Comandando a elite
Texto: Gustavo Cândido
Jornal da Cidade - Como o senhor se interessou em se tornar policial?
Tenente Hudson Covolan - Eu estava no Tiro de Guerra quando o sargento foi fazer uma divulgação da polícia. Eu tinha me identificado muito com o Tiro, com o militarismo porque sou um cara muito organizado quanto a horário, procedimentos e condutas. Me interessei pela polícia e ingressei logo que saí do Tiro de Guerra.
JC - Há quanto tempo o senhor é policial?
Tenente Hudson - Há 13 anos. Trabalhei em São Paulo e Capão Redondo, na Rota, depois na Zona Sul, aí vim para a Florestal. Voltei para Bauru há três anos, no Pelotão Noroeste. Fiquei dez anos fora da cidade.
JC - Qual a diferença entre o trabalho da base e do Tático?
Tenente Hudson - Na base há um sargento que tem um grupo de policiais que trabalha num determinado bairro. Então, cria-se um vínculo muito grande desses homens com o local, eles passam a conhecer todas as pessoas e a rotina daquela comunidade. Com isso, consegue prever alguns delitos, fazer um acompanhamento sobre a incidência criminal naquela região e os policiais cada vez mais conhecem aquela região. Essa é a verdadeira função do trabalho na base. No Tático Móvel já é bem diferente. Ele é formado por um veículo grande com quatro homens com armamento pesado que vão agir em situações críticas. Por exemplo: o tenente da Comunitária tem um determinado problema em uma região, ele chama suas viaturas, mas pode ser que eles estejam em outras ocorrências. Então ele precisa de reforço e chama o Tático, a Cavalaria... Um outro aspecto do Tático é que ele não fica só em Bauru. Caso haja um problema em outra cidade do 4º Batalhão
(no total são 19 cidades), o comandante da unidade pode deslocar o Tático, que pode permanecer no local o quanto for preciso. É um reforço de peso, já que a tropa é bastante treinada.
JC - Qual a diferença entre o trabalho de uma viatura comum e o Tático?
Tenente Hudson - Para começar, a ação do Tático é diferente da ação de uma viatura de rádio patrulhamento padrão, que possui só dois homens. A palavra Tático pressupõe uma natureza de ação em conjunto, onde se tem um grupo de pessoas no qual a soma do resultado desse grupo é muito maior do que a soma do resultado individual de cada um. Então, se você pegar duas viaturas pequenas elas produzem um resultado que é menor do que o resultado do Tático, mesmo que o número de homens seja igual.
JC - Não é qualquer policial que entra para o Tático, não é?
Tenente Hudson - Não, tem até uma mística. O policial que quiser chegar ao tático tem de se destacar de alguma forma em suas funções nas bases comunitárias. Não que nas bases os policiais não sejam bons, alguns são até melhores do que os do Tático, mas
é uma questão de personalidade, de perfil, alguns são melhores no policiamento comunitário do que no Tático. Mas, enfim, o policial que se destaca, manifesta o desejo de ir para o Tático, e quando surge uma oportunidade ele passa para a unidade, que é uma unidade de elite, então
é onde está o que há de melhor nas bases comunitárias. Uma vez no Tático, ele faz um estágio para ver se tem o perfil da unidade. O policial do Tático precisa ter um tirocínio mais aguçado, ter uma reação mais rápida para uma situação de risco, isso porque numa ação ele pode comprometer a vida de mais três companheiros, então o nível de resposta dele deve ser mais rápido, ele deve estar acima do que a média consegue realizar na parte física, intelectual e de conhecimento jurídico. Se ele se enquadrar dentro do perfil do Tático, ele fica, se não se enquadrar, ele não pode ficar pois pode atrasar uma ação, comprometer tudo e colocar a vida dos companheiros em risco.
JC - No que difere o perfil do policial do Tático dos demais?
Tenente Hudson - Basicamente, a Polícia Militar tem uns quesitos que julgam todos os policiais militares como iguais, mas para o Tático Móvel ele precisa ter um tirocínio, que é a prática na sua profissão, melhor. Na prática, o tirocínio policial faz com que, numa viatura, o policial consiga olhar para uma pessoa na rua e, ao mínino indício, ao mínino gesto que fuja da normalidade, possa saber o que está acontecendo, se ela está fazendo algo errado ou não, por exemplo. O policial do Tático identifica as coisas apenas pelo olhar,
às vezes, como o pai que olha para o filho e sabe que ele
"fez arte". No Tático, o condicionamento físico tem de ser maior e também deve ser grande o seu auto-controle emocional. Se não for grande, isso vai influenciar no cumprimento da lei, ele pode se descontrolar durante a ação.
JC - Um policial do Tático tem um treinamento diferenciado em relação aos outros policiais?
Tenente Hudson - Sim, têm diversos treinamentos e instruções. Essas instruções são: educação física duas vezes por semana, no mínino, instrução técnica e tática, como estudo da legislação, uso de equipamentos, noções das leis que amparam a ação da polícia legalmente... O policial tem de saber até onde pode usar o poder de polícia sem abusar do seu poder. Se ele tem o aspecto emocional bem preparado e o conhecimento técnico bem preparado, ele raramente vai extrapolar a lei. Outra parte do treinamento do Tático são as ações de choque, porque uma das funções do Tático
é ser um pelotão de choque. Então nos temos alguns dias durante o mês, onde todo o pelotão se reúne e faz exercícios de ação de choque, uma educação física coletiva e uma manutenção de doutrina do policiamento de choque.
JC - Quantas pessoas fazem parte do Tático?
Tenente Hudson - Temos oito equipes empregadas de forma tática, cada uma formada por quatro homens, mas podemos ter nove viaturas, dependendo da situação. No total temos de 32 a 34 homens prontos para entrar em ação, sendo que todas as nossas equipes são comandadas por um sargento. O trabalho nas equipes também é igual, a doutrina é a mesma para todos.
JC - É correto afirmar que o Tático é a elite da Polícia Militar?
Tenente - Sim, é a elite, nós somos um grupo reduzido, nosso treinamento é constante e, conseqüentemente, nosso status é maior, até o uniforme é diferente. Não é fácil ir para o Tático porque dificilmente um policial sai daqui, só sai quando se cansa desse tipo de atividade, sai da linha padrão da unidade
(e mesmo assim ele tem a chance de voltar) ou quando opta por fazer outro tipo de serviço na comunidade. Geralmente esse grupo é fechado.
A origem do Tático
O Tático 4 tem esse nome devido ao 4.º Batalhão, que abrange Bauru e mais 19 cidades da região. A unidade, que antes possuía o nome de Patrulhamento de Tático Móvel (PTM), foi criada no começo da década de 90. De acordo com o tenente Hudson, a unidade acabou mudando de nome porque se destacou muito e passou a ser conhecida como o Tático do 4º Batalhão, logo apenas Tático 4. "O Tático fez muito nome, o nosso batalhão não tem nenhuma ocorrência que não tenha sido bem sucedida", diz Hudson Covolan. O recente caso de oito pessoas mantidas como reféns em Lençóis Paulista
é citado como exemplo pelo tenente: "O Tático, sob o comando do então tenente Jorge Miguel, foi até lá e contornou a situação de uma tal maneira que todas pessoas foram presas e nenhum civil saiu ferido. Nosso histórico é de sucesso total em quase dez anos de trabalho. Tudo isso foi feito sob o comando do hoje capitão Jorge, eu só estou seguindo um trabalho que ele começou".