07 de julho de 2026
Geral

Pescaria

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 9 min

Vamos aproveitar o período de piracema para falar do dourado, um dos peixes mais importantes de nossas águas que, infelizmente, há muito tempo vem perdendo seu espaço. Não só a poluição e a construção de barragens têm dificultado a vida desta importante espécie, mas também a pesca predatória e o grande descaso com os nossos rios, que têm suas matas destruídas e seus leitos assoreados.Se você perguntar a 20 pescadores qual é o seu peixe predileto, com certeza a maioria vai dizer: dourado. A não ser aqueles que, por algum motivo, ainda não tiveram a oportunidade de ficar cara a cara com o maior predador de nossas águas. Os pescadores mais antigos ainda arriscam lembrar das pescarias de dourados no rio Tietê, quando era possível encontrar a espécie em grande quantidade na região.O dourado, como todos os peixes de piracema, é muito prejudicado com a construção de represas que impedem a sua corrida a caminho da reprodução. Além disso, gosta de correntezas e da água oxigenada, o que está ficando um pouco difícil com a poluição de nossos rios. Mas o assunto principal de hoje não é discutir a quantidade de barragens que possuímos; como são precários os mecanismos para fazer com que o peixe tenha condição mínima para concluir a piracema - como as escadas para peixes, por exemplo -; ou até mesmo se existe a preocupação em repovoar rios com a reprodução em cativeiro. A pauta é o dourado em toda a sua beleza e algumas sugestões para o pescador, principalmente àquele que colabora para o desenvolvimento da pesca esportiva.Molinete ou carretilhaConversando com o pescador Carlos Salzedas, que segue todos os anos para o rio Paraguai à procura de dourados, ele comenta que 2000 foi um ano muito difícil para a espécie. "Além de perdermos muitos exemplares com a dequada, um fenômeno que ocorre após um determinado período de seca intensa e queimadas, a cheia leva para o rio as cinzas que intoxicam os peixes -, com a grande quantidade de barcos nos rios, o dourado está difícil de ser encontrado. Principalmente exemplares maiores. Sempre pesco no rio Paraguai e eventualmente no rio Paraná, onde os peixes são maiores, mas creio que este ano, no Paraguai, pouca gente encontrou dourado."Salzedas acredita que seria necessário alguns anos de proibição de pesca para que os rios se recuperem. "Tem peixe, mas não na mesma quantidade", comenta. Mesmo assim, ele comenta sobre os rios Paraguai e Paraná e dá dicas para encontrar o dourado.De acordo com Salzedas, no rio Paraguai, o pescador pode optar por diversos tipos de pesca. Corricar pode trazer a garantia de uma boa briga com o rei do rio. Mas a água deve estar limpa. O barco desce (ou sobe, tanto faz!) com no máximo dois pescadores, que devem arremessar próximo ao barranco e continuar corricando. A isca pode ser artificial de meia água (sugestão cor clara) ou viva. No caso da natural, um peixe apreciado pelo dourado é o jiju. Outras sugestões podem ser lambaris e tuviras. É o movimento que vai atrair o dourado, que é um grande predador. "Ele sai do mato para atacar."A linha deve estar sempre esticada e é fundamental a atenção do pescador para o momento em que o dourado morder a isca: é hora de fisgar! "É o peixe mais bonito e gostoso de se pescar", afirma Salzedas. "Você também pode dar a sorte de encontrar um cardume e pegar o dourado no barranco." Já no rio Paraná, onde o peixe é mais arisco, a pesca do dourado é diferente. A pesca de rodada pode proporcionar melhores resultados. Corricar não é apropriado. Segundo Salzedas, naquela região os dourados são maiores, pois não conseguem subir o rio para procriar e acabam em poços profundos. Uma boa época são nos meses de março e abril, quando a água está mais quente. Na pesca de rodada, a sugestão é a iscas vivas, como o corintiano, a tuvira e o lambari. O chumbo deve ser um pouco mais leve para evitar que o anzol fique preso em pedras e enroscos. Os exemplares maiores são encontrados no fundo e dificilmente chegam a saltar. Como achar o peixeNo rio Paraguai, o dourado espera nos "corichos" as iscas que vão sair das lagoas. Lá é um bom lugar;A mudança de tempo dificulta a pesca do dourado;Observar as aves. Onde há muitas aves (garças, biguás, gaivotinhas...) é porque os peixinhos também estão lá. O dourado vai atrás deles;Observar a movimentação da água, o "rebojo";Cheiro: segundo os pescadores, é possível sentir o cheiro de cardumes subindo;.Confiar no piloteiro;Já nos rios Miranda e Aquidauna - que são mais estreitos e há corredeiras - ele fica em poço fundo e galheiras;Dourado na moscaA pescaria do dourado na mosca é, para os adeptos da modalidade, uma das mais interessantes. Apesar da grande dificuldade em localizar os dourados em nossos rios, nos últimos tempos, quando encontrados, a emoção é dobrada. Pescador de fly há quatro anos, Rodrigo Moreira Salles, 24 anos, tem grande preferência pelo dourado. A pesca de fly exige que o pescador saiba onde o peixe está e enfrente o desafio de encantá-lo apenas com o movimento de sua mosca artificial.Nesse processo, misturam-se a confecção do fly, o trabalho da isca na água e a agilidade do pescador em fisgar um peixe esperto e rápido como o dourado. Salles comenta que, infelizmente, muitos pescadores de dourado - não só de fly, mas de molintes e carretilhas - estão seguindo para a Argentina. "Lá, a legislação é muito mais rigorosa e não é permitido embarcar o dourado em nenhuma hipótese." Segundo ele, há grande quantidade de peixes, o que facilita a pesca de mosca. "É possível pegar 30 ou 40 dourados no mesmo dia. E liberar rapidamente, é claro!"A região mais cobiçada pelos pescadores na Argentina é Província de Corrientes (esquina, Goya e Passo de la Pátria). Porém, um outro lugar foi comentado por Salles como muito bom para a pesca de fly: Esteros de Yberá. "Lá é um lugar fantástico, com pouca estrutura, mas muito bonito e tranquilo." Ele também lamenta que pescadores busquem outros locais para pescar o dourado, considerado o símbolo da pesca no Brasil. Mesmo assim, ele deixa a sugestão de equipamento para a pesca do dourado no fly: equipamento n.º 8; linhas intermediate, sinking e às vezes floating; e streamers tipo Lefty deceiver e clouser minow.Pensando nos peixes e rios brasileiros, o que deveria ser também um consenso entre os pescadores seria o desenvolvimento da pesca esportiva. Principalmente quando o assunto é peixe como o dourado, que está sendo impedido de se reproduzir e chegar a tamanhos razoáveis. Mal alcançou a medida mínima e pronto: o dourado é embarcado.Não seria o momento para todos os pescadores refletirem sobre a forma como estão encarando a pesca? Será que é preciso, realmente, embarcar aquele lindo dourado que lhe proporcionou momentos de grande emoção? É necessário que o pescador também sinta-se culpado. Se a pesca predatória existe, as barragens estão lá, a poluição dificulta ainda mais a sobrevivência do dourado, por que o pescador consciente não colabora também? Além da prática da pesca esportiva, fiscalizar e orientar outros pescadores pode ser uma importante colaboração para a sobrevivência do dourado, ainda conhecido como o rei do rio.Será que o dourado vai perder seu reinado para o tucunaré? Afinal, o tucuna também é um peixe predador e esportivo, que conta com uma grande vantagem na luta pela sobrevivência: não é um peixe de piracema, pois reproduz-se em lagoas. É assim que a espécie está se desenvolvendo em várias partes do País. Vamos valorizar o tucunaré, um peixe brasileiro e muito esportivo, mas não vamos esquecer daquele que sempre proporcionou excelentes batalhas para os pescadores: o dourado!********* Troféu pescador *******Uma pescaria de dourados, em 1949. O rio é o Mogi Guaçu, na região de Porto Ferreira, quando o grupo de carpinteiros que fazia a balsa de travessia se arriscava na pescaria durante a pausa no trabalho. Quem comandava a turma era Francisco Mathias, em pé, à direita.********* História de pescador ******"Guazinho"Estávamos pescando no rio Paraná, município de Castilho, hospedados no rancho "Recanto Lençoense", um lugar muito bonito.Pescávamos ou tentávamos fisgar as gostosas mandiúvas, numa pescaria de rodada na qual usávamos um pneu concretado ao meio, como lastro. O rio Paraná já foi um rio com uma fartura enorme de peixes. Atualmente "graças" à pesca predatória, não tanto dos amadores, mas principalmente dos profissionais, que não sei como não são fiscalizados, os peixes estão desaparecendo numa rapidez impressionante.Estávamos pescando em dois barcos: Sidney Ceschini, Júlio César e Alberto em um; e Armando, José Pereira e Márcio em outro. Subíamos até o marco da Cesp e descíamos rodando, batendo aqui e ali para fisgarmos umas quatro ou cinco mandiúvas. Antigamente, umadescida significava vinte e cinco, até trinta das "bitelas".E, a paisagem, linda, bandos e bandas de garças, de bíguas, e, de repente, a idéia!!Os biguás! Exímios mergulhadores e pescadores toda hora saíam da água com um peixe na boca, digo, no bico. Foi difícil, mas com muito jeito e paciência consegui aprisionar um deles, escondido é claro, pois o Ibama sempre adivinha quando um amador faz algo errado.Levei-o para o rancho e tratei-o com o maior carinho, dando-lhe até mamadeira de leite com um pouco de pinga, pois estava bastante frio aqueles dias. A noite, aninhado ao lado da cama, ele grasnava um pouco, mas foi até bom, pois encobria o ronco de motosserra do Alberto (de São Manoel), que deve ter a mulher mais surda ou mais santa do planeta. Bem alimentado, o biguá me acompanhava por todo lugar, sempre presenteado por um petisco e um golinho de pinga, até que resolvi testá-lo, como era minha idéia, numa pescaria no rio.Subimos o rio até o ponto de costume, amarrei uma linha na perna do biguá e soltei o bichinho. Não é que dois ou três minutos depois ele já mergulhou e trouxe uma bela mandiúva no bico? Depois outra e outra até completarmos umas trinta. Para não cansar o biguá que já estava até com o olho vermelho (não sei se de mergulhar ou do gole de pinga que lhe dava após cada mandiúva), voltamos ao rancho.No outro barco, como sempre, pescavam umas três ou quatro mandiúvas que o dia estava ruim. No dia seguinte, levamos novamente o "Guazinho" (já tínhamos colocado um apelido) e o soltávamos ao lado do bote e ele mergulhou trazendo uma mandiúva. Nossa sorte foi que esquecemos a pinga e só tínhamos uma garrafinha de whisky. No primeiro gole, estalou a língua e mergulhou trazendo um belo exemplar de dourado e depois um pintado, outro dourado, enfim, que pescaria!Quando viemos embora para Lençóis, contamos 77 mandiúvas, 7 dourados e 7 pintados todos na medida. Soltamos o "Guazinho" depois de uma boa dose de pinga com limão, antevendo a próxima pescaria daqui alguns meses.No caminho íamos lembrando do biguá e rindo do seu andar cambaleante depois das pescarias, e então nos lembramos que não tínhamos testado sua perícia com cerveja, mas isso, se Deus quiser, ficará para uma próxima vez.Sidney C. CeschiniÉ dentista, pescador e treinador de biguás