07 de julho de 2026
Geral

Artigo

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

As recentes "turbulências" políticas que vêm ocorrendo em diversos países da América do Sul (Colômbia, Venezuela, Peru e Paraguai), aliadas às dificuldades econômicas em outros (Argentina, Equador e Uruguai), recolocam, com dramática atualidade, uma velha questão, proposta pela primeira vez por Simon Bolívar: afinal, a América Ibérica é ou não governável. O Libertador achava que não. Desde a sua morte, contudo, muitas coisas mudaram no subcontinente. Algumas para melhor e outras, infelizmente, para pior.Essa questão da aparente ingovernabilidade da América de colonização espanhola e portuguesa vem, há muito tempo, atraindo a atenção de escritores, sociólogos e economistas, que até hoje, não chegaram a um consenso sobre as reais causas da crônica instabilidade política da região. Alguns deles costumam creditar as constantes crises cíclicas ao descompasso econômico, social e tecnológico existente em relação aos Estados Unidos e Canadá. Outros apontam como principal causa para a debilidade institucional das nações ibero-americanas a diferença essencial entre a natureza da colonização britânica e a espanhola e lusitana.Para os leitores interessados em aprofundar-se no tema, recomendo a leitura de um livro, que, no meu entender, esmiuça e explica muito bem as diferenças entre a colonização brasileira e a dos EUA. Trata-se de "Bandeirantes e Pioneiros", do gaúcho Vianna Moog. Em linguagem direta e num estilo eletrizante, ele descreve, com incrível lucidez, o espírito que norteou os bandeirantes brasileiros e os pioneiros americanos, na sua incansável busca da riqueza.Mas voltemos à questão central. Para a Cepal (Comissão Econômica da ONU para a América Latina), as crises cíclicas e conseqüentes seqüelas institucionais, em geral, acontecem em decorrência das quedas nos preços das principais mercadorias exportadas pela região (café, cacau, açúcar, carne e soja, dentre outras) nos mercados internacionais e do atraso tecnológico e industrial existente em relação às nações mais avançadas.Tal linha de raciocínio, todavia, não é endossada totalmente por muitos escritores, políticos e intelectuais ibero-americanos. Dentre eles, convém lembrar nosso Ulysses Guimarães. Quando foi candidato à Presidência da República pelo PMDB, o sr. "Diretas Já", como costumava ser chamado pelos correligionários, ensinava que era um grande engano creditar a estabilidade da democracia americana à enorme riqueza agrícola, pecuária, hídrica, mineral e industrial e financeira daquele país.Para Ulysses, toda a riqueza americana nada mais era do que a conseqüência natural do exercício contínuo da democracia ao longo de pouco mais de dois séculos. Obviamente, tal opinião chegou até mesmo a chocar a "plêiade" de economistas que na época apoiava a sua candidatura. Polêmica à parte, a verdade é que, seja por motivos meramente econômicos ou por "herança" golpista, a democracia corre risco no subcontinente. É dever de todos, empresários e trabalhadores, entidades de todos os matizes (OAB, igrejas, mídia e agremiações políticas), preservá-la.Estabilidade econômica e política costumam andar juntas quando um grupo de países se junta para formar blocos como, por exemplo, o Mercosul e a Comunidade Andina. Eventuais crises não podem minar os alicerces, já lançados, da prosperidade comum. É preciso aumentar o diálogo, a cooperação e a compreensão mútuas. Pois as crises econômicas e políticas são passageiras e os valores da democracia e do Estado de Direito são perenes. (*) O autor, Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - ADVB - e da Fundação Brasileira de Marketing - FBM. E-mail: presidencia@advbfbm.org.br