Para Roque, PT decresceu nesta eleição
Texto: Josefa Cunha
O petista Roque Ferreira, que concorreu ao cargo de vereador e por pouco não alcançou o intento - teriam faltado menos de 30 votos - acha que o PT saiu derrotado nesta eleição. A avaliação refere-se tanto à questão quantitativa quanto aos métodos utilizados na campanha majoritária, que teve Estela Almagro concorrendo à Prefeitura.
Embora nunca tenha tido o discurso afinado com o grupo de Estela
- hoje majoritário no partido -, Roque preferiu deixar as divergências pessoais de lado para fazer uma análise dos resultados mostrados nas urnas, os quais, ao seu ver, foram relativamente pequenos se comparados a perfórmances anteriores. Quando foi candidato a prefeito em 1996, ele teria obtido pouco mais de 10% dos votos, enquanto Estela não chegou aos 6%, já considerando aí a proporcionalidade relativa ao crescimento do colégio eleitoral.
Não que esses percentuais revelem qual deles foi o melhor candidato, mas seriam o indicativo da adoção de tática e estratégia erradas na condução da campanha majoritária. "Não conseguimos fazer a diferença entre nossas propostas e as propostas que se colocavam em disputa no município. A campanha foi centrada exclusivamente no horário eleitoral da TV, mostrando programas extremamente lights e desvinculados na realidade local. Nós reproduzimos, de maneira linear, o discurso nacional do PT sobre orçamento participativo, banco do povo, bolsa-escola, enfim, sobre políticas sociais compensatórias. Falhamos ao não dialogar com a população sobre os problemas reais enfrentados. Como, por exemplo, enfrentaríamos o problema do transporte urbano e a questão do meio ambiente, notadamente o tratamento do esgoto? Na verdade, ficamos distantes da maioria do povo trabalhador", avaliou.
As urnas também teriam indicado a ocorrência de um fenômeno interessante, que foi a votação majoritária muito aquém do total de votos obtidos pelos proporcionais. Para Ferreira, não há como negar o fato de Estela não ter alavancado os candidatos proporcionais e nem ter se alavancado por eles. "Votaram nos candidatos a vereador, mas não votaram na candidata. Isso demonstra a péssima condução da campanha, que, além de muito fechada, desprezou a experiência acumulada de militantes do partido. Foi uma campanha personalizada", disparou.
Quando fala de personalização, Ferreira quer dizer do aparente privilégio direcionado a José Carlos Batata, reeleito para a terceira legislatura. "Não quero desmerecer a conquista do parlamentar, até porque muitos dos votos que ele recebeu vieram do projeto anti-corrupção e pela ética política desenvolvido pelo partido. Só acho que não houve interesse do comando municipal de ampliar nossa bancada na Câmara, na medida em que a máquina partidária foi colocada única e exclusivamente a serviço de um único candidato, no caso o Batata. As direções estadual e nacional também erraram ao permitir que um de seus membros (leia-se José Genoíno) viesse a Bauru pedir voto para ele", reclamou.
Na opinião de Ferreira, a votação obtida pelo PT na eleição proporcional teria condições de eleger três candidatos. O problema, na opinião dele, foi que a cúpula municipal não levou em conta a densidade eleitoral dos nomes que tinha em mãos e nem deu espaço para os que tinham chances de chegar lá.
"Faltou a adoção de um projeto coletivo e consciente de que o mandato político não é propriedade pessoal. A conquista de cadeiras decorre do esforço coletivo e isso, incontestavelmente, não ocorreu. Eu defendo o voto de legenda, mas os métodos utilizados pelo PT e pelos outros desmoralizam a importância do partido. A partir do momento em que cristaliza pequenos, médios ou grandes caciques, o partido torna-se uma máquina vaporosa em favor do individual", acredita.
Derrotas à parte, Ferreira defende para o futuro imediato uma ampla reformulação no partido, tanto do ponto de vista orgânico quanto político, sugerindo às atuais lideranças do comando "calma e humildade" necessárias para reconhecer os erros que impediram o crescimento nessas eleições.
Continuidade
Mesmo fora da Câmara, Roque Ferreira tem a intenção de fazer valer os quase dois mil votos que recebeu nas urnas, frutos, segundo ele, "de uma campanha que não pintou muros e nem estendeu faixas, mas que aglutinou pessoas para a defesa de suas idéias na rua". "Penetramos em vários extratos sociais e isso, indiscutivelmente, demonstra que o estereótipo de radical que me foi impingido caiu por terra", desvencilhou.
O grupo e a estrutura organizada para a campanha de Ferreira serão redimensionados e mantidos para atender à demanda dos que
"sentem necessidade da política". "Queremos mostrar à população que é possível fazer política sem necessariamente ter mandato. Vamos trabalhar e criar condições para contribuir com os movimentos populares, sindicais e sociais da cidade", adiantou.
O primeiro passo do candidato "oficioso" será preparar a comunidade para uma conferência que será realizada no final do ano com o propósito de discutir a desregulamentação dos direitos dos trabalhadores. O mesmo será feito para o Encontro Internacional da Juventude. Outro assunto que será colocado em pauta pelo comitê permanente será a convenção 103 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que abriu espaço para a revisão dos direitos da maternidade. "As mulheres ainda nem estão sabendo disso, mas a Constituição, inclusive no que dispõe sobre a licença maternidade, pode sofrer alterações", ressaltou.
Nilson Costa
Embora tenha divergências ideológicas e na apreciação política com Nilson Costa (PPS), Roque Ferreira acha que a reeleição do prefeito demonstrou a sabedoria da população. "A comunidade está cansada de guerras entre grupos que têm, no fundo, o mesmo interesse, e soube enxergar o que estava por trás de cada candidatura. Não que o Nilson esteja isento de compromissos, mas nesta eleição prevaleceu o dito popular: antes o certo do que o duvidoso. Obviamente, vamos ter que continuar acompanhando e fiscalizando a administração dele e, principalmente, cobrando alguns esclarecimentos. A cidade precisa saber, por exemplo, quais foram as concessões da Prefeitura para essa federalização."