PPS enfrenta dilema do crescimento
Texto: Nélson Gonçalves
Para o presidente estadual do partido, deputado Arnaldo Jardim, PPS terá que fazer aliança e manter identidade com
ética
O PPS é um dos partidos que apresentou significativo crescimento em forma de representação política nas últimas eleições. Além disso, o partido ainda é apresentado como uma das mais fortes alternativas, fora do PT, para a formação de um bloco político com capacidade de atrair forças de centro-esquerda no País. Apesar de uma situação mais tranqüila, muito distante do quase anonimato político do passado recente, o PPS enfrenta o dilema de crescer sem perder a identidade, e a necessidade de buscar aliança sem descaracterizar o conteúdo de suas próprias propostas para o País. Esta avaliação não é de nenhum analista político, mas do presidente estadual do PPS, deputado Arnaldo Jardim. Ele conversou sobre a situação política do País e a participação do PPS na conjuntura atual, em função do desgaste de partidos como o PSDB, que hoje é governo, e os problemas que seriam criados com a eventual participação do PFL em uma união de forças visando a eleição de Ciro Gomes
(PPS) como presidente da República em 2002.
Jornal da Cidade - Que avaliação o senhor tira da eleição, com o crescimento do PPS?
Arnaldo Jardim - Estou muito feliz com o resultado da eleição, o PPS hoje no Estado de São Paulo cresceu, primeiro sob o ponto de vista numérico. O PPS havia elegido três prefeitos na eleição de 1996 e agora elegemos 31 no Estado e estamos no segundo turno em Diadema e Rio Preto, Também temos mais de 550 vereadores no Estado de São Paulo. A quantidade é realmente de animar, mas o mais importante
é conseguimos manter uma coerência no crescimento do PPS. O PPS não é um partido formado de pessoas que pensam exatamente e mesma coisa e seria muito ruim isso, mas o partido tem princípios e isso está mantido.
JC - Que princípio você destacaria no PPS?
Jardim - Foi uma proposta que surgiu em Bauru, em um encontro que fizemos em abril deste ano, com pessoas que já eram prefeitos e vereadores, além de deputados do partido. Apresentei uma proposta que foi acatada por todos: qualquer pessoa que desejasse ser candidato pelo PPS tinha que assumir um compromisso anterior
à eleição, dando autorização para que o sigilo fiscal e bancário ficasse à disposição. A questão da ética não pode ser só de discurso, ou você acredita e pratica, ou fica só na conversa em véspera de eleição. E todos assumiram esse compromisso, abriram mão do sigilo fiscal e bancário para que, diante de qualquer denúncia de irregularidade, isso pudesse ser levantado. Isso é um primeiro ponto muito importante.
JC - E quais são os desafios para um partido que chama a atenção, tem o Ciro Gomes, a próxima eleição, etc.?
Jardim - Nós estamos neste instante programando um encontro de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores eleitos para acertar algumas linhas de políticas públicas que vão unificar o crescimento do PPS. Nós estamos seriamente decididos a não só crescer, mas crescer sem inchar, mantendo uma linha de conduta, uma linha de coerência.
JC - Quando o senhor falar em crescer sem inchar, há preocupação também com a cara ideológica do partido, a aproximação de outras legendas?
Jardim - Há uma enorme preocupação com isso, essa é a nossa maior preocupação e nosso dilema também, crescer sem perder o foco e sem deixar que forças que não representam as propostas do partido se vincularem. Nós temos a responsabillidade de encaminhar a campanha pelo Ciro Gomes como candidato a presidente da República e estamos bastante animados com o nome do Ciro, que aparece entre os favoritos, embora o Lula ainda mantenha uma margem. Então há o desafio de crescer, vamos trabalhar em cima disso também.
JC - Até porque o partido vai precisar de alianças e terá que saber escolher para não perder a linha que o seu está traçando?
Jardim - Nós vamos precisar de aliança, não tenha dúvida. Com a lógica do comício eletrônico, na televisão, em uma campanha nacional, vamos precisar de parceiros. Na campanha local você consegue suprir este problema com garra, no corpo-a-corpo, mas em nível nacional não dá para fazer isso, precisa de aliança em escala nacional. O poder da cadeia de comunicação
é muito importante, então precisamos de coligação por isso e também porque sabemos que depois precisamos de parceiros para uma base sólida para poder governar, não adianta ter só um bom candidato. Teremos que fazer coligações e buscaremos essas alianças, mas precisamos ter um grupo muito claro para que essas coligações não descaracterizem o partido, o grupo, a proposta e é este o dilema nosso. Teremos que ter essa capacidade de dialogar com todos e firmar nossa proposta.
JC - Até porque o discurso do PPS, o discurso do Ciro Gomes é contra o modelo econômico, a política econômica e social atual?
Jardim - Com certeza, nós discordamos desse modelo econômico que ai está que, para manter a estabilidade, cerceia o desenvolvimento econômico do País e provoca uma brutal recessão. Vamos apresentar uma proposta para o relacionamento internacional do País, não para um Brasil que se feche em si mesmo, o que seria uma incoerência diante da regra mundial. Queremos um partido que se integre no modelo internacional, que tenha capacidade de negociar, que tenha condições de discutir em bloco, com o Mercosul, com os organismos internacionais, mas que não seja uma País somente atrelado às regras impostas por esses organismos. Não concordamos com o liberalismo desenfreado, sem nenhum tipo de controle aqui no País, com as portas escancaradas e o muitos problemas criados para nosso parque industrial. Este é um exemplo, além da Reforma do Estado, um Estado que se tornou deformado, ineficiente. Existem muitos pontos, mas para não ser extensivo esses são dois que não encontram abrigo em vários partidos.