Recall, essa idéia precisa de incentivos
B. Requena(*)
Nos últimos dias, o grande público, não só do Brasil, mas do mundo inteiro, tem se deparado inúmeras vezes com notícias segundo as quais empresas como a General Motors, Ford, Fiat e Firestone têm recorrido ao recall entre os seus clientes. Recall, do inglês, onde o prefixo "re" tem o mesmo sentido do português
(novamente, outra vez) significa reconvocar, chamar de novo, mandar voltar, recordar, relembrar, anular, cancelar etc. Essas multinacionais usam o termo no sentido de "mandar voltar" seus produtos que, tendo saído da fábrica para a clientela, descobriu-se a posteriori que contêm defeitos. Alguns graves, outros, nem tanto, mas defeitos.
O recall não é um procedimento novo, neste sentido. Há décadas que empresas automobilísticas chamam de volta seus produtos para trocas de componentes que representem risco à integridade física do consumidor ou mesmo apenas transtornos, desempenho prejudicado ou risco de acidentes menores para a clientela.
Nos EUA, desde há muitos anos que alguém se destaca na imposição de exigência legal para que as indústrias respeitem os consumidores na observância de preceitos mínimos relacionados aos seus produtos. Trata-se do advogado Ralph Nader, que na atual corrida presidencial à Casa Branca, em que polarizam Al Gore e George W. Bush, concorre pelo Partido Verde. Nader é considerado o terror das fábricas de fornos de microondas que cozinhavam também as mãos das donas de casa. Das indústrias automobilísticas que acreditam que a beleza é tudo. Se hoje o rigor (que também envolve muito a concorrência) é quase absoluto, nem sempre foi assim. No passado, com o peso do potencial financeiro e a capacidade de dissimulação de brilhantes equipes de advogados, essas fábricas conseguiam se safar da culpabilidade num acidente envolvendo um cliente. Hoje não
é mais assim.
Aqui no Brasil, há uma semana, a Fiat recolheu veículos para reparar a presilha do cinto de segurança. No Japão, há um mês, a Firestone condenou e trocou milhões de seus pneus. Agora, a coisa foi rodando de tal maneira que a Goodyear também está sendo obrigada a fazê-lo.
O recall é uma boa idéia a ser incentivada. E não aplicada somente a objetos, utensílios, veículos, peças etc. Mau advogado, médico, professor, jornalista? Que as faculdades façam um recall. Não podemos nos esquecer que, segundo os dicionários de inglês, recall também significa a "cassação de mandato pelo voto popular". Também pode-se imaginar o recém-casado ligando para os sogros: "Ela não sabe fritar um ovo! Poderiam fazer um recall?"
(*) B. Requena é editor de Internacional do Jornal da Cidade