Inúmeras são as vantagens nas cirurgias laparoscópicas, como menor agressão metabólica, recuperação mais rápida do paciente, menor tempo de internação hospitalar, dor pós-operatória de menor intensidade e melhor resultado cosmético. Entretanto, o uso do método exige, por sua vez, a utilização de artifícios técnicos essenciais, como pneumoperitôneo e mudança de posição do paciente, as quais implicam em interferências importantes, durante o pré-operatório, no seu estado funcional, cardiovascular e respiratório.O avanço tecnológico, principalmente na área óptica, aliado à experiência adquirida pelo cirurgião com o passar dos anos, tem permitido uma expansão cada vez maior dos limites da indicação da técnica. Atualmente, a colecistectomia, a histerectomia, a reparação de hérnias e a manipulação dos anexos da pelve ocupam posição de destaque no campo das indicações das cirurgias videolaparoscópicas mais freqüentes.Aspectos históricosA primeira laparoscopia foi realizada por Georg Kelling, um cirurgião de Dresden que introduziu um cistoscópio em um cão antes do 73º Congresso de Naturalista e Médicos Alemães em Hamburgo em 23 de setembro de 1901. Ele nomeou o procedimento de "Kolioskopie".Outro alemão, Miihe, realizou a primeira colecistectomia laparoscópica total em 1985 e apresentou seu trabalho pela primeira vez no Congresso da Sociedade Cirúrgica Alemã em 1986. Seu relatório inicial foi em grande parte ignorado. Entretanto, no ano seguinte, ele havia acumulado uma experiência pessoal em 94 casos. Em 1987, Mauret realizou uma colecistectomia laparoscópica e alguns meses depois mostrou um videotape de sua técnica a Dubais, em Paris. Dentro de um ano, líderes da Europa e nos Estados Unidos (EUA), aperfeiçoaram a técnica e são responsáveis pela expansão mundial sem precedentes e rápidas desta intervenção. Exatamente nos EUA, a colecistectomia laparoscópica cresceu de algumas operações em 1988 para quase metade de um milhão em 1993.Atualmente, quase todas as operações abdominais são realizadas larparoscopicamente. Outras especialidades, incluindo cirurgia torácica, cirurgia pediátrica, ginecologia, urologia, ortopedia, cirurgia plástica, e otorrinolaringologia estão, atualmente, aplicando esses processos nas técnicas endoscópicas para seus respectivos campos. Equipamentos e instrumentalA cirurgia videolaparoscópica ou video-endoscópica não é uma nova especialidade, é somente uma nova maneira de se operar.O cirurgião geral, habituado a utilizar a sua sensibilidade tátil e visual, terá que se adaptar à utilização dessa nova tecnologia ao seu dispor. Para alguns cirurgiões é uma mudança difícil confiar na imagem bidimensional através do vídeo, do que na visão tridimensional a que este profissional já está acostumado no seu dia-a-dia. Há necessidade de desenvolver uma coordenação motora em função da imagem projetada no vídeo, por isso é importante estar familiarizado com o instrumental e o equipamento utilizado nesse processo.O equipamento não só diferencia a cirurgia laparoscópica da cirurgia aberta como também é necessário para realizar com segurança e eficácia as técnicas laparoscópicas.Anestesia exige cuidados especiaisPara a cirurgia videolaparoscópica, é realizada a anestesia geral. A peridural é contra indicada pelo desconforto da distensão abdominal, da irritação frênica, da tração da vesícula e do bloqueio ganglionar simpático associado.De acordo com o anestesista José Carlos Bonjorno Júnior, a técnica da anestesia indicada para um paciente de cirurgia videolaparoscópica é a mesma indicada para uma cirurgia convencional.Ele explicou que por algumas características ligadas à videolaparoscopia, o anestesista tem que estar atento a alguns cuidados específicos, principalmente quanto à monitorização e o controle do paciente, como o monitoramento do nível de CO2, a ventilação do paciente, pressão hemodinâmica do paciente. Apesar de todo esses cuidados, Bonjorno afirma que isso não significa riscos ao paciente. "Aumenta-se o cuidado da técnica anestésica, mas não significa que o procedimento tenha riscos ou complicações. A técnica utilizada promove a segurança do paciente. Os cuidados que tomamos desde a primeira conversa com o paciente, torna o procedimento utilizado tão seguro quanto qualquer outro", disse.Na primeira consulta, de acordo com Bonjorno, se define se o paciente tem ou não condições de passar pela videolaparoscopia. Se define também a técnica de anestesia a ser utilizada, tranqüliza-se o paciente, explicando tudo que vai se passar com ele. "A partir do momento que o paciente sabe, literalmente o que vai passar com ele, fica mais tranqüilo", afirmou. Nessa primeira consulta também se explica o que o paciente deve fazer antes da cirurgia como alimentação, medicamentos e todas as informações necessárias oferecendo maior segurança ao paciente.Ele explicou que, atualmente, há drogas anestésicas que fazem o paciente dormir traqüilamente. "Eles dormem e não levam nenhuma experiência ruim na memória, a amnésia e as drogas utilizadas fazem o paciente acordar com uma certa rapidez, sem dor e pode ir para casa no mesmo dia, na maioria das vezes", afirmou.Bonjorno disse que a cada dez mil cirurgias laparoscópicas realizadas, ocorre uma complicação e a cada cem mil cirurgias, ocorre apenas um óbito. "Gosto de fazer a seguinte comparação: a cada dez mil automóveis circulando, temos dez acidentes, então é dez vezes mais arriscado passear de automóvel do que fazer uma cirurgia videlaparoscópica", afirmou.