07 de julho de 2026
Geral

Artigo

Por Padre Beto | especial para o JC Cu
| Tempo de leitura: 4 min

Julgar para não ser manipulado

Texto: Padre Beto/ especial para o JC Cultura

Havia certa vez um manipulador de marionetes chamado Craig, que depois de várias tentativas de manter-se em sua profissão acabou arrumando um emprego como auxiliar de escritório em um estranhíssimo prédio em Nova York.

Certo dia, ao remexer um armário, Craig encontrou um túnel que conduzia literalmente para o interior do cérebro do ator John Malkovich. Ao percorrer o túnel, Craig permaneceu por quinze minutos dentro da cabeça de Malkovich e pôde ver o mundo com os olhos do ator para depois ser cuspido em uma auto-estrada.

A descoberta não só motivou Craig a promover excursões por 200 dólares para o cérebro do ator de "Ligações Perigosas", mas o possibilitou manipular John Malkovich como uma marionete. Sempre fazendo suas visitas, Craig acabou pensando e tomando as decisões pelo próprio ator, conduzindo assim a vida de Malkovich como ele desejava.

Esta estranha história é o roteiro de um dos melhores filmes do ano passado e que agora está à disposição em vídeo: "Quero Ser John Malkovich", de Spike Jonze.

Com uma história surreal e um ótimo elenco, o filme de Jonze pretende ser apenas uma boa diversão. Mesmo assim,

"Quero Ser John Malkovich" não deixa de ser uma reflexão sobre o manipular e o ser manipulado, sobre a liberdade de pensar e a alienação na qual muitas vezes nos encontramos.

Como homo sapiens, o ser humano possui sua individualidade e nasceu para ser e pensar livremente. Justamente neste estado de liberdade

é que ele consegue se tornar um ser social, convivendo e contribuindo com sua maneira de ser e de pensar para o crescimento dos seus semelhantes.

Com certeza, se todos pensassem e agissem da mesma forma, o mundo seria um terrível tédio. Assim, ser realmente humano

é saber julgar com independência a si próprio e o mundo.

Sem dúvida alguma, a famosa frase de Jesus Cristo "Não julgueis para não serdes julgado" faz referência ao julgar no sentido de dar veredicto, de sentenciar ou condenar. Mas o julgar não possui somente este significado.

O ato de julgar deve ser entendido também no sentido de formar uma opinião sobre algo, avaliar e criar um juízo crítico sobre as diversas situações da vida. Julgar aqui é aprender a pensar por si próprio, sabendo analisar criticamente o momento histórico em que vivemos.

Neste sentido, podemos afirmar que

devemos julgar para não sermos mais tarde julgados.

Para que o ser humano tenha condições de pensar e julgar sobre as diversas situações da vida são necessárias três posturas essenciais. Primeiro é preciso manter-se bem informado. Informação é poder. Quem não procura conhecer e compreender o que acontece ao seu redor corre um grande risco de ser manipulado.

Não tendo informações sobre o que acontece, acabamos assumindo as opiniões de outros sem saber se estas realmente são corretas. Se os diversos meios de comunicação, livros, jornais e o diálogo em família e entre os amigos não fazem parte do nosso cotidiano, é muito difícil permanecermos pessoas independentes e livres.

Não é simplesmente obra do acaso que em nosso país investiu-se, e continua investindo-se, tão pouco em educação. Afinal de contas, um povo com pouca (in-) formação

é muito fácil de se tornar marionete.

A segunda postura para poder julgar livremente é ter "senso crítico", o que significa não deixar-se cair no "senso comum", procurando sempre

aproximar-se do "bom senso".

Aqui a palavra- chave é questionamento, o que significa libertar-se de uma das doenças mais graves da pós-modernidade, a preguiça mental, e começar a utilizar o incômodo

"por que?".

Muitas vezes aceitamos passivamente as informações transmitidas pelos meios de comunicação, damos o nome de "destino" ao nosso momento atual e nos esquecemos que se São Tomé não tivesse duvidado, o Cristo não teria aparecido pela segundo vez.

Por fim, a terceira postura é procurar ter critérios de julgamento. Aqui o essencial é ter a felicidade humana como o critério básico. Diante de qualquer situação da vida, é fundamental saber o que promove mais "vida", para nós, para as pessoas que convivem conosco e para o nosso meio ambiente.

Se procuramos ter estas três posturas e nos posicionamos diante dos fatos e acontecimentos da nossa vida como seres pensantes, haverá pouca possibilidade de nossa mente se tornar um túnel oco e aberto para a manipulação alheia.

Afinal, "aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas, nada sabe a respeito das uvas"

(Paracelso).