07 de julho de 2026
Geral

Embalagens comestíveis

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Mandioca virou pão e embalagem

O Cerat da Unesp de Botucatu desenvolve a produção de embalagens comestíveis e biodegradáveis

Os brasileiros já podem contar com uma embalagem totalmente biodegradável. Pesquisadores do Centro de Raízes e Amidos Tropicais (Cerat) da Unesp, câmpus de Botucatu, desenvolveram uma bioembalagem, feita com o amido ou o farelo de mandioca, que surge para substituir as confeccionadas a partir de derivados do petróleo, como a de isopor (polistireno expandido), ou de madeira, casos das derivadas de papel ou papelão.

Ideal para produtos secos - ovos, frutas, legumes, sementes -, resiste até dez dias em geladeira, sem perder a característica original.

Após ser descartada, leva apenas dez dias para ser degradada, dependendo do ambiente do lixo. "É a nossa contribuição social para ajudar a despoluir o meio ambiente e também para valorizar a mandioca, um produto típico da América Latina e que faz parte da nossacultura", comenta a pesquisadora Marney Pascoli Cereda, que é diretora do Cerat.

A embalagem feita do amido da mandioca é rígida e apresenta aspecto semelhante à bandeja de isopor, usada habitualmente para embalar hortifrutigranjeiros. Já a embalagem resultante do farelo, tem a aparência das de papelão.

O processo de confecção é bastante simples. Após a ralação da raiz de mandioca, com o auxílio de uma peneira giratória, se dá o processo de separação do amido ou fécula do farelo. O produto que restar após a última peneirada

é o farelo. Tanto o amido quanto o farelo são termoprensados e, ainda quentes, são

removidos da máquina. Está pronta a embalagem. O uso de corantes naturais, como açafrão, é opcional e serve para dar ao produto aspecto mais atraente.

No Cerat/Unesp, a produção da bioembalagem ocorre em escala piloto na quantidade de 30 peças por hora/ferramenta.

Em função disso, o custo estimado ainda está cerca de 30% acima do custo de produção de embalgens de isopor, embora a bioembalagem tenha condição de competir com preços menores.

"Por enquanto, estamos buscando para o novo produto nichos de mercado onde ele seja valorizado", explica Marney. "Nossos principais interessados são os produtores de alimentos naturais, sem agrotóxico". Segundo a professora Marney Cereda, a bioembalagem pode ser moldada em diversas formas, de acordo com a necessidade do produto a ser embalado. Para isso, basta adaptar o maquinário.

Valor do produto

Diferentemente do polistireno, que exige em seu processo o Clorofluorcarboneto

(CFC) prejudicial à camada de ozônio que nos protege dos raios ultravioletas do sol, a utilização da mandioca para produção de bioembalagens só traz benefícios.

A mandioca é uma fonte natural renovável. O surgimento de mais um mercado consumidor acionará uma cadeia produtiva no agronegócio, que contribuirá para a manutenção do agricultor no campo. Substituir embalagens de papelão

é outro tento a seu favor. "Normalmente as embalagens de papelão para ovos são confeccionadas a partir de papel reciclado, de várias origens, nem sempre tão higiênicos", explica Marney Cereda.

A mandioca utilizada para a confecção de bioembalagens

é a do tipo industrial, melhorada para produzir mais amido. Já para a mandioca de mesa, a exigência básica

é que seja macia e saborosa. De acordo com a assessoria de imprensa da Unesp, a linha de pesquisa do Cerat/Unesp sobre embalagens biodegradáveis e comestíveis foi possível graças a um projeto apoiado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com a verba do Banco Mundial.

Pão de mandioca

O pão é responsável por 30% da dieta do brasileiro, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria. Um de seus componentes, a proteína chamada glúten, porém, não pode ser consumido por cerca de 0,03% da população*.

O glúten, contido na farinha de trigo, no centeio, na cevada e na aveia, dá consistência às massas, mas também é responsável pela "enteropatia glúten sensível" ou doença celíaca. Por isso, as pessoas suscetíveis devem procurar no mercado produtos que comprovadamente não contenham glúten.

Como alternativa, o nutricionista Luiz Fernando Escouto, pós-graduando da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, desenvolveu a tecnologia para a fabricação de um pão

à base de farinha de mandioca e de polvilho azedo, livre daquela proteína.

O trabalho de mestrado de Escouto segundo a assessoria de imprensa da Unesp, tem orientação da pesquisadora Marney Pascoli Cereda, do Centro de Raízes e Amidos Tropicais

(Cerat), da Unesp.

"Trata-se de uma tecnologia que, além de contribuir com a dieta dos portadores da doença celíaca, também ajuda a ampliar o consumo da mandioca no País", comenta Marney.

Na formulação desse pão, que contém também fermento biológico, clara de ovo desidratada, leite em pó, sal e açúcar, a mandioca funciona como fonte de fibra e o polvilho, de amido.

O resultado é um pão de massa mais

consistente e de sabor agradável. Testes revelaram que este pão conserva suas características originais por até seis horas.

"Nossa meta é realizar novas pesquisas para aumentar a durabilidade do pão de mandioca e torná-lo um produto competitivo no mercado", conta Escouto. "Mas só o desenvolvimento dessa tecnologia já representa uma grande descoberta para os portadores da doença celíaca", argumenta a professora Marney Cereda.

O pão de mandioca passou no teste sensorial realizado em supermercados de Botucatu, com a aprovação de 80% da população que participou da degustação pública.

Doença Celíaca

Os sintomas dessa doença são diarréia, desidratação, emagrecimento e retardo no crescimento. Em algumas pessoas, podem ocorrer vômito, anemia, irritabilidade e falta de apetite.

A causa é uma intolerância ao glúten, cuja proteína alfagliadina agride as microvilosidades, espécies de ondas presentes no intestino grosso, responsáveis pelo transporte de nutrientes.

No portador da doença celíaca, as microvilosidades não existem e o alimento que chega ao intestino não

é absorvido.

*Estatística da Associação dos Celíacos do Brasil, seção São Paulo.