Ao invés de servir como pasto da fúria dos conservadores, a questão da pichação em Bauru poderia ser tomada como um pretexto para discutirmos um ponto mais central: o desenvolvimento das cidades de forma mais humana. Discordo dos que apontam a pichação como um mal dos países de Terceiro Mundo. Aliás, discordo da visão que sejamos "pré-lógicos", "selvagens vestidos".Este tipo de visão, tatuada pelos colonizadores em nosso cérebro deveria ser evitada. Esta história de falar, "ah!, somos subdesenvolvidos, no Terceiro Mundo as coisas são assim mesmo" só serve para que sejamos mais subdesenvolvidos ainda. Para ir mais fundo na questão, as próprias expressões Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo perdem o sentido com a queda do Muro de Berlim, em 89, o que sobra é um mundo estilhaçado, onde os mundos se fundem. O convívio com a miséria, passa a ser imperativo para as elites e vice-versa. Não que eu esteja defendendo aqui que o Brasil seja uma França. Existem franças no Brasil - a rua Oscar Freire, em São Paulo, não é quase isso? - da mesma forma que brasis "assombram" as ruas de Paris.Qualquer pessoa que tenha passado por uma metrópole planetária, como Paris, Londres, Lisboa, Barcelona, Los Angeles ou Nova Yorque, entre muitas outras, terá visto pichação nos muros. Globalizado o mundo, não globaliza-se o filé mignon, globaliza-se os costumes e até a forma de protestar contra a falta de lazer e cultura, comum em todas as periferias. A pichação é uma forma de diversão danosa porque prejudica os donos do muros ou, no caso de prédios públicos, a toda comunidade, mas ela talvez seria menos empregada caso o poder da coisa pública fosse investido em benefício de todos. Não se pode negar que exista racismo, fome, preconceito e muitos outros motivos para protestar em toda parte do mundo. As causas são justas, pichar pode até não ser, mas é preciso deixar o maniqueísmo de lado.A pichação é uma contrapartida do desenvolvimento. É quando Bauru deixa de ser a cidade pacata que muitos imaginam que ela ainda seja. Os ideólogos do progresso a qualquer custo poderiam começar a pensar no que terão que dar em troca. O futuro nada mais é que o desdobramento do presente. Quando o progresso vira "pogresso" é hora de refletir.(*) Fabiano Alcantara é repórter doJC