07 de julho de 2026
Geral

Artigo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O almoço do presidente FHC com Vera Fischer e outros artistas globais, em Brasília, era para ser secreto. Ninguém deveria saber desse lobby explícito organizado por um diretor da TV Globo, vizinho do poder. No entanto, esconder uma deusa loira de quase 1m80 de altura é missão impossível. Fotografias de ambos acabaram nas manchetes dos jornais, onde FHC aparece buliçoso como um garoto que está adorando a companhia. Invejo-o. Ainda mais que amanhã haverá outro lobby em Brasília. Será a vez de Gisele Bündchen, a top model, defender os interesses da indústria têxtil aos sussuros, no ouvido do presidente. Infelizmente, não fazemos parte do mundo alegre dessa ilha da fantasia em que se transformou a Capital Federal. Cabe-nos, reles e porcamente, discutir o problema criado com a portaria do Ministério da Justiça para controlar os programas de televisão.Quem foi jornalista em tempo da ditadura sabe o quanto é terrível qualquer tipo de censura. Começa com coisas insignificantes, vai ganhando corpo e acaba subjugando corações e mentes. A Constituição de 1988 veio para acabar com esse jogo de uma regra só, em atendimento ao clamor da própria sociedade, cansada de tantos desmandos. Ninguém quer a censura, mas não é possível o mau gosto, a agressão, a violência de cenas que vêm sendo exibidas na TV brasileira.Não me convence o argumento de que um autor de novela esteja obrigado a relatar a realidade com todas as suas taras e maldades, somente para mostrar para quem ainda está na era da inocência, que a sociedade mudou. O ético e o estético juntos. Sempre será possível apresentar um produto aceitável nas casas de família sem tirar o sentido dramático ou cômico da história que se pretende contar.A Constituição do Brasil, ao mesmo tempo em que proíbe a censura, manda que os meios legais garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas que desrespeitem os valores éticos e sociais. Se os realizadores de cenas de novela seguissem o código da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, ou, no caso da TV Globo, o código da própria empresa que proíbe até uso de expressões menos comprometedoras como merdinha, as coisas já teriam sido amenizadas e resolvidas.O problema é a luta pelo primeiro lugar. Cada ponto no ibope vale milhões de dólares e todos querem subir no termômetro da audiência para garantir um bom faturamento. Não importa se os degraus dessa escada sejam os valores tradicionais.Se não houver intervenção do Governo ou da justiça em nome dos princípios constitucionais, Pedro e Cinthia que já se estupraram numa cocheira em Laços de Família, vão acabar traçando os cavalos. O que os casais eventualmente possam fazer na intimidade dos seus quartos, não precisa, necessariamente, ser mostrado na nossa sala de jantar onde a família se reúne.O que a lei impõe é apenas que haja classificação do espetáculo para que seja exibido em horários mais compatíveis. É claro que isso não vai melhorar a sociedade. As crianças de hoje dormem depois da meia-noite. Isso não exime a responsabilidade dos pais que têm o dever de cuidar da formação do caráter das crianças, cuidando para que aproveitem o tempo com boa leitura ou com programas mais educativos. Existe também uma contradição na filha trabalhar na novela como atriz e depois o pai ter que proibi-la de assistir ao seu próprio trabalho.Se a televisão não quer ter problemas com as autoridades, então que trate de se auto-regulamentar. O ideal para quem detesta qualquer tipo de imposição governamental ou repele a crítica pudibunda, é resistir ao comichão de explorar os baixos instintos do homem.Importante, sim, discutir as mazelas sociais como a violência, o uso de drogas. Isso pode nos ajudar a lidar com elas, como se justifica Manoel Carlos, autor de Laços de Família. Mas é obrigação de cada produtor de conteúdo ter a exata noção dos limites éticos do seu ofício. Quando a ganância por maiores ganhos embotam esse sentido, é preciso que alguém apareça para reavivá-lo, com uma punição que doa no bolso. Embasbacado com a beleza de Vera Fischer, provavelmente FHC tenha se esquecido de pedir moderação. Pelo menos a turminha da Globo voltou para o Rio ciente de que o presidente estava no papo.