07 de julho de 2026
Geral

CDs

Andréia Alevato
| Tempo de leitura: 3 min

Nos tempos em que o dólar era equivalente ao Real, as bancas de ambulantes eram cheias de produtos eletrônicos. Os pedestres dividiam o espaço da calçada com ventiladores e outros produtos eletrônicos, inclusive de grande porte. Em algumas barracas conseguia-se até comprar televisões, rádios e computadores. Com a desvalorização do Real, a realidade mudou. Os produtos eletrônicos e importados foram substituídos por outros de maior saída, como cigarro e CD.Mais fáceis de transportar e vender, CDs são encontrados na maioria das barracas. Apesar de muitos serem pirateados e, portanto proibidos, os ambulantes preferem correr o risco de serem pegos pela polícia do que pagar caro por uma mercadoria eletrônica. "Vendo muitos CDs por dia. A população sabe que é um produto pirata, mas prefere pagar R$ 6,00 do que R$ 20,00 (na loja). Prefiro correr o risco de ter a mercadoria apreendida do que ter um produto caro na banca, que fica encalhado", disse um ambulante que vende CD, que preferiu não ser identificado para não sofrer represálias. "CDs, cigarros, bebidas e remédios abortivos são proibidos. O ambulante sabe que é proibido, sabe que ele pode ser pego e perder toda a mercadoria, mas insiste, porque o que mais vira, o que mais vende, é o CD barato e o cigarro. As pessoas querem ouvir a música do momento, mas não podem pagar R$ 20,00 num CD (nas lojas), mas pagam R$ 6,00 na banca. Então, o comércio de CD cresceu muito. O mesmo acontece com o cigarro", completou Mário Augusto dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Economia Informal de Bauru (Sinteib).Segundo Santos, atualmente, as barracas de ambulantes têm 80% de produtos nacionais e 20% de importados. "Não é vantagem o camelô trabalhar com importados, mas eles precisam estar nas barracas, porque dão status", disse.O presidente do Sindicato afirmou que os ambulantes que vendiam eletrônicos não passaram para o comércio de alimentos. "Os produtos mudaram nas bancas, mas poucos mudaram totalmente, saindo de eletrônico, por exemplo, para alimentação ou vice-versa. Isso é difícil", afirmou. Santos também disse que as lojas que vendem produtos a R$ 1,99 não abalaram as vendas do comércio informal."O proprietário das lojas de R$ 1,99 é um ambulante informatizado. A mercadoria dele é inferior a do ambulante", explicou.MigraçãoCom a superlotação de barracas na região central da cidade, nos últimos tempos, os ambulantes passaram a buscar outro público: o de bairros fora do Centro e periferia. Altos da Cidade, Mary Dota e Santa Luzia são alguns dos pontos dos ambulantes. Santos disse que, com essa migração, muitos deixaram de ser ambulantes e passaram a ser microempresários. "O comércio informal é um passo para a microempresa. Muitos batalham, saem da rua e montam uma lojinha ou uma lanchonete. Mesmo que seja na periferia, mas ele deixou de ser ambulante para virar um microempresário", ressaltou.ValoresO dono de uma barraca pequena, sem muitos atrativos, ganha entre dois e três salários mínimos por mês. As barracas um pouco maiores, com grande variedade de mercadorias rendem entre cinco e oito salários mínimos por mês, segundo dados do Sinteib.PerfilSantos afirmou que o perfil do ambulante de Bauru mudou nos últimos anos. Com a desvalorização do Real e a crise de desemprego que o País enfrenta, o barraqueiro deixou de ser um analfabeto ou semi-analfabeto. Segundo ele, hoje eles são universitários e profissionais de várias categorias que viraram trabalhadores informais."É um segmento que cresce a cada dia. São quase 30 mil trabalhadores informais em Bauru hoje. Porque quem não tem vínculo empregatício, Carteira de Trabalho assinada, é informal. Até quem dá aula particular em casa é trabalhador informal", concluiu.