Vamos trovar?
Texto: Roberta Mathias
Dia 4 de outubro é o Dia da Trova. Mas o que é trova? Você pode nem perceber, mas já conhece algumas trovas sem saber. Uma das mais conhecidas é:
Batatinha quando nasce (1.º verso)
esparrama pelo chão (2.º verso)
a menina quando dorme (3.º verso)
põe a mão no coração (4.º verso)
Esta trova popular é um bom exemplo para entender, direitinho, como são feitas as trovas. Quem explica é Ercy Maria Marques de Faria, presidente da Delegacia de Bauru da União Brasileira de Trovadores (UBT). Com jeito de menina marota, Ercy ensina: "Trova é quadrinha popular. Uma poesia resumida em quatro versos."
Para ser uma trova, cada verso deve ter sete sílabas. Nem seis, nem oito... SETE. E o que vale, na hora de contar, é a sílaba tônica até a última palavra do verso. Acompanhe o exemplo:
1 2 3 4 5 6 7
Ba/ta/ti/nha/quan/do/nas/ce
1 2 3 4 5 6 7
es/par/ra/ma/pe/lo/chão
"Você pode observar que o primeiro verso da trova termina com a palavra nasce. A sílaba tônica (aquela que tem o som forte) é nas, por isso, é aí que termina a contagem", explica Ercy. Pode parecer um pouquinho complicado, e é mesmo, mas com atenção não
é tão difícil de compreender. Agora, construir uma trovinha é um desafio, que também vamos sugerir.
No segundo verso, a última palavra é chão
(oxítona tônica), então a contagem termina nesta palavra. Além de ter um cuidado especial com a quantidade de versos e sílabas tônicas, a trova precisa ter rima. Você sabe o que são rimas? "As rimas são palavras que combinam... São palavras que têm terminações parecidas." Por exemplo: escola-bola; bonita-fita; janela-panela; botão-feijão... E assim vai.
Ercy explica que as trovas devem rimar entre o primeiro e o terceiro versos e entre o segundo e o quarto versos. Observe. E para que tudo isso fique gostoso não só de ouvir, mas de entender, é preciso que o trovador seja sensível e conheça as palavras. Por isso, o trovador é um poeta. Um poeta que faz trovas. Todo trovador é poeta, mas nem todo poeta é trovador. Entendeu?
Tente fazer uma trova, mas não desista na primeira dificuldade.
É preciso ter paciência e, se a inspiração não vier por completo, espere um pouquinho, respire fundo e continue. A sua trovinha vai sair.
Em Bauru, a UBT realiza todos os anos a exposição de Trovas no Bosque da Comunidade. Você pode passear e ler muitas trovas interessantes, várias relacionadas ao meio ambiente, um tema gostoso de ouvir, como o amor. Dia das Mães, dos Namorados e outras datas comemorativas também são contempladas com as exposições de trovas na rodoviária, nos ônibus circulares, em diversos pontos de Bauru. O trovador pode escolher temas e escrever sobre eles. Tem trovador, por exemplo, que só gosta de fazer trovas com humor. Outros preferem escrever coisas mais sérias. Cada um tem um estilo. Você pode ter as suas preferências. Mas é preciso começar.
Quando começou?
Interessante saber que a trova é um gênero literário exclusivo da língua portuguesa. Começou há mais de 800 anos, na Espanha e Portugal. A origem vem das quadras portuguesas. No Brasil, um nome importante é o do poeta-trovador Luiz Otávio. Ele era cirurgião dentista carioca e começou estudando os repentes do nordeste. Quando Luiz Otávio conheceu a trova, descobriu o que realmente gostava de fazer. Aí ele fundou a UBT, na década de 60, e divulgou a trova no Brasil. O Dia do Trovador é comemorado em 18 de julho. Escreva a sua trovinha e mande para o JC Criança publicar. Estamos esperando!