07 de julho de 2026
Geral

Botecoterapia

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Botecoterapia "Instituição nacional"

Texto: Gustavo Cândido

Descontração e relaxamento. É em busca disso que um grande número de homens, quase todos os dias, terminam as tardes nas mesas e balcões de bares e lanchonetes por toda a cidade. O fenômeno se estende nos finais de semana para a maioria deles, principalmente aos sábados, quando alguns chegam a passar até 12 horas na mesa do bar "jogando conversa fora" com os amigos para depois voltar para casa

"completamente relaxados". É a botecoterapia.

Sexta-feira, 18h30. O escriturário André Antunes chega com os amigos Carlos Alberto Rodrigues, Claudinei Guerra e Hamilton Soares a um bar a 50 metros do escritório onde todos trabalham. "É aqui que nós ficamos depois do trabalho todos os dias", sentencia Antunes. A freqüência

é explicada pelo fato de todos serem solteiros. "Ficamos aqui vendo o movimento e olhando para as meninas", revela Guerra. Mas o objetivo não é só a paquera. Os amigos contam que o período em que permanecem no bar, conversando e tomando cerveja, serve para desestressar. "Quando chega o fim do dia, estamos todos muito cansados mentalmente, de tanto número, telefone e horas na frente no computador. Tudo o que a gente quer é sentar e não fazer nada", diz Antunes.

Assim como os amigos do escritório, centenas (ou talvez milhares) de homens seguem a mesma rotina, pelo menos uma vez por semana. "A gente pára para tomar uma cerveja mais na sexta-feira, porque durante a semana não dá", afirma o encarregado de funilaria Luís Carlos Inhesta. Ele conta que, para ele, a cerveja com os colegas de trabalho na sexta-feira serve para relaxar pela semana inteira. "No sábado e no domingo fico com a família, mas a sexta

é dos amigos", explica. O colega de trabalho e de bar, Marcelo Rodrigues, confirma o poder relaxante da mesa do bar. "Hoje mesmo eu estava meio nervoso, sentei aqui, tomei uma e agora já estou calminho", afirma bem humorado. A impossibilidade de se reunir em outro dia da semana faz com que os amigos "esqueçam das horas" quando estão reunidos e ficam enquanto tiverem dinheiro para pagar a conta ou até a conversa acabar. "Se o papo estiver bom, aí vai longe", diz Inhesta. Caso o bar feche "no meio da conversa", os amigos não se acanham: procuram outro que esteja aberto.

Hábito ruim

Mas não é preciso estar trabalhando duro o dia inteiro para ir buscar no bar ou na lanchonete mais próxima o relaxamento que os praticantes da "botecoterapia" alegam sentir quando estão com os amigos de posse de uma cervejinha no copo. Os irmãos Antonio Sidnei Cantador e Milton Cantador são aposentados, mas não abdicaram o direito de relaxar no bar. "Toda noite vou ao bar para me divertir com os amigos. Se ficar em casa vou fazer o quê, ver novelas?", questiona Antonio, ex-ferroviário. O irmão, Milton, acredita que é importante ir ao bar. "Não dá para ficar só em casa ou só pensar em trabalhar, trabalhar... ", justifica o ex-funcionário da Cesp.

Mas Milton sabe que o hábito de "ver" os amigos no bar todos os dias não é tão bem visto. Segundo ele, a esposa já se acostumou com suas saídas até o bar da vizinhança, mas admite que nenhuma mulher gosta que o marido vá para o bar. "Elas não gostam, mas isso faz parte da vida de um homem", decreta.

Não muito longe do bar onde os irmãos Cantador se reúnem com os amigos, um ex-funcionário público que também toma sua cervejinha todos os dias, até se recusa a dar o seu nome para que a família não veja o seu hábito como um mal exemplo. "Para mim é salutar vir até o bar, conversar com os amigos e até aprender alguma coisa durante uma conversa, mas pode não tomar isso como bom exemplo", explica o entrevistado. Para ele, o bar é uma forma de lazer. Por isso, mesmo tendo bebida em casa prefere sair para "tomar uma", com os amigos direto no balcão.

Happy hour

"As pessoas não gostam que se diga que o bar é um bom lugar para se freqüentar porque associam a bebida ao alcoolismo", acredita o bancário Márcio Aparecido Prado. Na sua opinião, isso não passa de um preconceito bobo. "É claro que nós bebemos, mas ninguém vem aqui para 'encher a cara' e sair carregado pelos amigos. A gente vem para relaxar e se divertir", diz. De acordo com o bancário, o fato de sair do trabalho e ir para o bar é um fenômeno mundial e que no Brasil acaba sendo mal visto por uma questão até cultural.

"Em Manhattan o sujeito sai do trabalho e vai fazer um happy hour tomando o seu blood mary e todo mundo acha isso normal e até chic. No Brasil, o cara batalha o dia inteiro e quando vai tomar uma cerveja com os amigos num boteco é chamado de bêbado ou de vagabundo", afirma. Apesar do possível preconceito, Prado disse que não vai deixar de tomar as suas, pelo menos duas vezes por semana, às quartas e sextas:

"chego melhor em casa", diz.

O problema dos bares que às vezes provoca o preconceito

é o tipo de pessoas que, de vez em quando, aparece e causa confusão depois de ter bebido "umas" a mais.

"O bar é uma terapia antiestresse desde que seja bem freqüentado e as pessoas se comportem como seres humanos", define o economista Ignácio Ataíde Tepedini, o popular

"tio da cerveja", que todo fim de tarde toma uma cervejinha na varanda da sua casa na rua Rio Branco, em frente ao BAC, e já se tornou uma figura conhecida na cidade. Tepedini, que apesar de beber em casa (oito cervejas durante a semana, 12 no sábado e 12 no domingo), ainda freqüenta bares com os amigos de vez em quando "nas quebradas da noite", acredita que o mal do bar é o excesso, já que muitas pessoas não sabem controlar o quanto bebem e, com isso, acabam se comportando de maneira imprópria. "O que entra pela boca não faz mal e sim o que sai dela", diz Tepedini, que afirma ter sido um grande freqüentador das mesas de bar bauruenses na juventude: "Uma vez sentei num bar com amigos às cinco horas da tarde na sexta e só saí no sábado". Os segredos para viver bem com a mesa de bar, segundo o "tio da cerveja", é não misturar as bebidas. "Se você toma um pouquinho de cada coisa não está bebendo, está cometendo suicídio", diz, e também saber o que conversar.

"O tempo que você fica no bar é uma hora de lazer, então você pode falar sobre tudo, principalmente sobre futebol e política, mas nunca se deve falar sobre religião, se não dá briga", ensina Tepedini.