Poesias com natureza
Última edição do projeto Expressão Poética será realizada hoje, com direito a fogueira e música raiz
O projeto Expressão Poética, que ao longo deste ano reuniu mensalmente poetas e escritores bauruenses e da região, no Sesc, chega hoje à sua última edição. O projeto deve ser retomado no ano que vem, em novo formato, mas ainda não há nada definido.
O encontro de hoje propõe uma reaproximação do poeta com a natureza e o desapego à tecnologia. A atmosfera da noite será enriquecida com a música raiz do violeiro Levi Ramiro, numa roda poética ao pé de uma fogueira.
Os participantes vão aproveitar a ocasião para fazer uma reflexão sobre como será o trabalho em relação
à poesia a ser realizado no Sesc a partir do próximo ano. Também haverá declamação de poemas
"malditos", fazendo referência ao Dia das Bruxas e lembrando poetas como Plínio Marcos e Augusto dos Anjos.
Entre as apresentações literárias da noite, Marisa vai apresentar seus pequenos poemas; Almir Elid mostra poemas de Manuel Bandeira.
André Algarra, Regina Ramos e Márcio Nóbrega estarão juntos apresentando "Na Trilha", de Plínio Marcos.
Ainda no encontro, José Carlos Mendes Brandão vai mostrar seus poemas "O Cavalo de Fogo" e "A Figueira"; Márcio Nóbrega interpreta um trecho da peça
"Morte".
A artista plástica Rosa Iwasa vem com "Carne Moída" e "Mequetrefe" e Sônia Brandão apresenta seus "anjos".
O poeta Munir Zalaf declama Augusto dos Anjos e Regina Ramos, Byron. Jean Portela apresenta dois poemas de Robert Frost. Haverá também poemas fixados nas árvores do bosque, frutos da última oficina do projeto "Palavra em Questão", realizada no dia 10 de outubro.
Fazendo referência a esta última noite do Expressão Poética, escreveram seus poemas Jean Portela e Brandão.
Abrace uma árvore, abrace um poema
O poeta volta às raízes
as árvores o bosque o húmus.
Onde nasceu o canto.
As folhas
filtram o universo.
Bebe de meus lábios
o êxtase do olhar.
Umbral do ser
o umbral do poema.
O poema explode
no olhar.
Eu-língua
o corpo do poema.
Essência do ritmo
forma do mundo
a imagem o real
do poema.
O poema forma
que respira.
Um lábio-fêmea
cria o poema.
O poema
lábio-diamante.
A minha alma
no palimpsesto do poema.
O poema imagem
simulacro do universo.
O poema espelho
do mito.
Nada acontece
do lado de fora do poema.
Sorvo os venenos da noite
e tiro o universo
da minha cartola de mágico.
Figura do mundo
espelho do universo
a rosa do verbo
emblema demoníaco.
O ser brilha
no olhar
brilha o poema.
O poema
ponte do ser.
O olho pousa
inventa o poema.
Pelicano
abro o peito
para o meu filho
o poema.
O poema como uma faca
na barriga
brotam flores vermelhas de sangue
e beleza.
O poeta arranca
os olhos
vê com a alma.
O sangue do nome
cria o ser.
A palavra existe quando imagem
e forma.
Poeta
persona no palco
do universo.
A pedra
palavra.
As árvores os pássaros
palavras.
Deus
palavra do mundo
palavra.
Entre as árvores do bosque
contemplamos
o universo
nos olhos nas mãos.
Poetas
somos.
Brilhamos
estrelas
sementes
na terra
nas árvores
iluminamos.
J.C.M. Brandão
apontamentos no bosque
desabotoar caules arreios
desfibrilar as vagens da linguagem
certeira a cartucheira - dizia o santo ezra
se plena de munição alheia
seio de vinho sangue ou tinta: safra baço ou tinteiro
estofo mais estéril o poeta habita o cinzeiro
cinza síntese: seus frutos são flores ou raízes?
versos sussurrados ao pé dos pentelhos
lord byron: trevas do umbigo aos joelhos
zicas de futricas de nhecas de escusas
da poesia material primeiro
a trilha corre quebra dentes de ábaco o diabo
à sombra da figueira alazões de ruivo incêndio
a tradição é dita de augusto de angina
ao dentuço boa pinta
levi untando a corda tange o peito
a viola livre de visgo e defeito
frost parte a fria via armadilha da lida
peças tenras paladar de criaturas críticas
Jean portela
Serviço
Expressão Poética, hoje, às 20h, no bosque do Sesc Bauru. Grátis. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: 235-1750.