07 de julho de 2026
Geral

Riqueza

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 4 min

O alto índice de desemprego está fazendo com que o número de pessoas que sobrevivem do lixo aumente. Em Bauru, a coleta seletiva informal, realizada por catadores de papel e latinha nas ruas, já reflete na diminuição do volume de lixo recolhido oficialmente. Não se sabe quantas pessoas são, nem quanta riqueza eles produzem, mas a quantidade de lixo que chega ao Aterro Sanitário de Bauru e o volume de recicláveis coletado pela Secretaria do Meio Ambiente (Semma) e o Departamento de Limpeza Pública estão caindo. A explicação mais provável para a redução dos números é a "concorrência" do mercado informal do lixo.O secretário do Meio Ambiente, Luiz Pires, diz que não se importa qual destinação os recicláveis estejam tomando, "o mais importante é que eles estejam sendo reaproveitados". "Quanto mais se recicla, menos vai estar se desfalcando a natureza e menos energia vai estar sendo gasta para produzir o material", disse. Pires afirmou que vai anunciar esta semana a ampliação do esquema de coleta seletiva de lixo. Atualmente, 30,5% do município é coberto pelo sistema, a Prefeitura deve aumentar a abrangência para 50%.De acordo com Pires, funcionários da Semma estão entregando panfletos e explicando como funciona a coleta seletiva e de que forma pode-se reciclar o lixo. Para reciclar o lixo, basta separar papel, plástico, vidros e metais limpos. Com isso, a casa passará a ter o lixo orgânico não-reciclável, que será levado pela coleta comum, e o lixo inorgânico reciclável. A coleta seletiva refere-se a este último.Os númerosEm 98, a Prefeitura levou 71,3 mil toneladas de lixo para o aterro sanitário, no ano passado foram 74 mil. Para este ano, o aumento previsto no volume do lixo é de 300 toneladas. Bem menos que o acréscimo de duas mil e setecentas toneladas de 98 para 99. A quantidade de lixo reciclável coletado também diminuiu. Em 98, entre janeiro e outubro, foram 815 toneladas, no ano passado, 992 toneladas e este ano, 741. Para o secretário do Meio Ambiente, o motivo da queda na coleta é a crise. "Muita gente está fazendo a coleta por conta própria", afirma Pires. Para o secretário, os números devem cair ainda mais. "Com a percepção de que o reciclável não é lixo o perfil do lixo brasileiro, que já foi tido como um dos mais ricos do mundo, está mudando", diz. Ele também admite que a prefeitura ainda recolhe pouco, mas diz que é preciso que toda a população tome consciência da importância da reciclagem. Além dos catadores informais, o secretário citou o caso de algumas entidades filantrópicas que estimulam a reciclagem e a atuação de empresas especializadas no setor.O lixo reciclável recolhido pela Prefeitura vai para Central de Reciclagem, no Jardim Redentor, onde trabalham 30 pessoas. O projeto faz parte de um programa de geração de renda da Secretaria de Bem-Estar Social. Os catadores deste projeto devem ser beneficiados pela ampliação da coleta em Bauru. Para o gerente da Limpeza Pública, Everaldo Crivelari, a menor quantidade de lixo pode garantir uma maior sobrevida ao aterro também. Programado para funcionar por 20 anos, o aterro deve estar com capacidade esgotada daqui a cinco anos, caso o volume de lixo não dimunua. Atualmente, a Prefeitura despeja 220 toneladas por dia no aterro.O que difere um "lixão" de um aterro sanitário é o controle do chorume - resíduo líquido do lixo. O chorume tem metais pesados, como níquel e chumbo, que são perigosos para o meio ambiente. Se não for bem monitorado, o chorume pode poluir os lençóis freáticos.No mês passado, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) emitiu uma licença provisória para o Aterro Sanitário de Bauru por seis meses. Só em fevereiro deste ano, a situação do tratamento de lixo na cidade foi regularizada. O aterro funcionou de maneira irregular desde 92. A principal exigência para que a Prefeitura receba a licença de funcionamento definitiva é o monitoramento do lençol freático próximo ao aterro. Segundo Crivelari, isso deve acontecer antes da licença definitiva expirar. Ou seja, em cinco meses.Catador diz que concorrência aumentouA história de Getúlio Lourenço, 44 anos, poderia ser a história de muitos outros catadores de lixo. Trabalhador rural, ele resolveu tentar a vida na cidade. A empresa que trabalhava faliu, Lourenço comprou um cavalo e uma carroça e partiu para o ramo de catador de papel. Hoje, ele tira até R$ 300,00 na profissão informal. Vende o papel e papelão que recolhe para uma empresa especializada em reciclagem."Estou nisso há um ano e a concorrência está aumentando. Tem gente catando de bicicleta e até de camionete", afirma. Ele revela que, além dos desempregados, muitos dos trabalhadores informais são crianças. Para cada quilo de papel recolhido, ele consegue R$ 0,08. Diariamente, chega a recolher de 100 a 200 quilos de papel. Também recolhe latinha, atividade mais lucrativa e mais disputada. A lata rende R$ 1,00 para cada quilo. Segundo ele, os compradores mais comuns são os ferro-velhos.