A mãe que abandona o filho recém-nascido é uma mulher desumana ou precisa de atenção e carinho? Na busca pela resposta ou pela quebra da imagem simplista de "mãe desnaturada", a supervisora do Serviço de Assistência Social do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Unicamp, Yolanda Freston, desenvolveu uma pesquisa, apresentada no 1.º Simpósio Sobre Atenção Integral à Criança e à Família, na cidade de Campinas, com 53 casos. Na opinião dela, antes de falar em criança abandonada, é preciso se ater a realidade de que primeiro há uma mulher abandonada. A supervisora propõe uma abordagem científica e mais conseqüente sobre o drama das mães biológicas que chegam ao extremo de doar seus filhos recém-nascidos imediatamente após o parto. A condição econômica da mulher é um dos fatores que mais leva as mães a abandonar seus filhos logo após o parto. "A maioria das mulheres que nos comunica a intenção de doar o filho logo após o nascimento alega falta de condições econômicas para sustentá-lo". Três entre quatro mulheres pesquisadas revelaram que esse fator prepoderante está vinculado a outros contextos, como o seu próprio abandono pelo parceiro, ou falta de respaldo familiar.A pesquisa de Yolanda Freston traz um dado que coloca por terra o mito de que essas mulheres seriam totalmente desprovidas de preocupação com o filho que carregam na barriga: de 53 casos analisados, em somente 9% foram registrados tentativa de aborto. "E, mesmo decididas a doar o filho já desde o início da gravidez, mais da metade das pacientes chegou a cumprir quatro consultas pré-natal, o que equivale a 50% do número de acompanhamentos recomendados. Quer dizer: elas se preocupam com o filho, sim", diz a pesquisadora. Perfil O perfil sócio-econômico traçado no levantamento ajuda a configurar o "histórico de abandono". Geralmente, trata-se de mulheres solteiras, com idade superior a 20 anos, migrantes das regiões mais carentes do País. São mulheres com educação primária incompleta, trabalhando eventual e informalmente como empregadas domésticas, sem contar com outras fontes de sustento. As circunstâncias da gravidez da maioria das mulheres que doa os filhos logo após o parto também são drásticas, segundo a pesquisa. Metade ocorre numa relação eventual; 20% na fase do namoro; 7% em casos de estupro; 7% dentro de relações conjugais não legalizadas; 6% em episódios de incesto e só 4% em casamentos convencionais. A pesquisadora alerta, ainda, que a classificação "solteira" usada no trabalho se prende ao aspecto legal do estado civil. Aspecto que, frisa ela, não favorece as mulheres. "São relacionamentos estruturados segundo a ótica machista. A partir do momento que elas comunicam a gravidez aos parceiros já colhem reações do tipo: "Esse filho não é meu. Se vira!" Aí temos caracterizada a ausência paterna, que embora jogue um peso decisivo na doação da criança, nunca transparece, recaindo tudo nas costas da mulher." Na opinião da assistente social, é preciso desenvolver uma cultura de adoção que envolva efetivamente todos os protagonistas. "É ela que engravida, entrega o filho e, depois, simplesmente some do cenário". Essa trajetória miserável, de "abandonada anônima", precisa ser eliminada, defende a pesquisadora. De acordo com ela, não existe amparo social, psicológico, nem jurídico para ajudar essas mulheres a trabalhar a perda. "As mães biológicas precisam ter a garantia de que seus filhos estejam seguros, amados e protegidos. Não é justo excluí-las, pois ela também devem fazer parte do acompanhamento técnico, mesmo depois da entrega do filho." Mãe carrega a culpaA psicóloga da Sociedade de Proteção à Maternidade e à Criança (a Casa da Criança), Sara C. Axcar, acha que a mãe que abandona o filho na maternidade, embora possa levar uma vida normal, carrega consigo a dor e a culpa de ter abandonado parte de si, seu próprio filho. Ela acredita que não só o fator sócio-econômico influencie na decisão da mulher. "Se fosse só o fator sócio-econômico, essa mulher não abandonaria o filho. Ela poderia batalhar, se esforçar e continuar com a criança, mas há outros fatores que influenciam nessa decisão. A personalidade dessa mãe é fator prepoderante", ressalta. Sara Axcar lembra há uma diferença entre a mãe que abandona o filho na maternidade, sem ter convivido com ele, e aquela que abandona os filhos e nunca mais os procura. "Temos um caso de uma mulher que abandonou cinco filhos e nunca mais apareceu. As crianças vivem aqui há anos. Todas têm esperanças de revê-la", disse.Na opinião da assistente social da mesma entidade, Angela Dias Garcia, há casos em que a mãe abandona os filhos e se acomoda na situação. "Elas passam a viver uma nova vida. Têm novos relacionamentos e até novos filhos. Nunca mais aparecem para ver as crianças", disse.Nestes casos, segundo ela, a mãe só volta a aparecer quando, depois de muitos anos, a Justiça decide colocar as crianças para serem adotadas. "Em alguns casos elas aparecem e se revoltam. Querem os filhos de volta, depois de mais de 10 anos sem visitá-los", disse.Este tipo de mãe, segundo as profissionais, impede que os filhos tenham uma chance de ter nova família. "As crianças ficam a espera do retorno da mãe. Depois de alguns anos é que ela vai para adoção." DesesperoA presidente da Sociedade de Proteção à Maternidade e à Criança, Ana Aparecida Camillo, que tem experiência de 50 anos no cuidado com as crianças abandonadas, acredita que falta uma dose de amor para que uma mulher abandone seu filho. Ela acha que a mãe que abandona seu bebê na maternidade esquece o filho. "Ela nunca aparece se quer para saber se ele está vivo." Dona Anita, como é conhecida, lembra que as mãe que aparecem são aquelas que os filhos são tirados por ordem judicial. Na maioria dos casos são mulheres que usavam os filhos para esmolar ou que estavam sendo maltratados. "Elas chegam na nossa porta pedindo. Algumas são agressivas, querem tirar os filhos à força daqui."Porém, são poucas as que assumem que estão erradas e se estruturam para poder realmente assumir o papel de mãe. "Se o caso for de maus-tratos, a mulher nega que esteja maltratando, embora, muitas vezes, a própria situação da criança denuncie os fatos."