08 de julho de 2026
Geral

Imunoterapia precoce tem prós e contras

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 4 min

Trabalho recente destaca a imunoterapia como único tratamento capaz de alterar o curso natural da doença asmática e que ela deveria ser introduzida precocementeSerá eficaz encaminhar crianças menores de quatro anos de idade a alergistas para realização de testes ou vacinas? Muitos pediatras acreditam que não, pelo fato de, nesta idade, elas ainda não contarem com sistema imunológico bem desenvolvido e apto para responder a tal tratamento. Entretanto, dois pesquisadores americanos publicaram trabalho recente em que destacam a imunoterapia como único tratamento capaz de alterar o curso natural da doença asmática, e que ela deveria ser introduzida precocemente. A informação é de Ataualpa Pereira dos Reis, professor de pós-graduação do Departamento de Bioquímica-Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Estudos muito recentes demonstram que o desenvolvimento de doenças atópicas e asma resultam muito da sensibilização a substâncias capazes de provocar a formação de anticorpos (antígenos) durante os primeiros (1 ou 2) anos de idade, e que outros fatores durante os dois anos iniciais de vida têm papel crucial no aparecimento de doenças alérgicas e asma mais tarde na vida. Notadamente, diversos vírus respiratórios induzem bronquiolite em crianças, o que tem sido considerado um importante fator de risco para alergias crônicas e asma, afirmou Reis. Outros fatores importantes na indução de inflamação crônica e asma são predisposição genética, maturidade das funções pulmonares ao nascimento, fatores nutricionais (incluindo-se aqui a duração da amamentação no seio), qualidade de vida, condições ambientais (presença de ácaros, poeiras, fungos, baratas, etc.) e fumaça de cigarro. Todos estes fatores agem sinergisticamente para o desenvolvimento de uma patologia complexa e que, em última instância, é responsável pela geração de asma crônica e persistente. De acordo com estudos já publicados, a sensibilização pode ocorrer intra-útero, sobretudo para antígenos alimentares em indivíduos atópicos. Portanto, o controle da exposição da mãe a antígenos alimentares e inalatórios potenciais seria uma primeira intervenção no sentido de promover a imunoterapia precoce. É bem conhecida a associação que existe entre alérgenos ambientais e asma, bem como a relação quantitativa entre sensibilização e exposição. Sabe-se que esta possibilidade de sensibilização ocorre bem cedo, até os três anos de idade, e que as medidas de controle ambiental devem ser tomadas já neste período.Em princípio, a imunoterapia precoce deveria ser feita com três ou quatro antígenos aos quais a criança estivesse sensibilizando-se, detectados por testes cutâneos ou pelo conhecimento epidemiológico da predominância dos antígenos na área de moradia.Recentemente, dois trabalhos demonstraram que crianças alérgicas a pólen e que sofreram Imunoterapia na fase inicial de indução tiveram muito menos manifestações alérgicas no seu desenvolvimento, além de grande atenuação da hiperreatividade brônquica e das funções pulmonares, finalizou Reis. Imunoterapia alérgeno-específica é tratamento para alergias respiratóriasA Imunoterapia (IT) como tratamento nas doenças alérgicas foi utilizada pela primeira vez em 1911 por Leonard Noon e, passados quase 90 anos, ainda é largamente utilizada em todo o mundo com bons resultados, apesar das controvérsias. A IT alérgeno-específica consiste na introdução de doses crescentes de determinado alérgeno no organismo. A finalidade é obter uma alteração da resposta alérgica e o controle dos sintomas. Trata-se da manipulação do sistema imune, denominada imunomodulação. Existem três alternativas terapêuticas para tratamento de doenças alérgicas: controle ambiental, uso de medicamentos e a IT específica.A maior parte das doenças alérgicas caracteriza-se por apresentar resposta inflamatória bifásica: imediata e tardia. A fase imediata é mediada por anticorpos da classe IgE, em pacientes geneticamente predispostos, previamente sensibilizados. Quando em contato com os alérgenos, levam à liberação de mediadores químicos. Responsáveis pelas alterações fisiopatológicas e conseqüente surgimento dos sintomas imediatos. Em fase posterior pode ocorrer, nos órgãos afetados, um processo inflamatório secundário, afirmou Fábio Fernandes Morato Castro, médico do Serviço de Alergia e Imunologia Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).Alguns autores têm demonstrado que com a IT há decréscimo na sensibilidade observada em testes cutâneos, causado por redução na liberação de mediadores mastocitários e, após elevação inicial, queda dos níveis de IgE. O diagnóstico das doenças alérgicas baseia-se na história clínica, exame físico e métodos complementares, tais como testes cutâneos e pesquisa de IgE específica. A rinite alérgica caracteriza-se classicamente por espirros, coriza hialina, prurido e obstrução nasal. A asma apresenta episódios de broncoconstrição reversível, caracterizada clinicamente por tosse, sensação de opressão torácica, dispnéia e sibilos. A anamnese tem aspectos peculiares que são fundamentais para o diagnóstico etiológico. A associação da exacerbação dos sintomas com condições de moradia, profissão, clima, medicamentos ou algum animal pode auxiliar muito no diagnóstico. Fatores como ácaros, fungos, alérgenos derivados de animais domésticos e restos de insetos contidos na poeira domiciliar, além de pólens (no sul do país) são importantes alérgenos. Fatores emocionais, físicos, cigarro, odores fortes e clima são agravantes importantes das doenças alérgicas, afirmou Castro.O diagnóstico etiológico correto é condição fundamental para a indicação da IT alérgeno-específica. A falta de documentação e o estigma gerado pelos primeiros anos de uso da IT, quando eram utilizados extratos inapropriados, normalmente de baixa potência, prováveis responsáveis pelos resultados negativos, foram os principais argumentos para o não uso dessa modalidade terapêutica, fato que vem se modificando progressivamente desde a década de 80.Na rinite alérgica a eficácia é medida pela diminuição dos sintomas diários e diminuição das reações nasais à provocação por alérgenos. Estudos têm mostrado resultados satisfatórios mesmo em pacientes que não respondem a um esquema de tratamento medicamentoso ideal, disse Castro.