08 de julho de 2026
Geral

Aposentadoria

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Pais-de-santo já podem requerer aposentadoria junto ao INSS

Texto: Rose Araujo

Ministério da Previdência reconhece os "zeladores" dos terreiros de umbanda e candomblé como contribuintes

Os pais e mães-de-santo ganharam, no mês passado, o direito de requerer junto ao Instituto Nacional de Previdência Social (INSS) a aposentadoria. A decisão foi comemorada nos templos de umbanda e candomblé de Bauru, que acreditam ser mais um passo para tirar a imagem negativa que a religião ainda carrega.

De acordo com o presidente da Federação Espírita de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo "Reino de Oxalá", Rubens Amaro, o "Rubinho de Xangô", a decisão foi muito bem recebida nos templos de Bauru.

"É mais uma forma de reconhecimento ao nosso trabalho. Tanto a umbanda, quando o candomblé, exigem dedicação quase que integral por parte dos dirigentes do templo", disse.

Com isso, os pais e mães-de-santo igualam-se a padres e pastores evangélicos junto ao Ministério da Previdência. De acordo com a gerente-executiva do INSS de Bauru, Maria Lúcia Pfifer, o tempo de serviço para a aposentadoria como líder da religião espírita não é retroativo, ou seja, mesmo quem já está trabalhando há anos na área só poderá dar início

à contagem do tempo para aposentadoria a partir de agora.

As regras são as mesmas das que têm que ser cumpridas pelos demais trabalhadores. Os pais-de-santo se inscrevem como autônomos e contribuem com a Previdência por 30 anos

(mulheres) ou 35 anos (homens), para então requerer a aposentadoria.

Bauru tem aproximadamente 500 templos de umbanda e candomblé, de acordo com levantamento da Federação. Rubinho de Xangô destacou que o preconceito que ainda afeta a religião impede que muitos deles se apresentem à sociedade. "Tem muito templo que é feito no fundo do quintal, sem letreiro ou outro tipo de divulgação, pois os pais-de-santo têm medo de enfrentar opiniões contrárias ao centro", disse.

Os pais e mães-de-santo vivem praticamente do trabalho realizado em seu templo. Muitos deles dedicam tempo integral ao atendimento ao público e não tem outro tipo de renda financeira. Embora Rubinho de Xangô negue, para manter o centro muitos líderes religiosos cobram mensalidades dos freqüentadores e também recebem pelos trabalhos espíritas realizados, como curas e despachos. "Nada impede que os pais-de-santo exerçam uma profissão no mercado de trabalho. O tempo pode ser dividido entre as duas atividades", salientou.

O pai-de-santo Estéfano Henrique Ribeiro de Oxum-Maré, líder do Templo Espírita de Umbanda "Caboclo Ubirajara Flecheiro", discorda. Ele diz que dedica 24 horas por dia ao atendimento a seus "filhos" (freqüentadores da casa). "Desde a hora que eu levanto, até a hora que vou dormir, estou trabalhando em prol do centro", disse.

Os cultos, chamados de trabalhos, são realizados três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras. Muitas vezes, os atendimentos realizados nesses dias ultrapassam a madrugada. "Não tenho hora para atender. Sempre que precisam de mim, estou a postos", disse.

Sábados, domingos e feriados, dias em que grande parte dos trabalhadores assalariados usam para descansar, não são levados em consideração pelos pais-de-santo. Eles não deixam de atender e nem de realizar despachos nesses dias. Quinta-feira, dia 12, por exemplo, feriado nacional, os centros de umbanda se reuniram logo pela manhã na Cachoeira do Santelmo (próximo à cidade de Pederneiras) para prestar homenagens à Nossa Senhora Aparecida, conhecida entre eles como a entidade Oxum.

O templo de Estéfano foi construído nos fundos de sua residência, o que permite uma integração completa com a religião. O pai-de-santo explica que seu trabalho não se restringe aos atendimentos espíritas. Ele destacou que dedica parte de seu tempo à realização de caridades, como doação de cestas-básicas, móveis, roupas e utensílios domésticos para pessoas carentes. "O que eu arrecado com os freqüentadores do centro, mando tudo para quem precisa", disse.

Seu templo tem cerca de 30 filhos-de-santo, que são os devotos que comparecem em todas as sessões.

Estéfano de Oxum-Maré não sabia que a condição de pai-de-santo lhe permitia a requisição de aposentadoria junto ao INSS. Informado pela reportagem do JC sobre esse novo direito, ele comemorou, dizendo que agora a religião está começando a se livrar dos preconceitos. "As pessoas precisam se desfazer da idéia de que nós fazemos macumba, ou seja, que fazemos o 'mal'. Estamos aqui para servir as pessoas, ajudando-as a encontrar o caminho do bem", disse.