08 de julho de 2026
Geral

Solidão em família

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Há dois anos a psicanalista francesa Françoise Dolto lançou um livro intitulado Solidão, com base em pesquisas de casos que se passaram nos mais de 30 anos de consultório da autora. Para ela, as vivências mais radicais de solidão que temos na vida são as primeiras: o parto (que separa o feto do útero) e o desmame (que separa o bebê do seio da mãe).Há duas formas de o bebê reagir à solidão e a predominante forma sua personalidade.Uma é a simbólica, na qual o bebê tenta a comunicação à distância. Ele chora, aprende a se mover, a dominar o espaço. A outra é a do fetiche, que silencia a comunicação; é quando o bebê se satisfaz com a chupeta ou sugando o dedo, ensina a autora.No primeiro caso, o bebê reage de forma construtiva, tentando se comunicar com o mundo; no segundo, ocorre o oposto: ele se isola do mundo e a experiência de estar só ganha gosto amargo, que, se muitas vezes repetido, forma a personalidade hostil de um adulto amargurado. Para a autora, a capacidade de enfrentar a solidão depende da primeira infância e de como a mãe lida com o bebê. Se a mãe costuma conversar com o filho, ele se torna um adulto capaz de enfrentar a solidão. A importância do desmame, por exemplo, é tal que, se malfeito, leva ao alcoolismo na idade adulta: a potencialidade para tornar-se alcoólatra está ligada a uma grande felicidade de comunhão com a mãe durante o aleitamento, que não foi substituída, depois do desmame, por mais atenção e uma intimidade enriquecedora. Os alcoólatras são todos adultos carentes de mãe, diz.Ela conta uma história para ilustrar outros efeitos da solidão na primeira infância. Conheci dois bebês que a mãe alimentava como se desse de comer a cachorros. Cuidava deles, dava papinha nas horas certas, mas, fora esses momentos, estava sempre entregue às panelas. Satisfazia suas necessidades, mas nunca falava com eles. Na idade de entrar para a escola, foi terrível, não queriam de jeito algum. O único prazer das crianças era passear com latas de conservas vazias, nas quais enfiavam pedaços de bichos de pelúcia e de bonecas. As crianças imitavam a mãe, que fazia conservas, mas, no lugar dos alimentos, guardavam pedaços de brinquedos, lembra a psicanalista.Aos 2 anos, porém, a situação se inverte. A solidão, danosa para os bebês, é boa companheira para crianças com mais idade: Deixar as crianças sós (e não no isolamento), respeitando sua solidão aparentemente desocupada, é indispensável para que elas não se tornem robôs dos outros. Estar só é enriquecedor quando isto não é sentido como rejeição. Os pais são os mestres da vida. As crianças deveriam ser ensinadas a jamais confundir amor com dependência, comenta a autora.Segundo Dolto, os adolescentes têm um desequilíbrio revelador em seu comportamento, retraimentos solitários alternam-se com atitudes provocantes. A solidão é a mais perigosa das fugas para o adolescente: a intensidade emocional da atração pelo sexo e o medo de ser ridículo levam ao sentimento de culpa em família por qualquer desejo sexual. Mascarar o desejo com uma capa de indiferença ou contar vantagem, fantasiando conquistas, são meios de bloquear a comunicação autêntica para anular a angústiaA timidez e a solidãoPessoas tímidas tem o perfil ideal para se tornarem solitárias em algum momento de suas vidas, pois o seu acanhamento natural quando não afasta as pessoas, evita que ela se aproxime para começar uma amizade.Umas mais, outras menos, mas cerca de 90% da população já se viu às voltas com ela. Para alguns pesquisadores, a timidez é uma característica hereditária, tanto quanto a cor dos olhos ou dos cabelos. Outros acreditam que o problema não tem origem biológica mas sim é resultado da influência do meio ambiente. Especialistas da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, verificaram que os tímidos possuem até uma atividade cerebral diferente dos extrovertidos. A descoberta gerou uma daquelas perguntas que parecem impossíveis de serem respondidas: as pessoas nascem tímidas porque seu cérebro tem um desenvolvimento diferente ou seu cérebro se desenvolve dessa maneira porque são tímidas?Não há respostas exatas, nem mesmo sobre a forma e intensidade com que cada um reage à própria timidez. Mas é certo que a timidez não é um defeito, mas uma maneira de ser. A pessoa pode desempenhar bem todas as funções que uma pessoa extrovertida desempenha e continuar sendo tímida, porque esta é a sua natureza. O segredo é o tímido saber como desenvolver e utilizar suas habilidades para poder viver normalmente e não cair numa armadilha como a da solidão, por exemplo. Na realidade a timidez não é uma coisa ruim a não ser que atrapalhe a vida da pessoa que a possui. Para viver bem, é importante que o tímido se lembre que as pessoas olham para ele mas não reparam nos seus erros o tempo todo. Correr riscos e rir de si mesmo quando algo dá errado também é uma forma de quebrar a rigidez tão comum nos tímidos. É preciso lembrar sempre que os tímidos também podem ser felizes, ter amigos e ser bem-sucedidos.Na infânciaNem sempre a reação de timidez das crianças é facilmente perceptível. Algumas indicações podem ajudar os pais a perceberem se possuem um pequeno ( e futuro) tímido em casa. Muitas crianças superam a timidez ao crescer, mas o melhor momento para intervir é o mais cedo possível.A criança não pede as coisas que deseja. Por exemplo, na casa do amiguinho sente desejo de tomar um suco, mas não o expressa.Quando convidada para uma festinha de aniversário ou outro evento social ela arranja sintomas físicos para não ir, como dor de cabeça ou de barriga.Ela não tem interesse em participar de festas, reuniões ou acampamentos da escola, nem mesmo os comunica aos pais quando é convidada.Ela brinca sozinha, mesmo quando há outras crianças por perto. Em geral prefere as brincadeiras solitárias, como boneca, em vez de um jogo coletivo.Fica junto com os adultos e não com as outras crianças.É envergonhada, não fala seu nome e não responde quando os outros falam com ela.Como ajudar seu filhoProcurar a ajuda de um especialista é a melhor maneira de curar uma criança tímida mas em casa os pais podem ajudar o filho com algumas atitudes básicas.Não rotule a criança. Ser taxada como tímida afeta seu comportamento e sua percepção de si mesma.Não faça comparações entre ela e outras crianças.Ajude-a a entender seus sentimentos, em vez de briga porque ela não desgruda das suas pernas.Crie situações que estimulem o convívio social. Convide amigos de escola para irem à sua cada, ou leve-a a para retribuir alguma visita. Situações de lazer ajudam na interação social.Estimule-a a falar de si e de seus pontos de vista em casa. Ouça sem julgar, com respeito e interesse. Reforce sua auto-estima.Não force a criança a fazer o que não quer. Esteja atento para perceber seus interesses e crie situações a partir deles.Ensaie as situações. Novidades e mudanças podem ser um pesadelo, porque a criança tende a superestimar o perigo. Se ela vai a uma festa, mudar de escola, de classe ou de casa converse sobre o que ocorrerá, fale sobre as novas coisas que verá ou ouvirá. Se possível visite o local com ela. Quanto mais familiarizada estiver, menos medo sentirá.Não exija perfeição. Uma das crenças mais comuns das crianças tímidas é a de que para se relacionar socialmente elas precisam ser perfeitas o tempo todo. Ajude-a a perceber que pode ser amada e aceita, mesmo tendo defeitos.Receita contra a solidão- A mãe: segundo Françoise Dolto, as mães podem fazer muito para que seus filhos, quando adultos, saibam enfrentar a solidão. A fase do desmame, por exemplo, não deve ser traumática. A autora explica que a potencialidade para a dependência a bebidas alcoólicas está ligada a uma experiência ruim do desmame. Os alcoólatras são carentes de mãe, pois ela foi incrivelmente maravilhosa na fase lactente, mas não foi mãe na fase motora da criança.- O pai: A mãe é a única que tem o poder de entender e retomar a comunicação com o filho? Sim, o pai é um associado da mãe (para a criança). É graças à mãe que a criança tem um pai, não do ponto de vista genético, mas das relações. A mãe é a única que lhe pode dar o sentimento de existir. Em compensação, os sentimentos de culpa só podem ser resolvidos pelo pai. Se o filho se sente culpado, não é a mãe que pode perdoar; é o pai (ou quem ocupe a posição de pai).- Solidão adulta: Na idade adulta, a infância não acabou. A solidão do adulto só existe quando ele perde as figuras de seus pais dentro de si. Quem não tem a sensação de continuidade sente só. Mas se desempenhar o papel de pai ou mãe para alguém deixará de se sentir só. Mesmo que este outro seja um animal, um cachorro por exemplo.