Wagner Costa: escritor faz sucesso brincando com a realidade
Texto: Rose Araujo
Imagine um local com dezenas de crianças de sete a 10 anos. Agora, imagine chegar nesse local, prender a atenção de todas elas, falar que Xuxa e Tiazinha são produtos comerciais e não uma "amiguinha" como todos eles pensam e não ser vaiado. Pois o escritor Wagner Costa consegue essa proeza. Autor de mais de 20 livros infanto-juvenis, ele viaja o Brasil fazendo palestras para a garotada e estimulando a leitura
- não só dos seus livros, mas de uma maneira geral.
Na semana passada, ele esteve em Bauru à convite do Colégio Seta e ministrou duas palestras. Na verdade, "palestra"
é um termo pesado para esses encontros com a garotada. Costa fez foi uma grande festa.
Seus livros têm metáforas muito fortes. Como é jornalista e teve uma atuação íntima com a realidade brasileira, ele leva para suas publicações temas atuais e passíveis de muita discussão em casa. Um dos títulos - "Quando meu pai perdeu o emprego", escrito em 1995, é um retrato do Brasil dos últimos anos da década de noventa, quando muitas família, inclusive as de classe média e média-alta, viram ruir sua estabilidade financeira. "Isso não acontece só com as crianças cujas famílias são de baixa renda. Na classe média, o efeito é ainda pior pois, devido às dificuldades financeiras, a criança se vê obrigada a mudar seus hábitos", disse.
Com ilustrações de Roko, o livro conta a história de Pepê, Beto, Ju e Carol, quatro irmãos acostumados a morar em casa com piscina, freqüentar colégios caros e clubes elegantes. "A história tem um menino chatinho que não se conforma com a nova realidade da família e critica duramente o pai pela perda do emprego. É através desse personagem que se gera toda a discussão. Tento mostrar para os leitores que a solidariedade tem que nascer dentro de casa, um tem que ajudar o outro para a família se recuperar", disse.
As histórias são leves, com linguagem fácil e temas relevantes. Outro exemplo das publicações de Costa é "Das Dores & Já Passou".
"Os adultos têm a mania de falar para criança que tomar injeção e ir ao dentista não dói.
É mentira: é lógico que dói. O livro tem a função de mostrar que toda a dor, inclusive a de amor, machuca, mas passa", explicou.
A tese é contada através de dois personagens: os irmãos Das Dores (a vilã) e Já Passou (representando o bem). Quando um ataca, o outro vem em seguida para aliviar o problema.
Costa explicou que a idéia de levar para o mundo infanto-juvenil a realidade nasceu do jornalismo. "Todo jornalista é um contador de histórias. Eu me especializei em contá-las para crianças".
Ele trabalhou por cerca de vinte anos nos maiores jornais do País. Enfrentou a ditadura, foi preso e torturado, como muitos outros colegas de profissão, e participou dos mais diversos acontecimentos da história do Brasil - mais precisamente, da cidade de São Paulo.
Para o escritor, 60% das crianças dessa geração são "videotas" - termo citado por ele para definir aqueles que se deixam influenciar em demasiado pela TV, games e computadores. "Os 40% restantes são muito lúcidos e indignados, conseguem ter uma visão crítica do que acontece ao seu redor. Isso nos dá esperança", disse.
Nos encontros com a garotada, Costa procura armar uma grande festa. Conversa de maneira divertida e espontânea, respondendo a todas as questões e levando sua mensagem através de brincadeiras. "Quero passar para as crianças que o bom é celebrar o 'ser' e não o 'ter'. Essa geração
é muito consumista", disse.