08 de julho de 2026
Geral

Expressão Abstrata

José dos Santos Laranjeira
| Tempo de leitura: 3 min

Emiliano: o domínio da expressão abstrata

Texto: José Dos Santos Laranjeira / Especial para o JC Cultura *

O escultor José Dos Santos Laranjeira escreve sobre a exposição do artista plástico Emiliano, que fica somente até amanhã, na galeria do Centro Cultural

No seu "Tratado sobre a Pintura", Leonardo da Vinci, por volta de 1500, dizia que: "Uma nova maneira de olhar consiste em observar uma determinada parede coberta de manchas diferentes. Se tens que inventar uma situação, podes ver nessa parede coisas parecidas com paisagens diversas. As coisas confusas e indefinidas despertam o espírito para novas invenções."

Esse tipo de observação, que convida à fantasia,

à imaginação, pode ser aplicada perfeitamente

à recente produção pictórica que apresenta o artista plástico Emiliano, na exposição que inaugurou dia 29 de setembro e permanecerá até o próximo sábado, na Galeria "Angelina Waldemarin Messemberg", no Centro Cultural de Bauru.

Nessa oportunidade, Emiliano traz, além das 26 pinturas, uma série de outros trabalhos de natureza tridimensional que, pela distribuição no espaço da galeria, propõem explorar a noção de instalação. Em quase a totalidade das pinturas ele incita o espectador a penetrar num universo abstrato com características cromáticas e de composição que o aproxima das poéticas lírico-expressionistas.

Um universo de formas e cores em que os profundos devaneios do artista superam o caos, organizando-se em formas que geram qualidades e redefinem mais uma vez a pintura abstrata como uma expressão

única e subjetiva, que reverencia a percepção e a sensação visual ante tudo e todos, inclusive em nosso caso, em detrimento de outros estímulos mais lógicos e construtivos como a razão.

A subjetividade do artista, sua capacidade única de lidar com certas qualidades plásticas, revelam-se claramente nessa tradução, em que, além de constituir-se num padrão constante na obra ora apresentada, Emiliano revela, mais uma vez, sua peculiar sensibilidade estética para lidar com a bidimensionalidade.

Uma sensibilidade apurada, por momentos sutil e delicada, ainda que acéptica semanticamente ao ponto de carecer de significações ou simbolismos precisos.

Com exceção de alguns trabalhos de natureza tridimensional, em que Emiliano distribui suas microinstalações e os microtótens entalhados em madeira policromada, que aludem, em parte, a formas simbólicas, ele renuncia ao conteúdo simbólico.

Curiosamente, essa que foi, a meu ver, uma das características mais fortes em sua produção artística nos anos 80 e 90, foi protelada. A carga simbólica e significativa com que Emiliano questionava algumas situações bem concretas - que incluíam até posicionamentos sociais definidos -, parecem ter se diluído no "dripping" abstrato.

O procedimento de sua pintura está vinculado aos modos da "action painting", pois evidencia uma forte influência da ação casual e aleatória ao tempo que revela nas entrelinhas a intenção e o controle na qualidade estética.

A aparente ausência de um projeto em que a repartição do espaço e as relações entre os elementos são equacionados previamente, deixa entrever o curso natural e inconsciente do fazer expontâneo e isso gera uma obra aberta, em que o espectador tem a possibilidade de reconhecer, completar ou até criar formas figurativas nesse espaço ilusório.

Contudo, a aparente falta de um conteúdo simbólico preciso e específico previamente determinado possui por sinal uma função interessante, uma estratégia própria e intrínseca em toda arte abstrata, que remete o observador a desenvolver os seus sentidos, despertando-os para as sensações estéticas mais plenas e estritamente pictóricas.

Sem dúvidas, uma boa oportunidade para todos aqueles que apreciam as Belas Artes em nossa cidade, afinal, Emiliano é um artista destacado da nossa geração 80.

Serviço

Exposição de Emiliano, até amanhã, na galeria do Centro Cultural. Grátis. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1072.

(*) José Dos Santos Laranjeira é escultor e professor do Departamento de Artes da Faac - Unesp, mestre pelo Instituto de Artes da Unicamp e doutorando pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona.