07 de julho de 2026
Geral

Projeto

Eva Rodrigues
| Tempo de leitura: 5 min

Pesquisador da Unesp pensa em sistema coletor de energia solar voltado a população de baixa rendaO uso de energia solar para aquecimento de água é mais uma entre as ironias brasileiras. Pensado como alternativa para economia de energia elétrica, o sistema costuma ser visto em casas cujas construções consumiram altas cifras. Essa contradição levou um professor da Unesp/Bauru a pensar numa solução de baixo custo e integrada - que exerça ao mesmo tempo a função de componente de aquecimento solar e telha de cobertura da residência.A possibilidade de desenvolver o protótipo do produto levou o professor do Departamento de Desenho Industrial da Faac/Bauru, Francisco de Alencar, a fazer o projeto de doutorado "Caracterização e análise de viabilidade de uma telha coletora de energia solar para aquecimento de água" no curso de pós-graduação (área de energia na agricultura) da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp/Botucatu. Depois de um levantamento inicial dos coletores de energia solar disponíveis nos mercados nacional e internacional - analisando a integração aos projetos arquitetônicos e levando em conta aspectos de instalação e design -, Alencar projetou, construiu e avaliou alguns protótipos utilizando materiais como o polietileno, telhas de cimento amianto, chapas e canos de cobre e chapas de alumínio. A empresa Soletrol colaborou com as pesquisas fornecendo equipamentos padrão no mercado para comparação com os protótipos. "Nos testes feitos com os dois sistemas, o protótipo chegou a 80% em média com relação ao rendimento do equipamento padrão", conta o pesquisador. Com a mesma performance, o protótipo tem vantagem no que se refere ao preço - o metro quadrado do coletor padrão ficava em R$ 215,00 no final do ano passado, enquanto que o protótipo de cimento amianto saiu por R$ 90,00 (com a vantagem de que o modelo exerce também a função de telha).Os testes levaram à conclusão de que o cimento amianto apresenta os melhores resultados no aquecimento. Mas aqui um problema deve ser colocado: a indústria de cimento amianto (no Brasil, a velha conhecida Eternit) está acabando em todo mundo - em muitos países já é proibida - porque o pó do cimento amianto causa um problema no pulmão com consequências irreversíveis. "Aqui ainda se usa muito, e só não se usa mais porque a telha de cimento amianto é considerada feia, a telha de barro tem a preferência nacional", observa Alencar. Diante da constatação, o pesquisador já pensa em avançar nos estudos em busca de materiais alternativos que tenham as mesmas propriedades do cimento amianto e também num formato de telha de barro que tenha mais aceitação no mercado.DificuldadesUm dos empecilhos para a instalação do sistema de energia solar numa casa já pronta é a necessidade de instalação de dois sistemas de água - um quente e um frio. A mistura é essencial pois a temperatura da água do reservatório gira em torno de 60ºC.Outro impedimento natural são os dias de chuva, nos quais a água não esquenta (embora haja sistemas que permitem uma reserva de água quente por até um dia e meio). Mas isso também não seria exatamente um problema porque a idéia de utilização da energia solar não é no sentido de substituir a energia elétrica, mas contribuir para a diminuição das sobrecargas de uso dessa energia. Fator de fundamental importância considerando-se que 30% do consumo numa casa é do chuveiro elétrico.Empolgado com o projeto e com os benefícios da energia solar (o professor já desenvolveu um outro sistema utilizando material plástico que já é comercializado por uma empresa nacional), Alencar aponta que "quem deveria se preocupar com o uso da energia solar são as políticas públicas de conservação de energia e recursos naturais... A gente já pode perceber a inquietação das concessionárias que estão trabalhando nos limites da produção/consumo de energia".Ele comenta que em Israel, por exemplo, as pessoas não tiram o habite-se de uma residência se não houver um projeto de energia solar. "No Brasil tinha que haver uma política de estímulos, incentivos fiscais e envolvimento de todos, inclusive das prefeituras", indica. Como funciona O sistema para aquecimento de água com o uso de energia solar (de acordo com modelo padrão no mercado) é formado de uma serpentina de tubos de cobre por onde passa a água; sobre a serpentina são colocadas tiras de cobre (aletas) que transferem maior quantidade de radiação solar para os tubos de água; sobre a aleta é colocado um vidro (elemento componente que gera o efeito estufa e ajuda a aumentar a temperatura interna). Todo esse conjunto fica acoplado a uma caixa de alumínio e o isolamento térmico é feito com espuma de poliuretano ou lã de vidro. O projeto desenvolvido por Alencar difere do modelo padrão nos seguintes aspectos: a caixa que vai conter o vidro, as aletas e a serpentina é feita em cimento amianto que já tem a propriedade de ser isolante térmico (dispensa a espuma de poliuretano); além disso, a caixa é ao mesmo tempo telha, ficando integrada à cobertura da residência. Sem chuveiro elétricoSegundo o professor Francisco de Alencar, o Brasil é um dos poucos países do mundo que usa o chuveiro elétrico para aquecimento de água. Em países da Europa e nos Estados Unidos, as residências contam com um sistema cumulativo de energia que consiste num grande reservatório com uma resistência elétrica de baixa potência - 500 a 700 Watts. Essa resistência aquece o reservatório ao longo do dia e não de uma vez, como no chuveiro elétrico que funciona com uma resistência de no mínimo 5.000 Watts. "Se levarmos em conta o horário de pico, entre 18 e 21 horas, há uma sobrecarga de energia imensa", analisa Alencar.