Morte de aluno gera revolta na Unesp
Texto: Josefa Cunha
A morte do estudante Flávio Henrique Polaquini, de 21 anos, causada por um aneurisma cerebral, revoltou alunos e professores da Unesp-Bauru, onde o rapaz cursava o 3.º ano de Jornalismo. Colegas de classe e professores que o acompanharam desde sua chegada ao Pronto-Socorro Central, no final da tarde da última quinta-feira, estão chocados com o atendimento médico prestado na unidade, que de tão ineficiente foi incapaz de diagnosticar o grave problema do paciente. Polaquini, cuja morte cerebral foi comunicada na sexta-feira, veio a óbito na manhã de ontem. Por conta do descaso presenciado, eles querem agora organizar um movimento na cidade para tentar melhorar as condições daquele que deveria ser referência para os tratamentos emergenciais.
Polaquini passou mal por volta das 17 horas de quinta-feira, em plena sala de aula. Ele teve um desmaio e manteve-se em estado aparente de semi-consciência. Alguns colegas apressaram-se em levá-lo ao PS, mas a urgência não teria sido a mesma por parte dos atendentes da unidade. Segundo depoimento da professora Dalva Aleixo Dias, o estudante não foi examinado, recebendo apenas tratamento com soro. No local, os amigos que o acompanhavam teriam ouvido das enfermeiras que se tratava de um caso de queda de pressão decorrente do calor escaldante. Já deitado, com o soro, numa maca em um dos corredores da unidade, o rapaz começou a vomitar e ter uma crise de convulsão. "O pessoal ficou desesperado e chamou por socorro. A ajuda veio em forma de uma toalha, dada pela enfermeira para limpar o rosto dele", contou.
Preocupados com o tratamento dispensado até então, os colegas entraram em contato com a também professora Maria Helena Gamas, que tentou, por telefone, interceder pelo aluno através de um amigo que trabalha para o Hospital de Base. Naquele momento, não haveria médico disponível que pudesse autorizar a internação de Polaquini no hospital.
A primeira assistência médica propriamente dita só teria ocorrido entre 20h30 e 21 horas, depois que a vereadora Maria José Majô Jandreice (PC do B) ser comunicada do fato. Ela estava na Câmara, coincidentemente em uma reunião do setor da Saúde, quando foi procurada para interceder em favor do paciente. De acordo com Dalva, Polaquini foi atendido por uma médica nefrologista, que cogitou a hipótese de um quadro de meningite, mas não solicitou internação porque tratava-se apenas de uma suspeita.
O verdadeiro diagnóstico só foi feito por volta das 11h30, mais de cinco horas depois que o rapaz deu entrada no PS. Ele foi submetido a uma tomografia computadorizada e, posteriormente, encaminhado à Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Apesar de leigos, todos que estavam com o estudante acreditam que a causa do problema foi detectada quando Polaquini já estava com morte cerebral. "Diagnosticaram o aneurisma, mas não fizeram nada para reverter. Isso nos faz acreditar que já não havia mais tempo para salvá-lo", desconfia a professora. "Não acho que o problema seja do Hospital de Base, mas do atendimento recebido no PS", acrescentou.
Da constatação da morte cerebral, comunicada oficialmente no início da tarde de sexta-feira, até ontem, Polaquini permaneceu em coma profundo. Professores e alunos trocaram a sala de aula pela vigília no hospital e parecem inconformados com o que aconteceu. "Ele era ótimo e ficava melhor a cada dia. O maior sonho dele era fazer sucesso na TV, mas, lamentavelmente, ela só o mostrou nessa situação", comentou Maria Helena, professora que ensina Jornalismo Televisado aos estudantes do curso.
Polaquini era considerado um dos melhores alunos da turma e mostrava força de vontade para ser um profissional de sucesso. De família humilde - seus pais são agricultores em uma pequena propriedade rural entre os municípios de Jales e Fernandópolis -, dividia uma bolsa de pesquisa e não media esforços para terminar os estudos. Recentemente, foi vitorioso num concurso promovido pela Polícia. O prêmio, um computador, teve de ser vendido para custear a dura vida de estudante pobre.
Protesto
Os professores e alunos que acompanharam o triste destino de Flávio Henrique Polaquini tomaram a dianteira de um movimento que pretende mexer na estrutura da rede pública de saúde de Bauru. Tudo o que aconteceu desde a chegada do rapaz ao Pronto-Socorro Central está sendo relatado por escrito para ser encaminhado aos órgãos competentes. "Queremos mostrar o tratamento desumano e vexatório prestado no local e que, com certeza, é extensivo a todas as pessoas humildes que lá chegam. Como não somos médicos, não podemos falar se houve ou não negligência, mas exigiremos que o Conselho Regional de Medicina e Secretaria Municipal de Saúde apurem o caso até o fim. É um absurdo constatar que uma vida vale uma carteirinha de convênio médico", revoltou-se Dalva.
No início da noite de ontem, um ônibus fornecido pela Unesp levou um grupo de alunos até a cidade de Jales para o velório de Polaquini.
Para SMS, morte foi inevitável
Embora admita a fragilidade da estrutura do Pronto-Socorro Central, a secretária municipal da Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, declarou que a morte do estudante de Jornalismo Flávio Henrique Polaquini foi inevitável. "Conforme o neurologista que o atendeu, o caso dele era praticamente impossível de ser revertido, pois houveram dois sangramentos num espaço inferior a seis horas. Em 50% dos casos, o aneurisma cerebral
é fatal. Nos outros 50%, a cura só é possível quando o diagnóstico acontece antes da ruptura vascular", explicou.
De acordo com a titular da SMS, a partir do primeiro derramamento de sangue no cérebro, as chances de tratamento são possíveis se houver tempo hábil para a realização de exames de tomografia computadorizada e angiografia digital, preparação do centro cirúrgico para intervenção e, obviamente, vaga para internação na Unidade de Terapia Intensiva. "Todos esses preparativos consomem cerca de seis horas e, no caso em questão, o segundo sangramento não levou tanto tempo. Mesmo que o aneurisma do Flávio fosse detectado no momento de sua entrada no PS, não haveria tempo para se aprontar os procedimentos necessários. Não querendo justificar o que aconteceu, porque não podemos negar que o diagnóstico preciso não foi feito de imediato, mas a impossibilidade de cura atestada pelo neurologista nos conforta enquanto agentes públicos e mães", disse.
Nunes não aceitou a versão de que Flávio não foi atendido por um médico ao dar entrada no PS. "Ele foi recebido por um médico sim, mas foi colocado em observação. O problema foi não terem identificado o aneurisma de cara, mas, tecnicamente, isso é até aceitável. O aneurisma é uma doença rara e seria difícil para o profissional supor uma situação dessas. Normalmente, os jovens que lá aparecem estão com hipoglicemia ou com quadros mais comuns à idade. O fato, por exemplo, de a enfermeira ter dado uma toalha diante de uma crise convulsiva, se deve à normalidade desse tipo de situação no local", justificou.
A falta de discernimento nos atendimentos no PS, continuou a secretária, seria decorrente do mal uso da unidade pela própria população.
"A maioria que procura o Pronto-Socorro não precisaria estar ali, porque apresenta quadros simples de doenças ou meras indisposições. No final, o que deveria ser um local para atendimentos de urgência e emergência acaba sendo um grande ambulatório. Para se ter uma idéia, há algum tempo, uma enfermeira notou que um senhor que aguardava na fila estava passando mal. Ele lá, quietinho, estava sofrendo um enfarte, mas não falou nada porque tinha gente na frente para ser atendida. Entende como as coisas funcionam? Na verdade, não é só o PS que está deficitário, mas sim todo o sistema de saúde. Precisamos acabar com a cultura do pronto-socorrismo e começar a adotar uma nova postura. A Saúde no Brasil tem urgentemente que deixar de ser curativa para tornar-se preventiva. Nosso erro é ficar sempre correndo atrás do prejuízo", avaliou.
Internamente, a SMS já estaria apurando o caso que resultou na morte do estudante de Jornalismo. De acordo com Eliane, funcionários e médicos já foram questionados a respeito. Com a publicidade do fato, porém, a SMS deverá instaurar oficialmente um processo administrativo para investigar as eventuais responsabilidades.