma malária. Como se não bastasse tudo isso, Guiné-Bissau

é um país 100% islâmico, o que gerou vários choques culturais para a bauruense.

Durante uma aula de ciências para as crianças da aldeia, na margem de um lago, Alissandra Risieri começou escutar o som de tambores. Imediatamente, as crianças embrenharam-se na mata próxima. Sem compreender o que acontecia, a missionária decidiu ficar. "Quando olhei para o lado, as crianças tinham 'desaparecido'. Não tinha como eu correr".

Os nativos da região estavam trazendo uma garota para banhar-se no lago após um ritual de circuncisão. "Minha sorte é que era a circuncisão de uma menina, caso fosse de um menino poderia ter acontecido algo de grave comigo". Para os povos islâmicos, a circuncisão é um ritual sagrado e as mulheres são proibidas de assistirem a cerimônia.

Filho de missionários, o norte-americano Thomas John Ferrel, de 40 anos, passou praticamente toda sua vida em missões. Nascido em Seattle, nos Estados Unidos, ele foi criado na Bolívia. Há nove anos no Brasil, ele trabalha com os índios Pakás-Novos, em Guajará-Mirim, no Estado de Rondônia. Durante esse trabalho na aldeia, conheceu a missionária bauruense Claudeli Alves Valadão, com quem casou-se.

De formação evangélica, ele dedica-se à tradução da bíblia para o idioma dos índios atualmente está realizando um período de pregações na região de Bauru.

Mantido por diversas igrejas evangélicas, o projeto em que Ferrel trabalha também preocupa-se com a alfabetização dos índios em seu próprio idioma. "Não adianta traduzirmos a Bíblia se eles não souberem ler", explica Ferrel.

Segundo ele, o missionário precisa ter certeza de sua decisão para superar as dificuldades que surgem pelo caminho. "É importante também estar ligado a alguma igreja para ter um apoio de infra-estrutura", conta Ferrel.

Bem-humorado, diverte-se com as situações engraçadas pelas quais já passou por causa das diferenças de idioma. Na língua dos Pakás-Novos, kamini significa garganta e mininádegas. "Uma vez queria dizer que estava com dor de garganta e acabei errando". Apesar disso, ele não se incomoda. "Numa hora dessas temos que rir junto com eles, pois realmente é engraçado", diverte-se Ferrel.

A diretora do Departamento de Missões Tehillah, Shiroko Sato, ligada à Igreja Cristã Renovada, conta que hoje existem bauruenses na África Ocidental, Kosovo e China. Segundo ela, não são só as doenças colocam a vida dos missionários em risco. "Devido

às restrições religiosas impostas pelo regime comunista, estamos sempre preocupados com as condições de nossa missionária que está lá", conta Shiroko Sato.

Em 1977, o padre João Baptista Aoki deixou a cidade de Kobe, no Japão, para iniciar sua peregrinação. Pregou em cidades da região, até instalar-se em Bauru. Apesar de já estar no Brasil há 23 anos, ele conta que ainda sofre com as diferenças culturais,

"principalmente com o idioma".

Segundo relata padre Aoki, ser missionário é "morrer consigo mesmo e renascer em outra cultura". Para ele, as renúncias do missionário são recompensadas com o crescimento espiritual. "É um grande desafio e uma grande alegria ao mesmo tempo", conta padre Aoki. Em Bauru residem padres e freiras vindos de diversos países, como Dinamarca, Bélgica, Espanha e Portugal.

Os missionários de hoje têm uma postura diferente em relação aos primeiros encarregados de difundirem a fé cristã. A necessidade de assimilar a cultura estrangeira ao invés de impor a sua é um consenso entre os apóstolos modernos.

Serviço

Quem quiser auxiliar na campanha da missionária Alissandra Rieri pode depositar sua contribuição na c/c 0004-01-008129

- 1 (Banespa). O telefone para contato é 236 3197 e o email: missionlife@insidefernie.com