"Voto-legenda" ajudou sobras na Câmara
Texto: Nélson Gonçalves
Muitos eleitores votaram primeiro para prefeito, quando seria para vereador. O "voto de legenda" beneficiou alguns candidatos
A eleição municipal mais disputada dos últimos anos em Bauru transformou a disputa pelo voto em uma verdadeira batalha para muitos candidatos. No caso da busca por uma das 21 cadeiras da Câmara Municipal, os votos de legenda foram comemorados um a um por aqueles que dependiam da sobra para garantir uma vaga. E foi o que aconteceu na eleição do último domingo. Muitos fiscais de partidos reclamaram da ocorrência do "voto na legenda" por engano. A situação acabou ajudando diretamente pelo menos três candidatos que ocuparam uma cadeira na Câmara Municipal.
Durante o domingo e os primeiros dias da semana, o JC foi procurado por fiscais de diferentes partidos. A reclamação mais comum foi s ocorrência de engano na hora de votar para vereador. Centenas de eleitores digitaram primeiro os dois números do candidato a prefeito na urna eletrônica, quando deveriam digitar cinco números para escolher um candidato a vereador. Muitos só perceberam, posteriormente, que o primeiro voto tinha, na verdade, sido dado para a legenda. Em seguida, o eleitor votou para prefeito e confirmou - vendo a foto do candidato majoritário. Este testemunho foi dado por fiscais de diferentes partidos já durante o domingo. Alguns eleitores contatados próximos dos locais de votação também testemunharam essa "confusão".
Com os números oficiais em mãos, divulgados pela Justiça Eleitoral, foi possível perceber a influência do "voto de legenda" sobre os resultados, sobretudo das sobras. O engano na votação para vereador acabou beneficiando diretamente os candidatos à eleição majoritária que tinham o mesmo número inicial dos candidatos a prefeito. O "voto de legenda", neste caso, não foi consciente, comentaram fiscais de vários partidos, mas acabou acontecendo porque muitos eleitores não sabiam que o voto para prefeito era depois da escolha do vereador. Os números do voto-legenda confirmam esse protesto: 20.531.
Não dá para estimar quantos votos ocorreram por engano, mas é presumível a amplitude do engano levando-se em conta a média de votos em legendas dos últimos pleitos, muito abaixo do ocorrido nesta eleição. O dado mais importante do "engano" talvez seja que houve um aumento dos "votos de legenda" muito elevado para os números que coincidiam com os candidatos majoritários. Assim, os enganos apareceram com larga margem para o PPS (23), PDT (12) e 40 (PSB), exatamente os números dos candidatos mais votados na eleição majoritária.
Alguns fiscais de partidos comentaram que foi solicitado a funcionários da Justiça Eleitoral que informassem o eleitor sobre a forma correta de votar, ou seja, primeiro escolhendo o vereador e depois o prefeito. Muitas escolas chegaram a massificar essa informação. Assim, os dados demonstram que quem inverteu acabou votando na legenda dos candidatos à vereança da coligação, pensando que estava escolhendo primeiro um dos candidatos a prefeito, sobretudo Nilson Costa (23), Tuga Angerami (40) e Pedro Tobias (12).
Coeficiente e sobras
O resultado final do TRE Regional de São Paulo aponta que o número 23 obteve 5.352 votos, contra 4.883 do número 12 e 4.218 votos do número 40. A situação beneficiou diretamente aqueles que entraram na média da sobra e ostentavam o mesmo número do candidato majoritário nas iniciais. Foi o caso de José Clemente Rezende (PPS). O partido do prefeito conseguiu eleger dois vereadores com um número muito próximo do coeficiente. Com os 5.352 votos na legenda, por outro lado, o PPS obteve mais uma vaga, na sobra. Como o coeficiente eleitoral foi de 7.516 votos, o PPS levou para a Câmara, além de Milton Dota Júnior e Walter Costa, os dois primeiros colocados, também José Clemente Rezende.
Situação parecida ocorreu com a bancada eleita do PDT, que levou seis vereadores para a Câmara. O partido obteve votos nominais o suficiente para preencher quatro cadeiras no Legislativo, de acordo com o coeficiente. Aí começou uma matemática que é desconhecida de muitos: das sobras. O PDT conseguiu mais 4.883 votos no número 12, de Tobias. Esses números foram decisivos para a última cadeira, preenchida por João Parreira. Com isso, foram duas vagas conquistadas na sobra para a aliança que obteve a maix expressiva votação. A eleição proporcional teve 15 cadeiras preenchidas dentro do coeficiente eleitoral. As seis vagas restantes foram distribuidas na média da sobra de votos. As melhores médias garantiram uma cadeira a mais. Foram os casos do PDT (Parreira), PPB (Leandro Martins) e o PPS (Clemente), entre outros.
A matemática da sobra é uma verdadeira equação matemática. Veja que a "legenda" 40 teve 4.218 votos, mas somente Majô conseguiu alcançar uma cadeira. A média da sobra ficou abaixo dos demais que disputavam as últimas vagas restantes. No PT, algo parecido quase elegeu Roque Ferreira. Já o PTB, por exemplo, não conseguiu chegar nem perto da sobra. A matemática privilegia os partidos ou alianças que obtiveram mais votos no conjunto. Isso permitiu, por exemplo, que Leandro Martins (PPB) ficasse com uma vaga com 1.020 votos, enquanto que Paulo Agustinho (PTB) ficou de fora da Câmara mesmo tendo recebido mais de 2000 votos. Nesta comparação, o PPB recebeu, no conjunto dos candidatos, muito mais votos que o PTB. Ou seja, a chapa de candidatos proporcionais do PPB foi mais consistente.
O fenômeno do "voto-legenda" já tinha sido indicado na eleição passado, quando foram eleitos deputados federais e estaduais. O presidente do PDT, Marcelo Borges, lembrou, ontem, que uma candidata a deputada federal chamada Judith teve cerca de 1.200 votos em Bauru e nunca passou por aqui ou seu nome foi divulgado. Isso aconteceu por outro engano do eleitor em relação à urna eletrônica. Muitos eleitores votaram primeiro para deputado estadual, quando deveria ser federal. Ou seja, surgiram votos de quatro dígitos com o número 1211, o mesmo de Judith, coincidentemente na época. Depois, o eleitor digitou os cinco números de Tobias (12110).