A privatização do Banespa desperta paixões arrebatadoras, a favor e contra. Quero dizer, antes de tudo, que sou favorável à privatização de bancos estaduais, e do Banespa em particular. Mas um fato, em geral desapercebido, pode comprometer seriamente a validade dos procedimentos adotados na alienação daquela instituição.Trata-se da possibilidade de que o ágio oferecido na compra do banco possa ser utilizado como crédito tributário pelo comprador. Em outras palavras, o que for oferecido acima do preço mínimo estabelecido pelo governo poderá ser abatido do pagamento futuro de impostos. No caso do Banespa, se repete uma velha polêmica, sempre presente nos processos de privatização. A que preço o patrimônio público deve ser vendido?Há enormes dificuldades na avaliação de uma empresa, pois o seu valor depende de variáveis macroeconômicas fora do controle dos executivos dessas empresas. A avaliação do preço de venda do Banespa calculado por duas instituições, um banco e uma empresa de auditoria contratados pelo governo, chegou a valores muito divergentes. O menor valor apurado foi de R$ 4,8 bilhões, e o maior chegou a R$ 11,5 bilhões. Esta enorme discrepância pode ser explicada por "n" fatores, todos razoavelmente embasados em boa teoria econômica e financeira. Contudo, como se trata de patrimônio público, a venda pelo valor de avaliação acaba se tornando inviável.A solução para este problema é a venda por leilão. Supõe-se que a concorrência entre os licitantes faça o valor de venda convergir para o valor de mercado. No entanto, se o ágio oferecido é aceito como crédito tributário, a polêmica ganha novos contornos.Se o crédito tributário fosse estimado como a diferença entre o preço de aquisição e o valor real do patrimônio vendido, ele seria apenas um adiantamento de impostos que os licitantes fazem ao governo. Mas como não se sabe o valor real do bem, e mesmo supondo-se que seja verdade que os preços dados pelos licitantes coincidam com o preço de mercado, a avaliação do preço mínimo torna-se crucial na avaliação do negócio. Se o preço mínimo do Banespa estiver subavaliado, e acredita-se que isto possa estar ocorrendo dada a enorme discrepância nas avaliações, a venda do Banespa poderá estar implicando enormes subsídios aos compradores, e conseqüentemente, em grandes prejuízos ao patrimônio público.É lamentável que a privatização do Banespa esteja ocorrendo em circunstâncias tão nebulosas. (O autor, Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, é doutor em Economia pela Universidade de Harvard - Estados Unidos - e professor-titular e vice presidente da Fundação Getulio Vargas. É presidente estadual do PL/SP e deputado federal por São Paulo. Home-page: www.marcoscintra.org - e-mail: mcintra@marcoscintra.org)