07 de julho de 2026
Geral

Artigo

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

Um sul-coreano, Chun Doo Hwan, que governou ditatorialmente seu país e, com a faca e o queijo nas mãos, facilmente constituiu fortuna e permitiu que outros membros do governo também o fizessem, ao deixar o cargo arrependeu-se dos crimes que cometera, restituiu seu acervo pessoal de vinte milhões de dólares e, antes de se recolher a um exílio voluntário, foi penitenciar-se ao pé do altar de um templo budista, onde orou e chorou copiosamente...Nem remotamente se poderia tentar pôr o gesto do ex-presidente num cotejo com o do apóstolo São Paulo, que, depois de perseguir a Cristo e seus ardorosos seguidores, inclusive se cumpliciando, pela omissão, no doloroso assassinato de Estêvão, converteu-se totalmente ao cristianismo e se tornou finalmente num dos mais ardorosos e apaixonados propagadores do Evangelho. Como Paulo, caindo do cavalo na estrada de Damasco ao ouvir a grave admoestação do Cristo perseguido e maltratado, o então líder sul-coreano deve ter sido tocado por alguma varinha mágica para cair em si, abrir mão da fortuna e, se autoflagelando, ir viver seus dias num confinamento interiorano. Os gestos de um e de outro estão, evidentemente, separados por um abismo, até porque ao Apóstolo restaram castigos impiedosos, que resultaram em sua purificação, enquanto ao ex-presidente não sobrariam os flagelos necessários para a sua "santificação"...De qualquer forma, a atitude de Chun poderia servir de exemplo para o mundo de hoje, revestindo-se com o manto da advertência ao fogoso corcel da corrupção que ora galopa na maioria dos setores da atividade humana, notadamente nos governos e nas áreas dos negócios em geral, no seio dos quais pululam tantos e tantos perigosos Lalaus e respectivos prosélitos, não perdoados, merecidamente, pela crítica dos meios de comunicação. Corrompem-se os dirigentes dos países, Estados e Municípios, fazendo o jogo dos interesses de terceiros, com vistas a propinas e quejandas, assim como se prostituem empresários e assemelhados nas suas corridas à busca de ágios ou lucros especulativos, num rodízio de podridão que, salvo raras exceções, já atinge todas as camadas da sociedade, mesmo nas nações onde as leis são severíssimas e a repressão do crime rigoroso é fielmente cumprida. Tudo porque vivem os homens em uma atmosfera nitidamente babilônica, onde não dão bolas para os clamores da consciência, abafados pela surdez do egoísmo, que os impede de reencontrar a dignidade recebida no berço e, depois, perdida no torvelinho da vida. Vale, portanto, como exemplo, o caminho penitencial adotado pelo ex-mandatário da Coréia. É pouco, mas é uma luz. Nada tem de santo, mas, se tomado no bom sentido, bem que deveria ser seguido por todos os bem-intencionados. Arrepender não é pecado. Corrigir, muito menos! É a nossa opinião. (*) N. Serra, Jornalista Responsável do JC e Delegado Regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado