07 de julho de 2026
Geral

Dekasséguis

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Volta de dekasséguis abre lacuna na indústria japonesa

Texto: Rose Araujo

A estimativa é de que 30% dos brasileiros que estão trabalhando no Japão saiam de férias no final do ano

Entre os meses de dezembro e fevereiro, a indústria japonesa entra num período de escassez de mão-de-obra. Cerca de 30% dos dekasséguis que lá se encontram voltam para o Brasil para passar férias. Esta é a oportunidade para quem deseja passar uma temporada no Japão, fazendo estágio e conquistando uma renda extra.

As informações são do advogado Massami Yanagui, responsável pelo intercâmbio de trabalhadores para o Japão.

De acordo com ele, grande parte dos dekasséguis aproveita o final do ano para tirar férias e passar as festas com a família no Brasil. Com isso, as empresas ficam com grandes lacunas no seu quadro de funcionários. "Para quem quer aproveitar a ocasião, conhecer o Japão e juntar um dinheiro extra, é uma boa", salientou.

A Suzuki, por exemplo, fabricante de caminhões, carros e motos, está com cerca de 60 vagas abertas para emprego temporário, destinadas a pessoas na faixa etária de 16 a 35 anos. Os estudantes de Engenharia, além do salário, ganham um diploma no final do estágio, que serve como currículo no Brasil.

O salário é de cerca de US$ 2,5 mil a US$ 3 mil por mês. Desse valor, são descontados alojamento e refeições e o restante fica livre nas mãos do trabalhador. "Se a pessoa souber economizar, pode voltar com um bom rendimento para o Brasil", disse. Ele contou a história de dois irmãos que eram estudantes em São Paulo e não tinham carro. Eles decidiram fazer esse estágio remunerado de três meses no Japão e, quando voltaram, cada um pôde adquirir um automóvel para ir à faculdade. "Não dá para montar um grande patrimônio mas, se a pessoa souber economizar, vai conseguir comprar alguns bens", reforçou.

No caso dessas vagas para a Suzuki, os estagiários ficarão alojados numa espécie de flat, com um pouco mais de conforto que um alojamento comum, de acordo com Yanagui.

Força de vontade

A gerente de vendas Tânia Mara Cardoso está se preparando para embarcar pela segunda vez para o Japão a trabalho. Ela já morou por dois anos e meio na terra do sol nascente e gostou da experiência. Ainda este mês, ela volta a trabalhar na mesma empresa que a empregou pela primeira vez.

De acordo com ela, a vida em terras japonesas não é nenhum "mar-de-rosas". "Quem vai para lá a trabalho geralmente pensa em construir um bom patrimônio no Brasil. E, para isso, é preciso ter força de vontade", disse.

Isso porque as tentações são muitas. Tânia lembrou que, por tratar-se de um País de primeiro mundo, o Japão oferece uma infinidade de atrativos, como equipamentos eletrônicos, por exemplo. Quem é consumista por natureza, passa por muitas vontades lá. "Não dá para pegar o salário e sair gastando com tudo o que vê. Tem que usar somente o necessário para viver e o resto, guardar", salientou.

O trabalho nas empresas japonesas tem fama de ser muito pesado. Tânia destacou que isso não ocorre em todos os lugares.

"Na maioria das vezes, o que cansa mesmo é a jornada de trabalho, que é, em média, de 12 horas por dia. Mas, o trabalho pode não ser tão puxado assim", disse.

Grande parte dos dekasséguis trabalha em linha de montagem, um trabalho que exige paciência e concentração.

O advogado Massami Yanagui, destacou que as mulheres costumam receber remunerações menores que a dos homens e o tipo de trabalho desenvolvido também leva em consideração o tipo físico e a delicadeza feminina. "Numa esteira, por exemplo, você nunca vai encontrar homens trabalhando. Eles não conseguem ficar por cerca de 12 horas realizando um trabalho que exige muita paciência. Nesse caso, são empregadas mulheres", disse.

Tânia contou que o Consulado japonês aumentou as exigências para os embarques de dekasséguis. Agora, é preciso ter mais de seis meses de casado para embarcar para o Japão a trabalho. Devido a isso, ela e o futuro marido (eles se casarão um dia antes dela embarcar) terão que permanecer por meio ano longes um do outro. "Tem que cumprir o tempo exigido pelo consulado. Depois, ele vai encontrar comigo lá", disse a sansei.

Quando retornou do Japão, depois de ter passado dois anos e meio lá, ela conseguiu um patrimônio considerável. Comprou apartamento, carro, barco, equipamentos eletrônicos e ainda ficou com um fundo para sobreviver. "Compensa a distância do Brasil. Se você tiver disposição e força de vontade, consegue atingir o objetivo", disse.