08 de julho de 2026
Geral

Fim do milênio alimenta crenças do bem e do mal

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

O ano 2000 chegou e as previsões apocalípticas que o acompanhavam não se confirmaram. Mesmo assim, a iminência da virada do século e milênio com a proximidade de 2001 continua alimentando sensações de mistério e dúvida. Segundo alguns filósofos modernos, a passagem de um milênio para outro costuma ser marcada por mudanças comportamentais, especialmente relacionadas ao transcendental. A fé, seja no Bem ou no Mal - aqui tratados como Deus e o Diabo -, geralmente se fortalece.Num mundo em que a tecnologia e o conhecimento já sabem a fórmula da clonagem humana, em que as figuras do homem de barbas no céu e anjo de rabo e tridente já foram abolidas pela própria Igreja Católica, é estranho que o sobrenatural ainda exerça tanto fascínio sobre as pessoas. É nesse paradoxo que as crenças parecem encontrar motivação.São legiões de fiéis confirmando sua fé em Deus, ampliando religiões e ramificando outras. Há uma dimensão em nós de espiritualidade sem a qual o ser humano não consegue viver. Sentimos uma onda em busca da paz, da transcendência. A busca por uma religião que permita a expressão maior dos sentimentos e das emoções. Talvez isso tenha ficado enrustido por muito tempo em razão da formalidade da igreja, analisa Jacinta Turolo Garcia, filósofa e reitora da Universidade do Sagrado Coração, em relação ao catolicismo.Numa proporção bem menor, embora considerável, verifica-se também o surgimento de hordas cultuando o obscuro. Seitas e religiões ligadas a Satanás crescem de maneira até preocupante no país mais rico e poderoso do mundo. Estima-se que 50 mil rituais negros ocorram anualmente nos Estados Unidos. No mundo virtual, já são mais de 170 mil web sites dedicados a Satã, outros 35 mil a Lúcifer e ainda quase 18 mil ao satanismo. No Brasil, não há números sobre a proliferação dos adoradores do Diabo, mas eles existem, especialmente entre adolescentes e jovens adultos. Em Bauru mesmo, pelo menos dois grupos estudam o satanismo e crêem no Diabo com a mesma naturalidade dos fiéis a Deus.Para as igrejas de Deus, manter viva a existência do Diabo é uma questão de sobrevivência: se o mal não existe, por que a necessidade de buscar o bem? Sem o mal, teríamos o equilíbrio completo, mas não sei se isso teria muita graça. A necessidade de manter os fiéis agregados acaba enfatizando o demônio, mas muitas das coisas que se atribui ao Diabo refletem um comodismo. É fácil passar a culpa das coisas ruins do dia-a-dia para uma entidade que a gente nem sabe bem quem é, considerou Jacinta.Ainda que os tementes a Deus somem uma esmagadora maioria, a publicidade do mal é muito mais atrativa. Na opinião da reitora, congregada do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, o propalado crescimento dos seguidores das trevas é uma onda talvez estimulada pela virada do milênio. Embora reconheça a existência das religiões satânicas, ela acha que seus adeptos são mais motivados a segui-las por questões de desequilíbrio psíquico ou emocional do que por convicção. Geralmente, essas pessoas têm relação com drogas, vinculou.Na visão sociológica, os cultos satânicos agregam, em sua maioria, jovens rebeldes e descolados. Normalmente, têm problemas em casa e sofrem por deficiência de auto-estima. Ao adotar o satanismo, passam a se sentir fortes e temidos, porque as religiões cristãs - a católica, em especial - incutem no imaginário popular o estereótipo de que o Diabo é um ser maléfico com quem não se pode mexer. As religiões evangélicas pregam e enfatizam cada vez mais a figura demoníaca, enquanto a Igreja Católica - ainda que tarde, diga-se de passagem - desmistifica a imagem do Deus barbudo e do Diabo de rabo. Ambos são espíritos e, como tal, invisíveis. Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, mas precisamos entender que essa semelhança é espiritual. A soma de sentimentos bons, sua prática durante a vida e a crença na vida após a morte é o céu. O inferno é o contrário, explicou. Quem pára os estudos religiosos na infância, depois da primeira comunhão, vai para a adolescência e para a vida adulta levando aquelas aulas bíblicas que falavam de Adão e Eva. Obviamente que vão desacreditar na história. É preciso entender que aquela passagem bíblica, assim como tantas outras, foi colocada numa linguagem simbólica, completou.